segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Se fosse com António José Seguro, o PS ganhava

Alexandre Homem Cristo
Observador 31/8/2015

Costa encurralou o PS quando a estratégia de Seguro tinha tudo para funcionar. Se tivesse mantido a busca por compromissos, seria fácil ao PS mostrar que é possível discordar do governo e ser solução
Ao longo do último ano, convencemo-nos de que António José Seguro não tinha o que era necessário para vencer as legislativas, apesar das vitórias eleitorais nas autárquicas e nas europeias. Convencemo-nos ainda que, com António Costa no PS, tudo seria diferente – uma rápida subida nas sondagens, uma possibilidade real de obter uma maioria absoluta, uma garantia de derrota estrondosa da direita. Ora, a um mês das legislativas e a confiar nas sondagens, o cenário é bem diferente do esperado – o PS não descolou nas sondagens, a maioria absoluta parece impossível e a coligação PSD/CDS até pode vencer as eleições. Notar que António Costa foi sobrestimado é dizer o óbvio. A dúvida é se, no sentido inverso, António José Seguro não terá sido subestimado: sob a liderança de Seguro, o PS estaria melhor colocado para vencer? A história não se reescreve, pelo que nunca saberemos. Mas há algo que já podemos afirmar: a estratégia do ex-líder do PS mostrou-se melhor do que a de António Costa e, se este a tivesse seguido, o PS teria possivelmente melhores perspectivas eleitorais.
Os erros de António Costa já foram amplamente diagnosticados. Deu palco ao legado de José Sócrates. Prometeu a ruptura com as políticas do governo, ficando refém da apresentação de uma alternativa que, rompendo, cumprisse também os requisitos de Bruxelas. Deixou-se associar à irresponsabilidade do Syriza. Sobrevalorizou a importância do eleitorado à esquerda do PS, rodeando-se de conselheiros que, por ignorância ou ideologia, tentaram puxar o PS para longe do centro. E isolou-se num negacionismo absurdo a partir do qual o PS se tem esforçado para demonstrar que todas as boas notícias são, afinal, más e que todos os sinais da recuperação económica no país constituem, na verdade, fracassos. No fundo, construiu a sua alternativa na crença de que Portugal seguiria a tendência de outros países europeus, onde se observou o esvaziamento dos partidos do centro-esquerda e um crescimento à esquerda. Enganou-se. E apostou no cavalo errado.
Se os erros de Costa estão diagnosticados, o que não se refere é que António José Seguro os anteviu e que a sua estratégia protegeu o partido de cair na armadilha em que agora se encontra. Justiça lhe seja feita, Seguro percebeu dois aspectos fundamentais. Primeiro, compreendeu a necessidade de se distanciar da governação de Sócrates. A questão nunca foi pessoal (como por vezes se afirmou), mas de bom senso: era inconcebível construir uma alternativa credível e responsável enquanto se estivesse amarrado à irresponsabilidade do anterior governo socialista. Segundo, aceitou as limitações de construir uma alternativa política de centro-esquerda dentro do actual quadro europeu, onde as rupturas são impossíveis. Por isso, trocou ocasionalmente a crispação pelo compromisso, e alcançou acordos com PSD/CDS, como sucedeu em relação à reforma do IRC, em Dezembro de 2013. Só que o problema de Seguro foi que apenas ele percebeu esses dois aspectos fundamentais. Por um lado, o afastamento face ao legado governativo de Sócrates nunca foi aprovado pelo aparelho partidário. Por outro, os seus compromissos foram sucessivamente interpretados como cedências ao governo. Daí para a sua queda bastou um pulo.
Ora, por mais que António Costa seja uma figura política popular, a sucessão na liderança do PS foi mais do que uma simples mudança de nomes, rostos e estilos. Foi, no fundamental, uma mudança de estratégia – Seguro apostou mais nos compromissos, Costa afirmou-se jurando a ruptura. Aí reside o ponto: com as melhorias no país (desemprego, confiança dos consumidores, crescimento económico) e o descrédito em que caíram as soluções do estilo Syriza, a estratégia de Costa encurralou o PS quando a estratégia de Seguro tinha tudo para funcionar. É que, se a busca por compromissos (e acordos) tivesse sido mantida, seria hoje muito fácil ao PS mostrar que é possível discordar do governo e, mesmo assim, fazer parte da solução. Quem sabe, seria até possível reclamar para si parte do mérito da recuperação do país por via das reformas que resultassem desses compromissos. A confiança dos portugueses ganha-se, e esta teria sido uma boa forma de convencer o eleitorado do centro de que é possível alternar sem romper, respeitando a história do partido. É por isso que o PS de Seguro (ou o PS de Costa adoptando a estratégia de Seguro) teria, possivelmente, melhores hipóteses de vencer as eleições.
Afirmar isto não é glorificar António José Seguro. Longe de mim tal intenção, até porque muitas vezes o critiquei neste espaço. Mas, do ponto de vista dos interesses eleitorais do PS, julgo que o tempo deu razão à sua estratégia de longo prazo baseada em compromissos e que esta, hoje, seria muito mais proveitosa do que a opção negacionista de Costa. De facto, durante muito tempo, Costa foi visto como a solução para os males do PS. Mas, se calhar, tornou-se ele próprio um problema. E, agora, não se arrisca apenas a perder as eleições. António Costa arrisca-se a perder eleições que Seguro e a sua estratégia poderiam ganhar. Para quem assaltou a liderança do partido nos termos em que Costa o fez, não haverá maior derrota do que essa.

Missa de Bento XVI para os participantes no encontro anual dos seus ex-alunos ·

Osservatore Romano, 31 de Agosto de 2015

«Verdade, amor e bondade provêm de Deus, tornam o homem puro e encontram-se na palavra que liberta do “esquecimento” de um mundo que já não pensa em Deus». É a mensagem central da homilia de Bento XVI na missa celebrada domingo 30 de Agosto, na igreja do Campo Santo Teutónico no Vaticano, por ocasião do tradicional seminário estivo dos seus ex-alunos, o chamado Ratzinger Schülerkreis. O encontro foi realizado nos últimos dias em Castel Gandolfo sobre o tema «Como falar hoje de Deus».
Para a homilia, pronunciada em alemão, o Papa emérito inspirou-se no trecho do Evangelho de Marcos (7,1-8.14-15.21-23), recordando que exactamente há três anos, na mesma ocasião, o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, tinha colocado a pergunta: «Mas não se deve, talvez, ser purificados também a partir de fora e não só interiormente?» O mal vem só de dentro ou também de fora?». Uma questão interessante, relançou Bento XVI propondo a sua meditação. «Para uma resposta adequada – observou – é necessário ampliar a pergunta e ter em consideração não apenas este trecho evangélico, mas o Evangelho na sua globalidade». Não vem porventura também a nós de fora o mal que nos agride? É o sentido da interrogação feita pelo Papa emérito.
Certamente, é necessário ser purificados de toda a impuridade que está fora, «poderíamos dizer – afirmou ainda Bento XVI – responder com uma higiene exterior às numerosas doenças e, por vezes, epidemias que nos ameaçam». E é bom ter este tipo de responsabilidade em relação ao exterior a fim de que a morte não prevaleça, realçou o Papa emérito. E todavia, prosseguiu, isto não é suficiente porque há também «a epidemia do coração», a interior, que «leva à corrupção e também a outras impurezas, as que conduzem o homem a pensar só em si mesmo e não no bem». Assim adquire importância decisiva, ao lado do culto, o ethos, ou seja «a higiene interior».

Em defesa do Ocidente: capitalista, pluralista e democrático

JOÃO CARLOS ESPADA Público, 31/08/2015 

Os refugiados buscam a paz e a prosperidade geradas no Ocidente por aquilo que tantos criticam: o capitalismo pluralista e democrático.
O regresso de férias é sempre difícil. Aconteceram muitas coisas entretanto. Mas não prestámos atenção detalhada. E não sabemos bem por onde (re)começar.
Uma hipótese reside em começar por observar o privilégio de não ter sido obrigado a prestar atenção detalhada.
De acordo com um discurso que vai crescendo entre nós — em Portugal, na Europa e no Ocidente em geral — este privilégio de não ter de prestar atenção detalhada é um privilégio do “Ocidente opressor”; do “capitalismo, onde crescem as desigualdades”; das “falsas democracias, onde cresce o poder do dinheiro sobre o poder político”; do “egoísmo dos estados-nação capitalistas, que não querem abrir as suas portas aos refugiados do resto do mundo.”
Mas, se a Europa e o Ocidente capitalistas fossem tão pérfidos e opressores, por que motivo é que os refugiados procurariam a Europa e o Ocidente? Por que razão não buscam a Rússia do sr. Putin, ou a Venezuela, ou a Argentina, ou, já agora, Cuba e o Irão? Ou talvez a China, onde o poder do dinheiro privado tem sido sabiamente controlado pelo “altruísmo” central do estado e do partido comunista? Ou, salvo as devidas proporções, a Grécia do Syriza (ou do que resta dele)?
A questão não é inteiramente nova. A antiga Alemanha de Leste — então chamada República Democrática Alemã — também construiu um muro, o chamado Muro de Berlim. Mas o objectivo não era impedir que as pessoas entrassem na Alemanha de Leste. Na verdade, ninguém queria entrar. O objectivo era impedir que as pessoas pudessem sair.
Também Cuba, a “grande vítima do imperialismo americano”, teve um sério problema de migrações. Só que, tal como na Alemanha de Leste, os migrantes não queriam entrar. Eles simplesmente queriam fugir de uma ditadura comunista que condenara as pessoas à pobreza e à opressão. E fugiram: de barco, de jangada, ou a nado. Tal como fugiram os boat-people do Vietname comunista.
O meu ponto é simples. Não é bom haver muros. Mas há uma grande diferença entre erguer muros para impedir a entrada e erguer muros para proibir a saída. Falar contra os muros em geral, sem fazer esta distinção crucial, é, no mínimo, sinal de uma dissonância cognitiva.
Esta dissonância cognitiva existiu no passado em relação à União Soviética e ao comunismo em geral. Uma das primeiras vozes a denunciar essa dissonância morreu durante este mês de Agosto: Robert Conquest, o historiador britânico que primeiro descreveu o terror de Estaline da década de 1930. Como recordaram José Cutileiro, nos seus excelentes obituários do Expresso, e José Manuel Fernandes no Observador, Conquest foi ostracizado por boa parte da comunidade académica ocidental, a começar pela do seu próprio país. Só na década de 1980 — a década de Ronald Reagan, Margaret Thatcher e de João Paulo II — é que a opinião bem pensante teve de começar a reconhecer que Robert Conquest tinha tido razão. (A propósito, Conquest esteve no Estoril Political Forum em 2010, sob a indiferença geral autóctone).
Afinal, tinha havido um terror estalinista. Afinal, havia uma diferença entre o “opressor capitalismo ocidental” e o “libertador e igualitário comunismo soviético”: nas democracias capitalistas ocidentais, controlavam-se passaportes à entrada; no paraíso igualitário comunista, disparavam sobre os seus próprios cidadãos à saída.
Talvez conviesse recordar esta pequena diferença hoje em dia. Temos certamente grandes problemas no Ocidente capitalista e democrático. Dizem que as desigualdades estão a crescer. Dizem que as políticas de austeridade são inadmissíveis. Dizem que o estado social está a ser destruído. Dizem que somos culpados de tudo e do seu contrário.
Mas, em bom rigor, o grande problema central que enfrentamos não tem nada a ver com isso. É um problema humanitário sério face a vagas crescentes de refugiados e migrantes. Eles buscam a paz e a prosperidade geradas no Ocidente por aquilo que tantos criticam: um sistema de governo pluralista e representativo, sob o primado da lei, que protege uma economia independente do poder político, fundada no mercado e no livre empreendimento. Por outras palavras, o capitalismo pluralista e democrático.
Existe, sem dúvida, um grave problema humanitário face às populações que buscam refúgio nas democracias europeias. Mas esse problema não pode ser enfrentado abandonando a defesa dos princípios que fizeram da Europa e do Ocidente o porto de abrigo legitimamente procurado pelas vítimas da ditadura e do fanatismo religioso islâmico.

domingo, 30 de agosto de 2015

Quem é Passos Coelho?

Helena Matos
Observador 30/8/2015
Passos construiu o seu discurso sobre o que tinha de ser. E deu-se bem. Chegou a 2015 à frente do Governo, cumprindo um mandato que quase todos, sobretudo no seu partido, consideravam a prazo.
A pergunta pode parecer o resultado duma distracção: todos os dias vemos Passos Coelho na televisão e nos jornais. Ouvimos-lhe a voz na rádio. O Verão e a doença da mulher puseram-no também nas capas das revistas do coração. Mas apesar disso, ou muito provavelmente também por causa disso, sabemos muito pouco sobre Passos Coelho. E ele, naturalmente, agradece.
Há cinco anos que Passos se tornou líder do PSD. Mas, se repararmos bem, nestes cinco anos Passos expôs-se muito pouco porque havia sempre algo de muito urgente a que tinha de dar resposta. Passos passou para o primeiro plano da política em 2010, ao mesmo tempo que o país entrava na corrida dos PECs, cada um deles sempre o derradeiro e de aprovação tão imprescindível quanto o anterior.
Com o eleitorado do PSD, e sobretudo com aqueles que consideravam impossível continuar a caucionar Sócrates por mais tempo a mostrarem sinais de impaciência crescente, Passos escudava-se invariavelmente na falta de alternativas. Até que chegou o PEC IV. A frase de Marco António Costa que se não é verdadeira é bem achada (“Pedro, ou tens eleições no País ou no partido!”)e a demissão de Sócrates pouparam Passos a ter de se explicar. (Fica sempre a dúvida sobre a decisão que Passos teria tomado caso estivesse no lugar de Sócrates. Pessoalmente arrisco que não se teria demitido.)
Depois vieram o pedido de ajuda externa e as eleições de 2011. Mais uma vez Passos construiu o seu discurso sobre o que tinha de ser. E deu-se bem. Chegou a 2015 à frente do Governo, cumprindo um mandato que quase todos, sobretudo no seu partido, consideravam a prazo.
Para os barões do PSD, Passos, a quem eles acusavam todos os dias de dar sucessivos tiros nos pés, tinha ido ali, em 2011, cumprir aquele período embaraçoso em que ninguém, a não ser um arrivista, estava disposto a ficar na fotografia. Depois, eles, os carregados de apelidos históricos, os que estiveram nos lugares certos no 25 de Abril ou nas sedes maoistas que o tempo tornou bon chic bon genre, seriam chamados a meter as coisas na ordem, num governo de salvação nacional, constituído por notáveis, por figuras, por nomes que são referências a que se juntariam, provenientes da área socialista, outros notáveis, figuras e nomes também eles referências. Passos, o aventureiro passaria a nota de rodapé na muito atribulada história das lideranças do PSD.
Em boa parte tal não aconteceu por culpa de Portas e do PS. Portas, mais a sua estrambólica crise de 2013, ofereceu de bandeja a Passos o cenário para que este se afirmasse, bastando-lhe para tal não se demitir, ou seja, fazer o contrário do que esperavam os notáveis, as figuras, os nomes que são referências e os jornalistas.
Depois veio a proposta de Cavaco Silva: um acordo com o PS que implicava a antecipação das eleições, proposta que na prática era uma entrega de mão beijada do poder ao PS. Mas o PS, cativo de si mesmo e dos seus ódios, rejeitou esse acordo, cometendo aquele que um dia os socialistas perceberão ter sido um dos seus maiores erros. Porque teriam muito provavelmente conseguido maioria absoluta e porque ainda iam a tempo de evitar que Passos saísse como vencedor da crise de 2013 e chegasse enquanto primeiro-ministro tranquilamente ao fim deste mandato. Em 2013, Passos mostrou como consegue transformar numa cortina protectora as dificuldades desse quotidiano político que leva muitos outros líderes a exporem-se e a desgastarem-se.
E agora, em 2015? Agora cabe perguntar, se caso estes quatro anos tivessem sido fáceis ou, melhor dizendo, se não tivessem sido vividos sob clima de emergência, Passos estaria hoje a disputar o lugar de vencedor nas próximas eleições? Tentar responder a esta pergunta leva-nos ao que não sabemos sobre Passos Coelho. Por exemplo, como reagiria ele num país em que a urgência não fosse o cenário que lhe permite mostrar um invejável auto-controlo, no meio de uma classe política que confunde agitação com acção? O que diria e defenderia caso a crise não o tivesse colocado cinco anos a falar sobre o dever e o que teve de fazer?
Passos Coelho revelou-se um bom líder de crise. O que não sabemos é se também é um bom político para tempos normais. Aqueles em que se tomam as decisões que nos levam às crises.

Os africanos estão loucos?

José Maria C.S. André
Correio dos Açores,  Verdadeiro Olhar,  ABC Portuguese Canadian Newspaper,  Spe Deus,  30-VIII-2015

A notícia é extravagante, mas o contexto não fazia prever nada de especial.
No momento em que escrevo, terminou há pouco o encontro e o comunicado final está a ser distribuído em Kinshasa. De 21 a 25 de Agosto de 2015, centenas de jovens, representantes de todos os países de África, debateram a «Educação para uma cultura de paz e de reconciliação». Reconheço que nunca dei nada por estas jornadas, promovidas pela Assembleia das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM) e acolhidas em Kinshasa pela Conferência Episcopal da República Democrática do Congo (CENCO).
Nunca se viu uma confusão de centenas de jovens surpreenderem o mundo com conclusões geniais. E o tema, desta vez, era coisa meio chocha. Tinha tudo para ser previsível. Parecia óbvio, o que havia que dizer, e realmente foi dito: é preciso acabar com a vaga de violência que tem assolado a África, fruto de sectarismos ideológicos ou de raça, outras vezes relacionada com a prática semilegal da escravatura.
Para que é que esta pequena multidão de jovens africanos, do Egipto até à África do Sul, precisou de tantos dias para discutir o assunto? Que mais nos reserva este pontificado?
Inspirada na revolução em curso, desencadeada pelo Papa, aquela gente saiu-se com a seguinte equação. Se queremos paz, temos de procurar a reconciliação; quem quer a reconciliação, tem de começar por se confessar.
Esta dinâmica, instaurada por Francisco está a ter impacto em zonas importantes do mundo. Em vários países da Europa, as estatísticas registaram uma redescoberta do sacramento da Confissão e do hábito de pedir perdão na família, mas, de acordo com as informações de que disponho, ainda não é claro se esta mensagem está a ter um efeito comparável noutras regiões do globo. Aos poucos, chegam indícios surpreendentes, que mostram que algo muito profundo está mesmo a acontecer.
Não é uma teoria, ou um movimento de entusiasmo, é uma nova forma de olhar a vida. É descobrir que se pode recomeçar sempre, porque Deus ama sem medida e perdoa sempre.
Antes, lamentávamo-nos: «tenho pena, mas agora tenho de viver assim, não posso voltar atrás». A perspectiva agora é a oposta: «vale a pena o esforço. Nada está perdido. Deus perdoa e eu confio em que Ele me vai ajudar. Porque Deus quer que eu seja muito feliz».
De uma maneira geral, em Portugal não estamos muito atentos à mensagem da Igreja. Não temos tempo. Depois, Portugal está longe de Roma e a língua é diferente. Acresce que já sabemos tudo, ou julgamos que sabemos (o que vai dar ao mesmo). Por outro lado, habituámo-nos a um tal frenesim de novidades que ficamos sem disponibilidade para repensar a vida. Para a Igreja chegar ao cabeçalho da página, é preciso que um padre abuse de uma criança ou haja uma troca de insultos de proporções graves, documentada com fotografias. Abaixo desse clímax emocional, tudo é desinteressante e banalidade.
Entretanto, lá longe, centenas de jovens de todos os países da África, talvez porque já viram cadáveres a escorrer sangue, chegaram à conclusão de que é altura de voltar no sacramento da Confissão.
Que o Papa fale nisso, não seria a primeira vez. Que de uma multidão de jovens saia esta conclusão... algo está mesmo a mudar à nossa frente.

Agosto de 2015: um dos grupos presentes na conferência panafricana de jovens.

sábado, 29 de agosto de 2015

As cartas de Costa

Inês Teotónio Pereira, ionline, 20150830

Diga-me cá, caro amigo, porque é que não escreveu “Caras e caros amigas”? 

Ah, pois é… o computador deu erro, queres ver?
Para quem ainda está a banhos como eu e se preocupa quase exclusivamente com o estado do tempo e com o estado do mar, as cartas de António Costa chegam-nos tarde, sem cronologia, sem contexto e, de alguma forma, abruptamente. Li uma delas ao calhas. Caiu-me no computador num dos dias em que apanhei wi-fi gratuita, mas escapou-me a data. A carta que li é intemporal. Fala de empobrecimento, do esforço que a direita faz todos os dias para empobrecer o país, de como PS vai criar empregos para todos e para todas e fala de cultura e de inovação. A carta pode ter 20, dez ou apenas quatro anos. Não sei, escapou-me a data. O vazio, como se sabe, não tem data, não tem princípio nem fim. Não precisa. 
Li a carta do princípio ao fim e fiquei com várias dúvidas. Sobre o conteúdo propriamente dito, e tendo em conta que todos os dias leio livros infantis ao meu filho de dois anos, acho que percebi tudo – amor, esperança, cultura, confiança, cool, cenas fracturantes e depois logo se vê quem paga a conta. Não há novidade. A minha principal dúvida tem a ver com a utilidade da carta. Os meus filhos, por exemplo, escrevem cartas porque os professores mandam, porque são obrigados e porque está no currículo do primeiro ciclo. Mas tirando os professores, já ninguém lê cartas. Por isso, a minha primeira dúvida tem a ver com o objectivo final da missiva: para que raio é que isto serve? Quem é que vai votar no PS por causa de cartas como estas? Quem é que as vai ler sem ser por obrigação profissional ou para gozar? Além da família e amigos mais próximos, claro. Não faz sentido. 
A minha outra dúvida, mais séria, tem a ver com a igualdade de género. Dr. Costa, tinha o dr. Costa escrito estas cartas no Brasil ou nos EUA e já tinha manifestações à porta de sua casa, de organizações do tipo ILGA a pedirem a sua cabeça e sabe-se lá mais o quê. Então não é que o senhor começa as cartas com “Caras e caros amigos”? Ora isto nos dias de hoje não é admissível. Num mundo onde se discute a terceira casa de banho e que anseia pela proliferação de géneros de forma a igualar o número de géneros de seres humanos à variedade da pêra, vem o senhor dirigir-se aos eleitores, eleitoras e outros com um simples caras e caros amigos. E nem sequer inclui as amigas. Acha que eu sou sua cara amigo? Incrível. Isto revela algum machismo, algum complexo cultural, resquícios de uma educação quiçá conservadora ou, pior, ainda vamos descobrir que tem um tio-avô católico, monárquico ou até marialva. Uma vergonha. Diga-me cá, caro amigo, porque é que não escreveu “Caras e caros amigas”? Ah, pois é… O computador deu erro, queres ver? Pois o mínimo era ter escrito “Caras e caros amigas e amigos, respectivamente”. Menos do que isso parece-me um insulto a todos e a todas as suas caras amigas, aos seus caros amigos e a outros e a outras que não são uma coisa nem outra. Um insulto a todos os que votaram em si para a Câmara de Lisboa e até a toda uma Juventude Socialista reaccionária, rebelde, moderna, que quer fracturar tudo o que sejam causas fracturáveis (ou isso ou cargos na administração pública). Pois foi isto que me indignou na carta que escreveu. A traição aos seus amigos, amigas e outros. Aos seres humanos, vá. 
Outra dúvida que as missivas me causaram (já vão em cinco, verdade?) tem a ver com o local. Então, segundo se pode ver nas cartas, o senhor mudou-se de Lisboa para Fontanelas a determinada altura da semana. Diga--me cá, de quem foi a ideia de escrever que nos está a escrever de Fontanelas? A quem interessa isso, meu Deus? Diga-me, a sua ideia é escrever um diário de ideias ocas ou cartas ao pessoal indeciso que, a cada carta sua, fica menos indeciso e mais decidido a votar noutro partido qualquer? Ora aqui vão dois conselhos de amiga: escreva sempre de Lisboa (Fontanelas é distrito de Lisboa e convenhamos que apesar de ser lá perto, não é Nafarros…) e tenha cuidado com a questão do género. Se continua assim, a sua JS ainda se passa para o Nós Cidadãos, para o Livre ou, quem sabe, até para o PAN.
Boa sorte, caro amigo. 

TGV: terrorismo a alta velocidade

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 29/8/2015

O feito heróico fica com quem o praticou, mas a lição é para todos. Não temos o TGV, mas também temos criminosos, heróis e cobardes. Tal como havia dentro daquele TGV. Os heróis fazem a diferença.
Pelo seu carácter excepcional, vale a pena recordar o heróico episódio de sexta-feira passada, 21 de Agosto, a bordo do TGV Amesterdão-Paris.
Quando o comboio estava perto da estação de Arras, no norte de França, ainda próximo da fronteira com a Bélgica, Ayoub El-Khazzani, armado até aos dentes, fez tenção de atacar os passageiros. Felizmente, na carruagem viajavam também, entre outros, quatro bravos, que fizeram frente ao guerrilheiro islâmico: um consultor inglês de 62 anos, Chris Norman; e três norte-americanos, o estudante Antonhy Sandler e seus amigos militares, Spencer Stone, da Força Aérea, em serviço na base das Lajes, nos Açores, e Alek Skarlatos, da Guarda Nacional dos Estados Unidos da América.
Que a França seja socorrida, in extremis, por um britânico e três norte-americanos, tem a sua graça, neste septuagésimo aniversário da vitória da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos na II Guerra Mundial… Não sei se foi para honrar essa memória, mas o presidente francês concedeu a mais alta condecoração do seu país, a Legião de Honra, aos principais protagonistas da acção que frustrou este ataque no TGV gaulês.
A principal arma dos terroristas não é militar – metralhadoras, bombas ou granadas – mas  psicológica, ou seja, o terror. Semear o medo é o que, em primeiro lugar, se pretende com o terrorismo: criar um estado de pânico que, na realidade, impeça qualquer tipo de reacção. Por isso, é fundamental que o ocidente não se agache ante as pretensões totalitárias dos extremistas. Por esta razão foi necessário reagir contra o atentado ao semanário Charlie Hebdo, por mais indecentes que fossem – e eram mesmo! – as suas graçolas de muito mau gosto e duvidoso humor.
O feito heróico fica com quem o praticou, mas a lição é para todos. Ou seja, não basta que os Estados e as forças de segurança zelem pela defesa dos direitos, garantias e liberdades fundamentais; é preciso que todos e cada um dos cidadãos se consciencialize que este combate também lhe diz respeito.
Ante o alheamento dos ferroviários que, em vez de fazerem frente ao terrorista marroquino, se trancaram na cabine, deixando indefesos os passageiros, entre os quais também havia crianças, houve quem tivesse a coragem de pôr em risco a sua vida. O herói não é alguém que, como um louco temerário, ignora o perigo, mas quem, conhecendo-o, faz-lhe frente. Sabe que também pode morrer, mas prefere perder a vida com honra, do que conservá-la à custa de uma infame cobardia. Foi essa a grande lição que os heróis do TGV deram à França e ao mundo inteiro e que os fez merecer, com toda a justiça, a Legião de Honra.
Dados os nossos brandos costumes, não abundam as ocasiões de protagonizar gestos de um tal heroísmo. Não temos o TGV, mas temos criminosos, heróis e cobardes. Num assalto à mão armada, em plena via pública, quantas pessoas seriam capazes de socorrer a vítima? Quantos passageiros de um comboio, autocarro ou eléctrico, teriam a coragem de fazer frente a um carteirista, apanhado em flagrante?! Não é verdade que a maioria das pessoas, nessas situações, prefere não se dar por aludida, deixando impune o atacante e a vítima entregue à sua triste sorte?
Na sociedade pós-moderna está instalado um certo terrorismo social, que é o ambiente propício para o crime urbano. Em vez da solidariedade cristã, que vê no outro um alter ego, há um clima de indiferença generalizada, que leva a que cada qual só se importe consigo mesmo e com a segurança dos seus familiares e dos seus bens. Mas, quem se desinteressa do bem comum, é também vítima dessa indiferença e, certamente, cúmplice, por omissão, dos que se aproveitam criminosamente dessa passividade.
Faltam heróis da vida comum. Na nomenclatura religiosa, esses defensores da verdade e do bem têm um nome: são os santos. A principal virtude cristã não é a da religião, mas a da caridade: “ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).
Seria asfixiante, como uma prisão ou um campo de concentração, uma sociedade em que todos fossem vigiados. Salvo o caso de guerra, não é desejável que cada cidadão seja um soldado, mas todos devemos ser guardiões da justiça e da paz. Só quem vence o egoísmo, pode ousar lutar contra todos os medos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Adivinhem quem voltou? Se dúvidas houvesse, Nelson apontou para o apelido

NELSON MARQUES Expresso, 28.08.2015

Esta quinta-feira, ao ver Nelson Évora voar para o bronze nos Mundiais de atletismo, depois de anos de calvário, lembrei-me da extraordinária Vanessa Fernandes. Já ninguém se lembra de Vanessa. Chegou a melhor do mundo no triatlo em 2007, conquistou a prata nos Jogos Olímpicos de 2008 e depois caiu no abismo da depressão. Mas eu lembro-me bem daquela prova olímpica, em 2008, também ali em Pequim, onde Nelson foi campeão olímpico e onde agora voltou a ser feliz. Há seis anos, Vanessa viu fugir a tricampeã mundial Emma Snowsill para o ouro e parecia perder gás na luta por uma medalha olímpica. Quem, como eu, seguia a corrida, temeu o pior. Foi então que se ouviu a voz do pai, Venceslau Fernandes, que venceu a Volta a Portugal aos 39 anos e só parou de pedalar aos 45: "Aguenta, Vanessa, aguenta! É até cair! É até cair!".
Foi, ao mesmo tempo, assustador e emocionante. Há uma parte de nós que não pode deixar de se chocar por ver um pai querer levar uma filha ao limite. Mas há outra que se emociona com a superação de uma atleta perante as adversidades, capaz de ir buscar forças onde estas pareciam não existir. Não sei se Vanessa ouviu os incentivos berrados pelo pai, mas ela lá aguentou. Tanto que conquistou uma medalha de prata que lhe soube a ouro, admitiu no final. Mais tarde, quebrou. Nunca mais foi a mesma, desapareceu das competições, caiu no esquecimento. Quando esboçou um regresso e lhe perguntaram do que sentiu mais falta enquanto esteve afastada, respondeu: "Da dor". Nenhum poeta o escreveria melhor.
Esta dor não é fingimento. Experimentem perguntar ao Nelson Évora o que sentiu quando, já depois de ter acabado um treino, decidiu voltar para trás para dar mais um salto e, crac, sentiu a tíbia partir-se. Perguntem-lhe o que sentiu quando soube que não podia defender o título olímpico, quando foi operado seis vezes em quatro anos, quando lhe disseram que corria o risco de lhe amputarem a perna direita. Perguntem-lhe o que é querer saltar e não poder, darem-no como morto para o atletismo, perder patrocínios, questionar-se se valia a pena sofrer tanto. Logo ele, que tinha sido campeão olímpico e mundial, que não tinha mais nada a provar a ninguém. Podia ter desistido, ninguém o recriminaria. Agora, perguntem-lhe o que sentiu esta quinta-feira quando, ao último salto, ali naquele Ninho de Pássaro onde conquistou o ouro olímpico, conseguiu o bronze nos Mundiais e arrancou o dorsal do peito, apontando para o seu nome, como quem diz que a Fénix renasceu.
Agora acreditamos nele, mas houve uma altura em que só ele acreditava. Há dois anos, disse-me que voltaria mais forte do que nunca e que ainda ambicionava chegar aos 18 metros, barreira mítica que só cinco atletas na história do triplo salto conseguiram ultrapassar. E eu interrogava-me se seria determinado ou ingénuo, porque um homem não poderia ser mais forte depois de ter fraturado a tíbia e passar mais tempo em cirurgias e em fisioterapia do que nas pistas. Nelson ainda não é o mais forte do mundo, mas não duvidem de que os adversários já estão de olho nele para os Jogos Olímpicos do próximo ano, no Rio de Janeiro.
Esta quinta-feira, como quando Rosa Mota (maratona, 1988) e Fernanda Ribeiro (10.000m, 1996) correram para o ouro, como na prata de Vanessa em Pequim (triatlo, 2008) e de Obikwelu em Atenas (100m, 2006), como no bronze de Rui Silva (1500m, 2004) e em tantas outras conquistas do atletismo e do desporto nacional, voltei a estar colado à televisão (e, agora, também à internet). Portugal não parou para ver o Nelson saltar como faz quando a seleção de futebol joga num grande campeonato, mas devia tê-lo feito. Porque ele é um exemplo do melhor que o país tem e do melhor que podemos ser se acreditarmos em nós. Tudo nele é sangue, suor e lágrimas, esforço, determinação e devoção. Quem tanto sacrificou para ali estar, merece toda a atenção e todos os aplausos. E merecia que o "Correio da Manhã", o "i" e o "Sol" não se tivessem esquecido dele nas primeiras páginas desta sexta-feira.
Infelizmente, há uma elite pseudointelectualoide que despreza o desporto, porque o desporto é coisa das massas. Nunca terão lido Albert Camus, o filósofo que foi guarda-redes de futebol até aos 17 anos e que não prosseguiu uma carreira promissora devido a uma tuberculose. "Depois de ter visto muitas coisas em muitos anos, tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol e ao que aprendi no Racing Universitário de Argel", escreveu nos anos 50.

Depois da prova, Nelson Évora deu um salto ao Facebook para deixar uma curta mensagem aos fãs. "Vocês sabem o que este bronze representa". Haverá quem pense que é pouco para quem já foi o melhor do mundo. Não é. É um feito incrível para quem sofreu o que ele sofreu. Merece bem estes versos que Manuel Alegre dedicou a Carlos Lopes, depois de o português ter vencido a maratona olímpica em 1984: "Mais do que ser primeiro/ herói é quem / sabe dar-se inteiro / e dentro de si mesmo, ir mais além".

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O meu Algarve

JOÃO TABORDA DA GAMA
DN 2015.08.28

O meu Algarve não tem mar, nem areia, nem raquetes, nem rochas. O meu Algarve não tem sal nem Sul, é no meio de Portugal. Não tem mar nem rio, mas tem água e é até por causa da água que ela existe. Água de beber, que vem do centro da terra. Na Curia curam-se tiroides baralhadas, reumáticos joelhos, rins ruins. Tudo por causa do quimismo da água que, no que toca à mineralização total, é hipersalina e apresenta uma composição iónica sulfatada e cálcica, como de resto se pode ler no site. A água da Curia dá a vida eterna, ou pelo menos parece que dá, o que dá no mesmo, lá as velhices parecem mais lentas.
Passo sempre férias no Palace Hotel da Curia, hoje menos, antes quinze religiosos dias, de um a quinze, de agosto claro está, porque de um a quinze é coisa que só acontece em agosto. O quarto era sempre o mesmo, o cento e vinte sete, agora mudaram a numeração, e o quarto também não pode ser o mesmo com o número novo, porque antes era só eu e o meu avô, e agora sou eu mai-los bisnetos dele, que não se conheceram, ou melhor que se vão conhecendo também por passarem férias no mesmo sítio, mas que não cabem todos no mesmo quarto e por isso tem de ser outro quarto, ou outros. A palavra mai-los não deve estar correta, e pouco ou nada se usa, mas lia--a ontem à noite e gostei muito, num livro impressionante, Padre Américo - Páginas Escolhidas (Modo de Ler, 2008), hei de falar disto.
O Palace Hotel da Curia é o melhor hotel do mundo, uma opinião pessoal que é verdade, porque a verdade só existe no que achamos. Tem cheiro de hotel, corredores de hotel, portas de hotel, histórias de hotel. Não foi, mas podia ter sido lá, naqueles corredores e naquelas histórias cruzadas repetidas ano a ano, que Resnais se inspirou para o O Ano Passado em Marienbad; não foi, mas podia ter sido lá, e naqueles velhotes eternos, que Ron Howard se inspirou para o Cocoon; ou Thomas Mann para A Montanha Mágica; ou Wes Anderson para o Grande Hotel Budapeste. Foi lá filmada, no elevador antigo, hoje desativado, por alguma regra de segurança, contida numa diretiva qualquer muito feita a con- tento do Big Lift (o setor das maiores empresas mundiais de ascensores), a famosa cena da Balada da Praia dos Cães.
O Palace hoje tem famílias sobretudo no primeiro grau de parentesco e alguns, cada vez mais, turistas. Mas o Palace do meu tempo era povoado sobretudo por gente do Norte, na maioria avós com netos, ali deixados num regime de liberdade incondicional, ambos avós e netos, sem pais à mistura a olhar, num regime de amor livre. Vários netos num hotel de velhotes, é como se aquelas excursões de nove euros Fátima-Batalha-Óbidos-Nazaré-Mafra, para vender tupperwares e aparelhos auditivos por engano acabasse na Idanha durante o Boom Festival. Na sala de refeições, filetes de pescada com maionese, leitão, consomé, sopa juliana, paillards ao momento, uma dança de empregados, clientes, olhares, sinais de uma mesa para as outras, tudo antes dos sms (The Presentation of Self in Everyday Life, diria o senhor Goffman). O grupo repetia-se, amigos que guardo sem os ver, para sempre. Os dias na piscina, grande, de proporções olímpicas, que curiosamente não têm encolhido com o passar do tempo, pranchas, gelados, saltos. O hotel é de 1926 (projeto de Norte Júnior), mas a piscina inspirada num paquete é de 1934. Hoje as pranchas estão desativadas, por razões de segurança, e os baloiços e carrosséis foram desmontados, por razões de segurança, que hoje aquilo são mais mães com filho, e as mães, já se sabe, preocupam-se mais com a mortalidade infantil, sobretudo a dos próprios infantes.
Mas havia ali qualquer coisa que salvava, ainda há, uma mão por baixo, que guardava do disparate maior, quando tudo tendia mais para a ilha do Senhor das Moscas de Golding, ou para A Praia de Garland. De onde vinha isto? Em quarenta anos não me lembro de ter bebido daquela água. Mesmo os mais velhos tão-pouco a bebiam. Mas diziam que o efeito era o mesmo, que eram os ares, ou que era a água da torneira, ou a da piscina, onde não se metiam, mas para onde olhavam. São curiosas as curas da Curia.
Volto sempre ao meu Algarve, na Mealhada, sem medo de voltar aonde fui feliz. Porque só tem medo de voltar aonde foi feliz quem nunca foi verdadeiramente feliz. Ou verdadeiramente infeliz.

Job

Paulo Tunhas
Observador 27/8/2015

O que o Livro de Job diz já chega para muito no que respeita ao sofrimento. E à estupidez. O Livro de Job é mesmo um grande escrito sobre a estupidez humana.
Há escritos que parecem conter tudo o que se pode dizer de essencial sobre uma determinada matéria. Tome-se, por exemplo, o sofrimento. Conhecemos directamente o sofrimento ao longo das nossas vidas, e desde o princípio, de múltiplas maneiras. E conhecemo-lo indirectamente através dos outros. As duas formas de conhecimento encontram-se, é claro, tão ligadas em tantos casos, quando o sofrimento dos outros vem de nós, e o nosso dos outros, que é difícil separá-las absolutamente.  Para além disso, a arte – a poesia, a música, o romance, a pintura, os filmes, tudo – fala-nos do sofrimento. E a televisão expõem-no, devida ou indevidamente, mais indevida do que devidamente, várias vezes ao dia. Estamos, literalmente, rodeados de sofrimento. Mas, na medida em que há algo de essencial que se deixa exprimir no capítulo sob a forma de palavras, não conheço escrito que melhor o faça, de um modo indisfarçadamente humano, do que o Livro de Job.
A história começa, como se sabe, com um desafio de Satanás a Deus. Job é um homem de uma impecável rectidão e temente a Deus. Mas, diz Satanás, se Deus lhe tocar nos seus bens, rectidão e temor desaparecerão num instante. Ora, Deus toca efectivamente nos seus bens. Todas as suas propriedades são roubadas e destruídas – e todos os seus filhos mortos. Acontece que Job reage à catástrofe bendizendo Deus e sem cometer blasfémia alguma, tudo aceitando. Vendo isto, Satanás – com alguma razão, diga-se de passagem – não desarma, e aconselha Deus, a benefício de uma prova conclusiva, a tocar Job directamente no corpo, nos ossos e na carne. E Deus envia a Job uma lepra maligna que lhe enche o corpo de pús. E aí o caso, sob certos aspectos, muda sensivelmente de figura.
E muda sobretudo de figura por causa da visita de três amigos – Elifaz, Baldad e Sofar – que, a princípio, nem sequer o reconhecem, tal a desfiguração provocada pela lepra. Seguem-se sete noites e sete dias de silêncio, até que Job, na presença dos amigos, amaldiçoa o dia do seu nascimento. E os amigos e Job começam a alternar discursos, a partir de um padrão que se repete: enquanto Job insiste em que o seu sofrimento não faz sentido (tendo sido ele sempre um homem recto e piedoso), os amigos, que se supõem um saber maior do que o de Job, procuram-lhe exactamente mostrar que o seu sofrimento faz sentido, isto é, que as suas causas são inteligíveis e compreensíveis. O sofrimento físico e moral extremo de Job é, por assim dizer, ampliado por essa afirmação de sentido para o seu sofrimento que lhe vem da boca dos amigos.
O sofrimento de Job não se podia expressar de forma mais veemente. As setas de Deus estão cravadas nele e a carne, coberta de podridão e imundície, sente-lhes o veneno. Os seus inimigos olham-no com olhos terríveis, abrem a boca para o devorar e batem-lhe no rosto para o ultrajar. Deus despedaça-lhe o corpo com feridas sobre feridas e atira-se a ele, objecto de escárnio, como um guerreiro. Os homens cospem-lhe no rosto e Job sente-se filho da podridão e dos vermes. Irmãos e amigos afastam-se. Os criados olham-no com ar estranho, e tem de suplicar para que o sirvam. A mulher sente repugnância do seu hálito. A pele cola-se aos seus ossos descarnados. Perseguido por Deus e invadido de terror, a sua alma dissolve-se. É preciso realmente ler o texto para nos darmos conta tanto da extrema solidão em que Job se encontra quanto da terrível indistinção entre a enorme dor física e o mal moral que lhe faz dissolver a alma. As imagens de que Job se serve (limitei-me a alguns exemplos) mostram-no da forma mais absoluta.
E o que lhe dizem os amigos? Que nenhuma coisa sucede no mundo sem motivo. Que o querem instruir. Que os lamentos de Job só revelam ignorância, uma ignorância que merece repreensão. Que Job não conhece os segredos da sabedoria de Deus, que não compreende os seus caminhos ou a sua omnipotência. Que o que Job diz apenas mostra a sua iniquidade e a sua cólera contra Deus. Que os seus discursos intermináveis são o resultado de falta de reflexão. Qual é o fundo daquilo que os amigos dizem, a partir do qual falam? A estupidez, a nua e crua estupidez humana. Aqui essencialmente representada pela incapacidade radical de imaginar a solidão alheia de uma outra forma que não seja a da altiva e diabólica vontade de não comunicar, a do orgulho do miserável.
Job, naturalmente, não agradece tanta sabedoria vinda em seu auxílio. “Na verdade vós sois homens hábeis e convosco morrerá a sabedoria”, nota ironicamente. Para ele, é escárnio invocar Deus em busca de resposta. É com Deus, e não com gente que não sabe mais do que ele e que pretende patrocinar a causa divina, que gostaria de falar. Job também se irrita com os longos discursos dos amigos, “consoladores importunos”: “Quando terão fim essas palavras de vento?”. Elas só podem vir, ponto importante, de alguém que não se encontra no seu lugar: “Eu também podia falar como vós, se estivésseis no meu lugar.” Tão vãs consolações não são mais do que perfídia.
Depois do discurso de um quinto personagem, Eliú, é o próprio Deus que intervém na querela. Certamente que para lembrar a Job a ignorância em que este se encontra da sua sabedoria, mas igualmente para censurar aos amigos de Job a soberba de pretenderem conhecer os desígnios divinos. De facto, a censura a Job é bem menos radical do que aquela que é dirigida aos seus amigos. Na sua derrelição, no seu desamparo radical, Job havia sido mais recto para com Deus do que os seus amigos. E Deus restituiu-lhe com vantagem tudo o que Job havia perdido.
Não tenho, é claro, quaisquer competências em matéria de teologia bíblica, apesar de ter procurado aplicadamente aprender uma coisa ou outra desde que (muito tarde, aos vinte e cinco anos) comecei a ler a Bíblia. Mas o Livro de Job (toda a Bíblia, de resto) fala por si. E não fiz caso dos vários estratos de composição do texto, que obviamente determinam o sentido da leitura. Mas estas deficiências, que já não vou a tempo de emendar, não me impedem de de ver no Livro de Job o grande livro sobre o sofrimento humano. Não que o sofrimento, ou o mal, sejam o mais desejável objecto de pensamento: o prazer, ou o bem, são-no de preferência – e de longe. Mas o sofrimento acompanha-nos pela vida inteira e o Livro de Job diz-nos, de facto, algo de essencial sobre ele.
Diz-nos, por exemplo, que há um valor do silêncio face ao sofrimento. Se os amigos de Job mantivessem o seu silêncio dos primeiros sete dias e das primeiras sete noites, e não pretendessem instruir Job, o sofrimento deste, por maior que fosse o seu estado de abandono, seria menor do que aquele em que se tornou. Os amigos, de resto, eram provavelmente bem-intencionados, mas sofriam daquela espécie de estupidez ontológica que nos atravessa face às grandes dores alheias, físicas ou morais (chamemos-lhes assim). O sofrimento, na sua dimensão mais profunda, é incomunicável, vem de um lugar onde não estamos – ou ainda não estamos -, e, por isso, insusceptível de discussão. Nessa medida, que é a grande medida, é Job quem tem razão: ele não faz, literalmente, sentido. Os amigos querem que ele faça sentido e caem infalivelmente na tagarelice, mais ou menos pedante e certamente obscena. É uma tentação natural, sem dúvida. Queremos falar, e, falando, buscar sentido. Mas, pura e simplesmente, em certas situações é uma tentação a evitar. Há pretensões de comunidade que são abusivas.
A irritação de Job é legítima contra a estupidez dos amigos. Isto eu percebo. Quanto a Deus, não sei nada, tirando conhecer algo do que sobre Deus foi pensado, e por isso sou, prudentemente e sem heroísmo, antes pelo contrário, ateu. Mas o que o Livro de Job diz já chega para muito no que respeita ao sofrimento. E à estupidez. O Livro de Job é também um grande escrito sobre a estupidez humana.

Vídeo mostra migrantes a recusarem ajuda da Cruz Vermelha

Graça Andrade Ramos - RTP 27 Ago, 2015
Polícia da Macedónia dia 21 de agosto de 2015, de guarda junto a uma barreira fronteiriça de arame onde se encostam centenas de migrantes vindos do Médio Oriente e que pretendem chegar à Europa central. | Alexandros Avramidis - Reuters
O vídeo dura um minuto e 25 segundos e está circular nas redes sociais como alegada prova de riscos da entrada na Europa de migrantes muçulmanos vindos do Médio Oriente. A cena passou-se na fronteira da Macedónia e mostra algumas centenas de pessoas a recusarem receber pacotes de auxílio marcados com o símbolo da Cruz Vermelha.
A primeira publicação do vídeo no YouTube data de 22 de agosto, mas é impossível perceber a data da gravação das imagens. 
Nas imagens, gravadas após uma chuvada que encharcou tudo, alguns soldados carregados com caixas da Cruz Vermelha tentam aproximar-se dos migrantes encostados a uma barreira fronteiriça de arame junto a algumas tendas. São recebidos com um coro de protestos.
Dezenas de migrantes, alguns com crianças ao colo, erguem os braços e abanam a cabeça em sinal de negação, reforçando a recusa. Os soldados e seus pacotes acabam a voltar para trás, desta vez sob aplausos. 
As descrições das imagens nas várias publicações referem que os migrantes recusaram os pacotes por estes estarem marcados com uma cruz. Uma refere que os migrantes justificaram a atitude porque a cruz "lhes lembra os cruzados", pedindo para ela ser retirada dos pacotes. 
Outros textos referem que um outro motivo da recusa foi o receio da comida ser haraam, ou seja, proibida pelo Islão. Os migrantes terão aceitado chá das mãos dos soldados.
Há vários alimentos, objetos e ações considerados haraam, proibidos especificamente no Corão, nas tradições do profeta Maomé (hadith) ou na sharia (lei muçulmana). Algumas são coincidentes com as proibições judaicas. 
Na alimentação são haraam as carnes de porco, de cão ou de macaco ou até as de aves de rapina, o sangue dos animais, que devem ser sangrados na ocasião do abate, e as bebidas alcoólicas, como cerveja e vinho. 
O vídeo abaixo tem sido difundido sobretudo por blogs e sites de propaganda anti-islâmica.

Stop Abortion

Tiago Cavaco, Facebook, 20150824

Nos Estados Unidos os tempos são de resistência ao aborto. Por que é que a nossa comunicação social não diz nada sobre o assunto? Pois.

Houve manifestações este Sábado passado por todo o país. O pastor baptista John Piper partilhou algumas palavras sobre o dia, que julgo muito úteis para nós, evangélicos em Portugal.
“Não é segredo que a Igreja Católica Romana tem sido a espinha dorsal do movimento pró-vida ao longo de quarenta anos. Agradeço a Deus por esta clareza perseverante em relação à realidade e dignidade da vida humana dos que ainda não nasceram. Não sou um Católico Romano, mas coloquei-me alegremente ao lado deles nesta causa comum de justiça pelos que ainda não nasceram. Quando for o tempo certo, teremos as nossas discussões vivas e agressivas sobre o sacrifício da missa, a regeneração baptismal, e a preciosa doutrina da justificação pela fé. Mas cada coisa tem o seu tempo. Esta manhã o assunto era: Deus está a tecer vida humana à sua imagem dentro do útero; não matem o que ele está a criar.
A minha impressão é que o número de Católicos era minoritário. Talvez eles nos dêem esse benefício uma vez que temos muito trabalho em atraso em relação a eles.”