quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A contra-revolução portuguesa de 2015

Sebastião Reis Bugalho | ionline 2015.12.31


António Costa não é revolucionário nenhum porque não vai trazer nada de novo; a Troika não é novidade em Portugal. O verdadeiro revolucionário foi Pedro Passos Coelho.

A proximidade temporal da nossa República ao Estado Novo faz com que esta tenha um pendor mais à esquerda. O sistema eleitoral parece parado no tempo, causando constante turbulência governativa. A parcialidade da Constituição é gritante. A etimologia dos partidos políticos mostra isto mesmo. A direita tem que se disfarçar de centro-católica. Os conservadores chamam-se democratas-cristãos, os liberais chamam-se sociais-democratas e os sociais-democratas chamam-se socialistas. O facto de apenas o Partido Comunista coincidir com o seu nome prova o ponto. A bússola ideológica está atrasada e desequilibrada. Este fenómeno não é exatamente saudável para a Democracia, nem abona a favor do pluralismo.
Vários progressistas torceram o nariz quando escrevi que defender acerrimamente o Estado-Social se tinha tornado algo reacionário; ou seja, que os programas de partidos socialistas eram símbolo de revanchismo económico (em utopia) ou de populismo eleitoralista (em demagogia) devido à sua instabilidade despesista. Em 2011, alguém no PSD viu uma porta aberta para resolver o problema.
Por natureza, as revoluções têm um momento simbólico de reivindicação, em que a ordem é questionada para se vir a remodelá-la. O chumbar do PEC4 foi a Boston Tea Party do PSD. No século XVIII, os colonos americanos puseram Londres em causa. Em 2011, Passos ignorou os apelos de Durão Barroso e Angela Merkel. A vinda da Troika justificava as privatizações e os cortes brutais na despesa do Estado. A austeridade servia de álibi para a thatcherização do Partido Social-Democrata. A crise mundial e a má gestão do PS eram a razão perfeita para trazer a direita demo-liberal para o país. Tentava-se, pelo mal menor, equilibrar a balança. E se ser liberal é algo radical, um socialista é o quê? Terrorista? Poupemo-nos.
Não é por acaso que a velha guarda odiou o governo de Passos e Portas. A dupla fez-lhes a vida num inferno, noutros tempos. Pedro, na jota, quando era progressista a mais para Cavaco. Paulo, no Independente, quando Cavaco era progressista a mais para este. Chegado ao poder, Passos Coelho seguiu O Príncipe à letra. De avarento a responsável, ganhou a confiança popular que lhe permitiu ser o primeiro governo europeu a vencer eleições após um programa de ajuda externa e a primeira coligação a cumprir uma legislatura em Portugal. O Tribunal Constitucional e a própria Troika impossibilitaram uma liberalização mais conseguida. Pela tal marca ideológica na Constituição e porque o memorando não obrigava apenas a cortes, mas também a um aumento de impostos nada liberal. 
Esta revolução do PSD tinha, assim, tudo para correr mal. O referido sistema eleitoral tornou a reeleição da nova direita numa crise governativa. Contudo, a reação de António Costa aos resultados das legislativas consagra o feito de Passos Coelho. O único modo de o Partido Socialista impedir a direita de governar foi desrespeitar a sua identidade partidária e a decisão do eleitor, unindo-se à extrema-esquerda.
Outubro de 2015 representa o fim do grande fetiche político lusitano: o centro. 
À revolução discreta e conservadora de Passos Coelho, Costa respondeu com uma contra-revolução, com a ruptura para furar a reforma, com uma aliança reacionária condenada ao desacordo. Portugal pode gabar-se de um 25 de Abril sem terrores e sem guerra civil. Estou certo que Passos também estará orgulhoso da sua revolução. Para o bem e para o mal, ambas marcaram a nossa História.

O Ano Bissexto de 2016

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Imagem da Terra em cor falsa, composta de fotos obtidas pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (NASA). O limbo escuro lunar faz o horizonte.
2015 termina hoje, dia 31 de dezembro, às 23h 59m 59,(9)s. Contudo, nesse momento a Terra não terá completado a volta de translação ao Sol. São duas definições bem distintas.
A descoberta e entendimento da duração do ano vem das mais antigas civilizações. Na velha Babilónia o estudo da periodicidade dos fenómenos celestes levou à previsão da sua ocorrência futura. As colheitas abundantes sempre associadas às épocas mais propícias ao cultivo, controlaram a sobrevivência da humanidade, mais concentrada no hemisfério norte do planeta na zona temperada, que passou a depender da previsão astronómica das estações.
Por isso, o estudo do ano solar, da sucessão das épocas agrícolas e o ciclo das estações foi uma tarefa crucial, aperfeiçoada ao longo de milénios. Esta actividade tão fundamental levou à definição de Ano Trópico como o intervalo de tempo entre dois inícios consecutivos da Primavera que, para facilitar a sua contabilização, deve ocorrer sempre no mesma data do ano, atualmente a 20 de Março. O início da Primavera (a norte) define-se pelo instante em que o ponto central do sol passa no plano equatorial terrestre no seu movimento ascendente, o Ponto Vernal. O ano trópico tem duração média de 365d 5h 48m 45,2s = 365,2421897 dias (solares médios).
O calendário solar (Ano Civil) usado pela humanidade tem uma pequena variação: é o Gregoriano que contabiliza anos bissextos a cada ano 4º, mas os anos centenários são regulares, excepto os múltiplos de 400 que são bissextos também. A duração média do Ano Gregoriano é de 365d 5h 49m 12s = 365,24250 dias o que faz atrasar o calendário civil em relação ao Ano Trópico das estações. Precisaremos duma correção no ano 4800 d.C.
Outra duração temporal usada é a do período orbital terrestre, o intervalo médio de tempo que a Terra necessita para completar a sua órbita elíptica ao Sol. Definido como Ano Sideral, pois é medido em relação às estrelas fixas, a sua duração é de 365d 6h 9m 9,8s = 365,2563630 dias. São mais 20m do que o Ano Gregoriano ou Civil.
Porém, se se contar o período de tempo entre a Terra passar em periélios consecutivos (ponto orbital mais próximo do sol) contabilizam-se 365d  6h 13m  52,5s que é designado por Ano Anomalístico. Em 2016 o periélio ocorre a 2 de Janeiro às 23h.
Deste modo, quando esta noite mudar o ano ainda faltarão 20 min para a Terra completar a sua órbita ao sol. E agora a pergunta difícil: que celebração irá fazer? A da meia noite Gregoriana ou a da órbita terrestre 20 minutos depois?  Talvez seja melhor fazer a três: acrescente-lhes a passagem pelo periélio no dia 2 de Janeiro, sábado!
TODA A EQUIPA DO OAL DESEJA-LHE UM PRÓSPERO 2016 !!

Um Bom Ano Novo


A nossa vida está cheia de pontos de recuperação (tal como os recovery points dos sistemas operativos dos nossos portáteis). Marcos de pedra ao longo da estrada que não só assinalam o caminho percorrido, como abrem horizontes renovados no percurso.
Cada manhã, cada semana, começada pela missa do dia do Senhor, assinalando a Ressurreição, cada tempo litúrgico, a Páscoa, o Natal e hoje, o ano que muda, são oportunidades novas, são tempo de misericórdia, da Misericórdia de Deus e da nossa misericórdia para connosco mesmos.
Neste Jubileu da Misericórdia que um bom ano que começa seja um ano de vida na misericórdia. 

Pedro Aguiar Pinto

Barroso e os compadres do capital

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 31/12/2015 - 00:05

Os meus desejos liberais são bem concretos: combater o capitalismo de compadrio.

O meu problema com a conversa de treta do neoliberalismo português é este: em primeiro lugar, confunde políticas impostas a um país intervencionado com profundos desejos ideológicos; em segundo, falha na identificação daquele que é, de longe, o mais grave problema do país – essa terrível doença que em língua inglesa se chama crony capitalism, e que em bom português podemos traduzir por “capitalismo de compadrio”.
A confusão entre um neoliberalismo fantasmagórico e um capitalismo de compadrio bem real tem como trágica consequência desviar as atenções daquilo que realmente importa: o vergonhoso e eterno concubinato entre partidos, deputados, ministros, empresas privadas e Estado. Aquilo que mais me encanita em prosas como as de Alfredo Barroso é não perceberem, ou fingirem que não percebem, que a batida caricatura neoliberal acaba por proteger as costas dos mesmos poderosos que alegadamente pretende enfrentar.
No último fim-de-semana, o Expresso publicou um óptimo texto – “O diabo que nos impariu” – onde se explica como é que neste país se destruíram 40 mil milhões de euros em oito anos, acabando a pátria a nacionalizar uma pilha escandalosa de dívida privada. Aos nomes de ex-políticos que circulam por esse texto – Dias Loureiro, Duarte Lima, Arlindo de Carvalho, Armando Vara –, juntam-se outros bem conhecidos da nossa vida pública, como Luís Filipe Vieira ou Joe Berardo, para além de uma série de ricos indígenas mais ou menos anónimos que têm a particularidade de deixar dívidas em tudo o que é banco falido. Neste país, há uns que têm de penhorar mãe e avó para conseguir um empréstimo, e há outros a quem basta mostrar ao gestor de conta a lista de contactos do telemóvel.
Ora, isto, que é o mais grave, não tem nada a ver com neoliberalismo – e Alfredo Barroso esteve demasiados anos na vida pública, e conhece demasiada gente importante, para fingir que não sabe do que estou a falar. Recordo, aliás, que foi o próprio Mário Soares, de quem Alfredo Barroso foi chefe da Casa Civil, quem contou numa reportagem televisiva recente como convidou Ricardo Salgado a voltar a Portugal e a refundar o grupo Espírito Santo, no início dos anos 90. Quando Salgado lhe disse que não tinha dinheiro para isso, Soares respondeu: “O dinheiro arranja-se.” E arranjou mesmo, via França (“mon ami, Mitterrand”, lembram-se?) e via Crédit Agricole. É assim que as coisas se fazem em Portugal.
E fazem-se assim à direita, à esquerda e ao centro, porque o capitalismo de compadrio não tem ideologia. A areia neoliberal que é diariamente atirada aos nossos olhos não pode apagar a História: pense-se o que se pensar do governo Passos Coelho (e depois do Banif, eu estou a pensar muito mal), foi ele que deixou cair o Banco Espírito Santo. Foram os supostos amigos do grande capital que deram a maior machadada no capitalismo de compadrio da história da nossa democracia. Machadada essa que deve ser festejada por socialistas e por liberais, que querem um Estado mais pequeno não para oferecer dinheiro aos privados, mas para manter longe do Estado os interesses particulares que dele se alimentam desde sempre. Se a conversa da esquerda neo-histérica é babugem abstracta, os meus desejos liberais são bem concretos: combater o capitalismo de compadrio, para que todos possam subir na vida sem precisarem dos números de telemóvel de Miguel Relvas, de Jorge Coelho ou de Mário Soares.

Um ano, seis personagens

FRANCISCO ASSIS Público 31/12/2015

Esta legislatura não vai durar quatro anos. António Costa, para ter sucesso, terá de ter condições para escolher o tema e o momento da crise política anunciadora do seu fim.
Várias personagens e múltiplos acontecimentos marcaram o ano que agora finda. Sem a preocupação de um inventário exaustivo cingir-me-ei à apreciação daquelas que me parecem ter sido as personalidades mais relevantes no período em apreço.
António Costa – O Primeiro-Ministro – numa interpretação restritiva da política enquanto actividade associada ao exercício do poder – é, sem qualquer dúvida, a grande personalidade do ano. Depois de ter derrotado o anterior Secretário-Geral do PS nas primeiras primárias abertas realizadas no nosso país assumiu a liderança do partido num contexto reconhecidamente difícil. Três problemas se lhe 
colocaram de imediato: a exagerada expectativa de caracter sebastiânico-populista projectada na sua figura; a aparente melhoria das condições económico-financeiras do país; a inesperada prisão do antigo Primeiro-Ministro José Sócrates. O percurso de António Costa como líder da oposição teve algo de errático, senão mesmo de contraditório. No Congresso deu sinais de esquerdização no discurso assumindo uma radical oposição à ideia de qualquer entendimento com os partidos situados à direita e insinuando uma hipotética aproximação às formações partidárias localizadas à esquerda do PS. Aquando da apresentação das bases do programa económico pareceu inflectir para o centro abrindo as portas a propostas inovadoras em áreas tão sensíveis como a regulação do mercado laboral, o financiamento do Estado Providência ou a articulação entre a valorização da oferta e o incremento da procura interna. O documento em causa apontava no sentido de uma renovação da perspectiva social-democrata tendo em consideração a opção de fundo pela permanência na zona euro e pela abertura a um mundo globalizado. Durante a campanha eleitoral as coisas não lhe correram muito bem e o resultado obtido a 4 de Outubro não constituiu surpresa para ninguém. Nessa noite, que poderia ter sido a da sua própria morte política, António Costa renasceu. Proferiu uma declaração enigmática, enunciou um princípio geral de responsabilidade e iniciou uma caminhada rumo ao poder. Para isso contou com uma inédita abertura por parte dos partidos da extrema-esquerda parlamentar que se dispuseram a viabilizar um Governo monopartidário do Partido Socialista. O seu feito suscitou apreciações muito diversas: uns ficaram extasiados com a sua proclamada capacidade de negociação, outros incomodados com a natureza doutrinariamente contraditória e politicamente débil da solução encontrada. A verdade é que, pelo menos momentaneamente, se tornou a principal referência política do país. Como homem profundamente pragmático que é não desconhece as dificuldades que se lhe depararão no futuro próximo. Sabe que sempre que estiverem em causa questões de fundo em matéria económica, financeira, de política europeia ou de reformulação do Estado Providencia não poderá contar com o apoio das forças que tornaram o seu Governo possível. Mas também sabe que poderá confrontar os partidos da direita com as suas responsabilidades passadas e com os seus compromissos programáticos presentes. António Costa, que detém uma experiencia governativa ímpar, bem percebe que o seu destino dependerá da sua capacidade de nunca ficar prisioneiro dos seus aliados de ocasião. Para alcançar tal desiderato terá de governar em permanente estado de tensão procurando uma relação directa com o país, dramatizando deliberadamente os problemas que facilmente poderá antecipar, colocando-se numa dimensão quase suprapartidária. Não será fácil a prossecução de tal tarefa, dada a inimizade visceral da direita e a desconfiança natural da extrema-esquerda. Esta legislatura não vai durar quatro anos dada a estrutural instabilidade da presente composição parlamentar. António Costa, para ter sucesso, terá de ter condições para escolher o tema e o momento da crise política anunciadora do seu fim. É aí que tudo se vai jogar e tal poderá suceder muito mais cedo do que antevêem a maioria dos analistas.
Pedro Passos Coelho – Depois de quatro anos de uma governação difícil conseguiu chegar vivo à liderança da oposição. Era o mais imprevisível dos cenários. Os outros dois eram facilmente imagináveis: permanecer vivo como Primeiro-Ministro ou desaparecer após uma derrota eleitoral. Tem todas as condições para liderar a direita portuguesa. Independentemente da apreciação que cada um faça acerca dos méritos e dos deméritos da sua governação revelou força de carácter e até uma certa obstinação que é própria dos líderes políticos. Dentro da perspectiva doutrinária que é a sua, e daqueles a quem preferencialmente se dirige, o legado que deixa está longe de ser negativo. Depois de algumas hesitações iniciais percebeu bem o seu papel nesta nova fase da política nacional. Proferiu um bom discurso aquando da discussão do Programa de Governo socialista enunciando com clareza o posicionamento do PSD. Claro que vai enfrentar momentos muito difíceis e não lhe será fácil romper em absoluto com um novo Executivo de que se sentirá várias vezes demasiado próximo; confrontar-se-á nessas ocasiões com a contradição entre os seus deveres de homem de Estado e as tentações de chefe partidário. Não será fácil a escolha mas será precisamente nesses instantes que se vai decidir inteiramente o seu futuro.
Paulo Portas – Fez bem em abandonar a liderança do CDS. A questão que agora se coloca é se o partido tem condições para sobreviver sem ele. Por virtude sua creio que terá. Portas tinha tanta consciência de ser conjunturalmente maior que o seu próprio partido que não temia o surgimento de novas figuras no seio daquele. O CDS, e isso é mérito do líder agora demissionário, tem provavelmente a melhor primeira linha parlamentar da Assembleia da República. Nesse sentido, o futuro parece plenamente assegurado. Resta saber que caminho prosseguirá uma nova liderança que terá de optar entre duas opções extremas: um encaminhamento para o centro ou um acantonamento à direita. Estas opções encerram perspectivas doutrinárias radicalmente diferentes – uma implica a consolidação da recente escolha europeísta, outra aponta para um caminho nacionalista. De qualquer modo, Paulo Portas deixa uma herança muito difícil de preencher dadas as suas excepcionais qualidades políticas.
Catarina Martins – Foi talvez a grande surpresa política do ano. Revelou inteligência, imaginação e ousadia. Suceda o que suceder com esta precária maioria, Catarina Martins já adquiriu uma projecção que nos permite augurar-lhe uma sólida inscrição no futuro político do país. Sem ela suspeita-se de que nada do que se está a passar teria sido possível. Resta saber se terá agora a capacidade para liderar um processo de aggiornamento programático capaz de transformar o Bloco de Esquerda num partido com verdadeira capacidade para o exercício do poder numa democracia europeia com a natureza da nossa. Se tiver, acabará por ter um lugar de destaque na história do nosso tempo.
Jerónimo de Sousa – O seu tempo como líder do PCP parece estar a chegar ao fim. Mais do que entusiasmado pareceu sempre sentir-se obrigado a participar num acordo em que notoriamente deposita escassas esperanças. Abomina o BE, essa extravagância de uma pequena e média burguesia urbanas directamente filiada no infantilismo do radicalismo de esquerda, e suspeita das intenções do PS, esse partido inteiramente identificado com a traição histórica social-democrata. Para Jerónimo de Sousa, que lidera um partido que continua a chorar o fim da União Soviética e a clamar a superioridade do modelo leninista, os tempos que correm não são nada felizes.
Cavaco Silva – É ainda demasiado cedo para fazer uma avaliação verdadeiramente objectiva de um homem que marcou de forma determinante os últimos trinta anos da vida política nacional.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Eu vi o Presepio.... Na Cidade

Sofia Guedes

Um Presepio muito simples, muito discreto, muito pobre... Foi este o Presepio que eu vi na Cidade! Quando entrei há 15 anos, não quis mais sair de lá! Entrar neste presepio lembra-me a passagem pela porta estreita.... No primeiro momento não apetece entrar, dá trabalhou subir o degrau, faz frio, é incômodo, falta espaço, temos vergonha .....mas esse é mesmo o que nos é  proposto entrar.... para então percebermos o que está do lado de lá...
Este Presepio tem vida. Lá dentro conhece-se Aquele que veio para nos dar a vida. Lá conhecem -se bem aventurados.... Lá confirmamos o quanto é a misericórdia de Deus para connosco.... Lá dentro tocamos o nosso coração, porque nos vemos "despedidos" diante de Deus e reconhecemos  como andamos escondidos...
Não vi País Natais, não reparei em luzes artificiais, não entrei em lojas, não me cansei! Descansei nesse frio, nesse incomodo, nesse pouco espaço, e subi esse degrau que tento fazer em cada ano....
E agora, neste momento, sei o quanto valeu a pena.... tenho comigo milhares de assinaturas e recados registados em pedaços de pano, que durante 3 semanas, foram deixando naquele Presepio na Cidade, aqueles que se espantaram e ousaram entrar... Porque Evangelizar a rua vale mesmo a pena....
Que o Ano Novo venha cheio destas bênçãos já cumpridas, mas que só as recebem quem quiser....

Lusofobia

Viriato Soromenho Marques
DN20151230

Lula da Silva escolheu a Espanha para reativar um dos tiques culturais de alguma elite brasileira contra o colonizador português. Culpou Portugal pelo facto de a primeira universidade brasileira ter sido fundada apenas em 1922. Para além de ignorar as iniciativas lusas em matéria de ensino superior, em 1792, no Rio de Janeiro (Ciências Militares), e em 1808, na Bahia (Medicina), Lula fez cair para cima da herança lusa um século de independência brasileira (1822-1922). Como Pedro Calafate tem escrito, a procura de um paradigma não português para inspiração cultural alternativa atravessa todo o século XIX do país irmão. Não só o positivismo francês, imortalizado na bandeira nacional adotada em 1889, como um germanismo mítico, com Tobias Barreto, ou um indigenismo romântico em Gonçalves de Magalhães e Oswald de Andrade (tupi or not to be...). Contudo, Lula ignora os grandes vultos contemporâneos da Academia brasileira. Não só o luso tropicalismo de Gilberto Freyre, como os trabalhos monumentais de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Darcy Ribeiro. Lula ignora que em 1815 o Brasil ganhou o estatuto de reino. E que a história de Pedro I, imperador do Brasil, que foi também Pedro IV de Portugal, é uma singularidade irrepetível na história universal. Ignora que a Universidade de Coimbra (depois do fecho da de Évora) foi a única para todo um império pobre. Contudo, foi esse espírito coimbrão, que unia a elite brasileira, coeva de José Bonifácio, aliado à sábia estrutura administrativa portuguesa, que garantiu - em contraste com a total fragmentação da América Espanhola - a unidade do Brasil. Os pobres portugueses asseguraram a integridade desse chão que fará do Brasil uma das grandes potências mundiais do século XXI. Basta que o seu grande povo escolha líderes capazes de cultivar a história, em vez de a tratarem com os pés.

A geração mais bem preparada de sempre

Nuno Gonçalo Poças, Estado Sentido, 30.12.15

Há umas semanas, num restaurante de Lisboa, tive o prazer de ter uma família numa mesa ao lado que não me tem saído da memória. Um casal, um filho e a sogra. A criança, de 5 ou 6 anos, passou o jantar colado a um iPad, a jogar uma porcaria qualquer. Não pousou por uma vez o aparelho, nem enquanto comia. Os pais e a avó não lhe dirigiram a palavra uma única vez. Reinou a harmonia familiar. Não é um caso isolado. Cenários deste género fazem parte do nosso quotidiano. E crianças como aquela são hoje a nossa realidade. Um iPad nas mãos e não me aborreças.
Este é um facto. Há uma geração de pais que está a criar monstrinhos alienados. É a geração que é incapaz de lidar com o sacrifício, com o sentido de dever, com a responsabilidade familiar, porque é fruto de uma época de paz e de prosperidade, porque é fruto da lógica de filho único e de infantocentrismo, porque foi moldada para o sucesso profissional e não para o compromisso familiar. Os novos pais não toleram crianças. Muito menos toleram crianças que se mexam. Ora, novidade das novidades, as crianças mexem-se. E falam. Muito. E gritam. E choram. E fazem birras. É assim desde que existe humanidade. O problema é que antes destes novos tempos, sempre que uma criança ultrapassava os limites da boa educação, do respeito e do sossego de terceiros, levava uma palmada. Bastava um olhar. Hoje damos-lhes iPads.
Quando uma criança deve ouvir um "não", hoje recebe um "sim" e qualquer coisa que a entretenha. Porque tudo é mais importante que educá-la para que possamos ter um ser humano decente em casa. Não há regras, porque as regras dão trabalho a implementar. Exigem paciência e nós não temos paciência. Podemos ter paciência para tudo. Para jantar fora, para trabalhar até à meia-noite, para ir de férias com os amigos, para jantaradas e noites durante a semana, para desportos radicais, para ir a todos os sítios fashion, gourmet e fancy da cidade, para estar no Facebook, no Twitter, no Instagram, no Whatsapp. Mas não temos paciência para chegar a casa e perder uma hora do nosso tempo a brincar com uma criança. Não temos paciência para ouvir os miúdos porque os miúdos, claro está, só dizem asneiras, não são racionais e não medem as palavras. E esperamos que eles cresçam sozinhos. Ou com uma caixa de jogos didáticos, para "aprenderem enquanto brincam", ou com filmes que os fazem "assimilar conceitos". Não os levamos para a rua porque a rua é um perigo. Há um mar de pedófilos nos parques. E os parques têm folhas e pólen. E o pólen faz mal às alergias e ao sistema respiratório. Não lhes dizemos "não". As crianças devem exercer a sua autonomia, a sua liberdade, como se um selvagem alguma vez fosse bom. Também não lhes podemos bater. As crianças têm direito à privação da palmada, porque nós vivemos num mundo pacífico, onde as pessoas se amam e se respeitam e a palmada incentiva o ódio e a invasão de países árabes, como se sabe.
Nós, a geração "mais bem preparada de sempre", temos a maior taxa de alfabetização de sempre. Nunca o mundo teve tantos diplomados como agora. Somos esplêndidos. Ensinaram-nos desde pequeninos que somos esplêndidos. Disseram-nos que tínhamos direito a ter tudo e queremos ter tudo. E disseram-nos que os sacrifícios não eram necessários. Estava ali tudo. E quando faltasse alguma coisa, ainda lá estavam os pais, para libertar algum dinheirito, para comprar um carro novo, para mobilar a casa, para uma beijoca, para mais um computador portátil. E agora temos filhos. Filhos, imagine-se! Uma geração de filhos que está a chegar, que ainda está nas barrigas ou que entrou agora para a escola. Uma geração de filhos que se enfrasca em anti-depressivos e em tecnologia para explicar à geração dos próprios pais esta coisa tão simples: a "geração mais bem preparada de sempre" é a geração mais incapaz de constituir família e de educar uma criança dos últimos séculos.

Vida. E o Natal

Maria João Avillez
Observador 30/12/2015, 15:50

Marcelo enredou-se numa soma de considerandos tão demagógicos que se fica de boca aberta. Há mais cómodo, mais fácil, mais popular, do que evocar os “cortes na Saúde” num país como o nosso?
Deem-me uma manhã e também renasço. Manhã é vida. Os dois fortíssimos recomeços de que é feita – o do dia e o da própria vida – fazem dela um espaço de tempo próprio, gloriosamente único. Sim, deem-me uma manhã mas uma manhã toda, a manhã intacta, a manhã inteira, para recomeçar. Como neste Natal que também é promessa de recomeço mas este ano parece que quase levou sumiço. Não foi fácil dar com ele, (talvez nos corações?), não vi presépios, nem cartões, nem alusões, nem sequer ao espírito de família, a não ser nos anúncios. Passou de moda, foi uma época, saiu dos radares? Assim parece que nos surge, substituído, em clima de aparente anuência, pela obrigatoriedade da “prenda” e confinado ao “onde comer”. Talvez tenha de facto chegado uma espécie de convenção global de arredar todos os sinais exteriores da Natividade, empurrando-a para o espaço privado dos lares e autorizando-lhe esse abrigo íntimo como seu hoje único porto e lugar de resistência. Não sei se se pode falar de outra “era” mas sei que nunca pensei que este Natal sem “objeto” se pudesse ter imposto assim, de mansinho, sem resistência ou espanto ou pasmo. Tempos estranhos de tão descomprometidos com a matriz daquilo que nos foi berço e nos é, portugueses e europeus, pertença histórica e civilizacional.
As manhãs deste Natal foram frias, longas, enevoadas. Este ano ainda mais, escondidas dentro da neblina, um véu tão espesso que levei os dias a desconfiar que nunca mais algum deus o levantaria. Mas foi pela neblina das manhãs que fui andando a pé, supremo luxo, pelas ruas festivas da minha morada oestina, ruelas e vielas enfeitadas e azafamadas de gente. Dando as boas festas e desejando-lhes Santo Natal mas aqui, em nome próprio, todos nos conhecemos pelo nome ou quase, quase. A começar nesse “grupo” humano tão particular porque não é igual a nenhum outro que são os vizinhos, os próximos e os das redondezas… e que só verdadeiramente valorizamos e amamos na lonjura das cidades. Mas também no “Machado”, de refinada doçaria; no mercado e no supermercado; na tabacaria; na banca das flores da Maria de Jesus; no Vivaci com a sua luz natural e a sua dimensão humana, são só dois lances de escadas rolantes; no ginásio, na bomba da gasolina, nalguma loja; e nos cafés, claro, onde sem falta e com gosto se entra pela bica, a meio da manhã. Enfim, nisto tudo, falo quase, quase, de uma família, só ela tem este poder agregador, capaz de derreter a quadra em aconchego e transformando-a numa estação onde de certeza me será menos melancólico apear-me. Raul Brandão dizia e eu estou sempre a lembrar-me disso que “trazia consigo uma camada de mortos, só não sabia até que profundidade” – mas eu sei até que profundidade. E por isso, mesmo que a manhã seja vida e o Natal recomeço, carregar mortos pesa mais no frio enevoado da noite de 24 de dezembro. Há que esperar, enquanto se tenta a impossível sintonia entre a alegria do presépio e o luto da ausência.
Sabendo que só horas depois, mas horas como se fossem anos, no recomeço de mais um dia e de mais neblinas, voltará a ser manhã e a ocorrer o seu milagre, com a vida a puxar-me pela manga do casaco, a fazer-me andar.
Tenho sorte em ter compreendido muito cedo que podia contar com este, como dizer? combustível. Tão forte que finjo que acredito que as coisas ainda são possíveis e o mundo habitável, fazendo de conta que não vejo que uma grande parte foi já tingida pelo sofrimento. E o que não foi, parece hoje cortado ao meio pelo ressentimento, contaminado pela má fé, adulterado pelo ranço das coisas que talharam. Manhã cedo nega-se tudo isto, acredita-se nos grandes verbos e nos grandes sentimentos e sim, quem não acredita, pelas auroras, nuns e noutros?
  1. E no entanto… quantos e impressivos sinais de vida não me rodeiam.
Marcelino Sambé foi um deles, explosivo de energia e génio. Depois de o ver dançar há dias, com a Companhia Nacional de Bailado, uma mão amiga perguntou-me se “gostaria de o conhecer”. Gostaria. Nos extraordinários bastidores do S. Carlos, na companhia de um pequeno grupo de “happy few”, conheço um “pássaro de fogo”, resoluto e sorridente. Filho de um guineense e de mãe portuguesa, e vindo do que politicamente se chama uma “zona deprimida” dos arredores da capital, dança desde 2012 no Royal Ballet. A companhia de bailado britânica, fez dele, aos vinte e um anos, um adulto responsável e educado. Por sua iniciativa fala-me em “disciplina”, sublinha o “trabalho”, evoca o “mérito” na sua passagem de etapas, aplaude a filosofia da companhia, “não deve haver melhor escola no mundo”. Marcelino aprendeu e apreendeu tudo isto.
O que lhe permite sonhar com um destino. Tem razão: vai tê-lo.
Mas em que outros bastidores nacionais eu ouviria, com este convicto orgulho, alguém falar-me de “disciplina”, “trabalho”, “mérito”, como “as” ferramentas indispensáveis e justamente assimiladas como “indispensáveis”?
Encontro aprazado para fevereiro, no Royal Ballet, onde haverá nova estreia para esta estrela e “eu mostro-lhes o ‘back stage’ da Companhia, os do Royal Ballet são muito interessante de ver”.
Who doubts?
  1. Não se pode acabar o ano de pior maneira nem começar um novo com tão maus presságios. Mas hoje não evoco tanto a desgraça – não há outro termo – da morte de um jovem inocente às mãos da incúria e a da irresponsabilidade profissional num hospital público, ou do inconcebível – não acho melhor adjetivo – caso do Banif.
Falo daquilo em que se transformou o debate público entre nós e sim, não é de hoje, mas a sua irracionalidade, má-fé e leviandade conseguem piorar dia a dia e hora a hora.
Paulo Macedo e o anterior governo foram logo, nos “media” e fora deles, praticamente acusados de ter morto o doente falecido em S. José, antes de se ter passado expeditamente a um medonho passa culpas que encheu dias e ecrãs num desvario de irracionalidade. Mas os media e a rua – que hoje pouco se distinguem, de resto – já a isso nos habituaram há muito.
O mesmo nunca porém poderia ou deveria ocorrer com gente de altas responsabilidades cívicas e políticas. Dois exemplos, escolhidos entre uma vastíssima plateia de demagógicas reações:
António Correia de Campos, ex-titular da Saúde, no seu último escrito, deixa-nos uma pergunta-“pérola” por entre algumas questões onde vai encaixando as suas acusações contra as “maldades” do governo anterior. Eis a pérola: (…) “que assistíssemos em silêncio à perda de vidas por continuadas políticas de descuido e regateio de pagamento decente nas urgências hospitalares?” (Público, 28 dezembro)
Quando nos lembramos que Correia de Campos foi despedido por José Sócrates (na altura, lamentei-o publicamente) por estar a ser triturado pelos “interesses” corporativos da área que tutelava, este queixume do ex-ministro é ainda mais revelador do aproveitamento político que escolheu fazer, sobre a morte ocorrida num hospital que aliás conhece muito bem.
Segundo exemplo: Marcelo Rebelo de Sousa, após rivalizar com La Palisse ao dizer que “uma das suas prioridades era a Saúde” e com isso fazendo de nós parvos (para quem não é?) enredou-se numa soma de considerandos tão demagógicos que se fica de boca aberta. Há mais cómodo, mais fácil, mais popular, do que evocar os “cortes na Saúde” num país como o nosso, onde tal acusação vende sempre? Não há. O que dá que pensar é que Marcelo também tenha ido por aí, passando intencionalmente tão ao lado das verdadeiras lições deste tristíssimo caso. E do que o caso (lhe) forneceria de inspiração e argumentação para separar o trigo do joio. E até para no ensejo da sua eventual ocupação do Palácio de Belém, prometer patrocinar aquilo de que precisamos como pão para a boca: um grande, participado e nacional debate público sobre o futuro da Saúde. Isso sim, teria sido fazer pedagogia politica. Mas deu-lhe mais jeito – voto oblige – substituir pedagogia por demagogia.
Dá que pensar, sim. É o mínimo que se pode dizer.

Uma oportunidade para um partido com coragem



Porque vai fazer com que os que sejam realmente conservadores no CDS tenham de começar a trabalhar a sério
Eu não tenho problemas pelo CDS ser um partido de betos. Eu tenho problemas pelo CDS ser um partido sem coragem. As vozes tidas por esclarecidas são as que pedem para ir à casa de banho sempre que o assunto exige clareza moral. Divórcio, aborto, o chamado casamento homossexual, adopção por ditos casais homossexuais, e podia continuar. Ou o CDS começa a querer conservar alguma coisa concreta ou restringe ao nosso capitalismo coxo a sua única causa - mas para isso já temos o PSD.
Esta é a 5ª das cinco razões porque Paulo Portas sair do CDS é uma boa notícia (comentário de Tiago Cavaco à declaração de saída da liderança do CDS de paulo Portas)

Onde está o presépio?


Há países onde é proibido festejar o Natal ou ir à missa e onde se é morto por se ser em cristão; há outros onde é proibido enfeitar montras, montar iluminações ou decorar as ruas com qualquer coisa alusiva ao Natal para não "ofender" outras religiões. Desconfio que por cá não vai ser preciso proibir nada, nós damos conta do recado sozinhos.
Cenas de Natal Inês Teotónio Pereira

Fábulas de velhice

João César das Neves
DN 2015.12.30

O que têm Han Solo, Marine Le Pen e António Costa em comum? Uma das questões mais decisivas da humanidade: envelhecimento. O fim do ano é boa altura para falar de idade, pois lembra que a velhice tem pouco que ver com evolução cronológica. Há quem envelheça na adolescência e quem se mantenha sempre jovem. Algo ou alguém só fica velho quando se fecha em si, quando deixa de frutificar, caindo na nostalgia, na repetição e na auto-referência. Uma floresta renasce todos os anos enquanto empresas viçosas caem subitamente na decadência.
A saga Star Wars é uma fábula na arte de rejuvenescer. O filme de 1977 representou espantosas novidades na ficção científica, então decadente. Nova estética, novas ideias, enredo original. Mais notável, as continuações de 1980 e 1983 acrescentaram elementos inspirados e inesperados ao quadro inicial. Nasceu um marco na história do cinema que, embora datado numa arte que evolui rapidamente, ainda é visto com agrado.
A segunda série, vinte anos depois, em 1999, 2002 e 2005, apostou num alargamento do âmbito, abrangendo mais culturas e complexas questões políticas e estratégicas. Apesar de novo sucesso, já não manteve o ritmo: preso no enredo do protagonista, o último filme revela tacanhez e cansaço. Pela primeira vez A Guerra das Estrelas parecia velha.
Recomeçar após 40 anos seria sempre difícil, mas O Despertar da Força, de J. J. Abrams, apresentado neste mês, escolheu como tema, simplesmente, a própria saga Star Wars. Copiando o enredo primitivo e mantendo os agora idosos actores originais, insiste em não trazer nada de novo. Não é um remake, não é uma sequela, é apenas uma autocelebração nostálgica, triste homenagem póstuma.
A dinâmica de juventude e velhice também domina a política europeia. Por todo o lado surgem forças que se apresentam como novas, acusando as tradicionais de antiquadas. Realmente nenhuma das linhas doutrinais é original: Syriza ou Podemos são velhos esquerdistas, Ciudadanos liberais ainda mais clássicos. Em todos é a frescura da retórica que mascara as rugas.
O caso mais surpreendente e ameaçador é Marine Le Pen, em França. Não existe ideologia mais identificada com o passado do que a extrema-direita. Jean-Marie Le Pen, como Donald Trump, nos EUA, é digno representante dessa ideologia e desse passado. Por isso há que admirar a capacidade da filha em apresentar como frescas e atraentes as teses que destruíram os nossos avós.
Se J. J. Abrams mostra como envelhecer algo subitamente e Marine Le Pen rejuvenesceu uma instituição morta, o governo de António Costa manifesta o caso paradoxal de algo que nasce já velho.
Os anteriores executivos democráticos sempre trouxeram novidades ao país. No PS, Soares em 1976, Guterres em 1995 e Sócrates em 2005 tinham ideias originais e um projecto de futuro. O sucesso variou bastante entre os três, que envelheceram a ritmos distintos, mas todos nasceram com algo de original e extrínseco para contribuir. Em 2015, pela primeira vez nesta democracia, Portugal tem um governo assumidamente retrógrado e autocentrado.
O programa de António Costa é conservador, quase reacionário: trata-se de voltar a 2008 e restabelecer benefícios que os grupos sociais gozavam antes da crise. Como essas regalias fizeram explodir a dívida e cair no colapso, agora o dinheiro não chegará para todos. O governo presidirá ao combate das corporações, onde ganharão as de maior influência. A reversão das privatizações e concessões nos transportes, por exemplo, não interessa ao país, ao público, nem sequer aos utentes. Está na ordem do dia só por bafientas imposições ideológicas e influências sindicais.
Por outro lado, o narcisismo do executivo é evidente. Com os olhos no umbigo, o propósito actual do PS é só permanecer no poder, quase sem olhar para o país. Dirá tudo o que precisa de dizer para ficar onde está. Obrigado pela derrota eleitoral a negociar à esquerda, aceita as agendas mais abstrusas como preço do posto, que depois o obriga ao oposto. Por exemplo, é verdade que a culpa da queda do Banif é do anterior governo, mas também é verdade que se este tivesse feito o que devia, o PS teria estado na primeira linha da contestação, condenando veementemente aquilo que hoje vê como necessário.
Esta tacanhez auto-referencial, extensível a outros partidos, é a manifestação mais evidente do envelhecimento da nossa classe política. Não interessa o diagnóstico e a terapêutica nacionais, apenas mandatos e benesses. O mal do governo não é tanto a crise do país, mas, tal como Han Solo, parecer avô de si mesmo.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A banca ou a vida

LUCIANO AMARAL CM 28.12.2015

Não basta atirar as culpas para o "governo da direita". É preciso explicar tudo muito bem. 

A primeira coisa a perceber sobre o BANIF é que o banco não foi comprado pelo Santander. Foi oferecido. Melhor, o Estado pagou para que o Santander ficasse com o BANIF. É o que significa o facto de o Santander ter dado 150 milhões de euros enquanto o Estado e o Fundo de Resolução da banca lá colocaram 2,3 mil milhões. Isto para além de um conjunto de garantias várias (mais o risco de não se venderem os activos que ficaram no veículo "tóxico"). Ora, para esta operação catastrófica não basta atirar as culpas para o "governo da direita". É preciso explicar tudo muito bem. Com certeza que o governo PSD-CDS tem responsabilidades, desde a decisão de ficar com cerca de 60% do capital do BANIF até à manutenção em funcionamento durante três anos daquele autêntico vegetal bancário. Mas é preciso que se explique porque é que uma "venda" feita como se não houvesse amanhã foi a solução que melhor defendeu o "interesse nacional". Desde logo, é preciso que se explique porque, na sequência da notícia da TVI, se especializou o primeiro-ministro em fazer declarações cujo único efeito foi desvalorizar ainda mais o banco. Depois, é preciso que se explique porque não foram escolhidas outras alternativas. O Governo diz que preferia a nacionalização mas que a Comissão Europeia "não queria". Não queria? Pois que não quisesse. Se a solução era melhor, o Governo que batalhasse, em vez de enterrar alegremente dinheiro público. O pior que podia acontecer era adiar o processo e ter de aplicar o novo tipo de resolução em 2016. O que nos leva, precisamente, às outras alternativas: aplicar uma resolução do estilo da do BES ou então esperar pelas tais novas regras de resolução de 2016. Em que é que poupar os depositantes de mais de 100 mil euros é melhor do que impor um valor obsceno (que pode chegar a 4 mil milhões de euros, tanto como no BES para um banco com um quarto do valor) a todos os portugueses? Isto é o que aconteceu. Mas mais importante é prever o que está para acontecer. Já vimos que o estado da banca portuguesa é de calamidade pública. O que ela precisa é de uma "reforma estrutural" (esta sim, verdadeira), talvez com apoio europeu. Mais vale gastar uma fortuna nisso do que gastá-la deixando tudo continuar a apodrecer.

Sobre uma espécie de obituário delirante que ALC comete no Público

O Insurgente Posted on Dezembro 29, 2015 by Jorge Costa

Sim, o Público chegou a ser importante. Sim, o Público entrou numa degenerescência sem fim à vista e, sim, a Alexandra Lucas Coelho, com o seu jornalismo de causas, ou melhor, da sua causa, foi uma das principais razões para eu deixar de comprar e ler o Público, que se tornou num produto manhoso, sem mais. A causa da Alexandra Lucas Coelho, a causa a que me refiro, foi a que a tornou conhecida: a difamação permanente de Israel, que no caso dela parece confundir-se com um ódio profundo, irracional. Há limites para tudo, só não há, parece, para a manipulação jornalística a que o Público parece ter-se consagrado em exclusivo e a Alexandra Lucas Coelho praticou anos a fio com tanto enlevo. Mas isso pertence ao passado, como ao passado parece pertencer o Público.
Ainda li alguns parágrafos desta lengalenga. Não achei que valesse a pena continuar, quando cheguei a esta passagem: «Projectos como este jornal podem, devem, actualizar a publicidade para o digital, mas por mais cortes que façam, sacrificando trabalhadores, diversidade e profundidade, têm pouca hipótese de sobreviver com vendas e publicidade. A mudança histórica, então, seria deixarem de ser pensados como um negócio — propício ao prejuízo, a cada ano decepcionante para accionistas e desestabilizador para trabalhadores que vão perdendo condições — e serem tomados como responsabilidade social. Colectivos decisivos para a democracia, para uma sociedade mais complexa, livre e justa…».
Mas quem será ao certo este social? Responsabilidade de quem, em nome de quem e de quê e perante quem? Porque haveria alguém de subsidiar eternamente um jornal que os leitores não querem, porque se quisessem compravam-no? É este desvario, esta megalomania, esta pesporrência, esta mania de ter direito a parasitar alguém para poder fazer qualquer coisa cuja justificação está acima do consentimento das pessoas comuns expresso no ato simples, honesto, inequívoco e livre de pagar para a poderem ter, é este espírito de mandarinato, de casta sacerdotal que em boa medida explica o fim anunciado e previsível do Público. Só há a lamentar que alguém tenha alimentado esta cagança por tanto tempo. Se a tivessem cortado mais cedo, talvez as Lucas Coelho que vivem daquilo se tivessem posto ao caminho, à procura dos seus leitores, e, quem sabe, talvez o jornal não tivesse o fim que se anuncia.

Nunc Dimitis

Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, 
porque os meus olhos viram a vossa salvação, 
que pusestes ao alcance de todos os povos: 
luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo. 
Lc 2, 29-32

Cenas de Natal

Inês Teotónio Pereira, ionline 20151229
Já não deve faltar muito até chegarmos todos à conclusão que afinal quem nasceu no dia 25 de Dezembro foi o Pai Natal.
Fui com os meus filhos a uma das dezenas aldeias de Natal que hoje em dia fazem concorrência às rotundas que as câmaras tanto gostam de inaugurar ou às feiras medievais importadas de Espanha que durante o Verão fazem de nós todos parvos. 
As aldeias de Natal são o novo fenómeno municipal e como eu não perco fenómenos, peguei na criançada e fui ver. Eu e mais milhares de famílias. Foi giro: vimos duendes, renas, fadas, mais uns duendes e uma fadas, uns palhaços e umas casinhas com neve a fingir no telhado, mais uns duendes e umas fadas, também vimos umas árvores de Natal, bonecos de neve, presentes embrulhados e mais renas. A coisa correu bem: não houve birras nem lutas. No fim ainda consegui negociar com os meus filhos e eles condescenderem não irmos para a fila tirar uma fotografia com o Pai Natal em troca de um bolo que comprei para cada um. Tivemos ainda a sorte de comer o bolo ao lado do Pai Natal que fugiu do seu cadeirão  e das criancinha para ir beber uma imperial e fumar um merecido cigarro. Por sorte calhou irmos todos ao mesmo café e os meus filhos ficaram embasbacados ao verem a facilidade com que ele desprendeu a barba para beber a cerveja num só trago. São estas as memórias que ficam.
No caminho de volta, vimos as mesmas coisas mas só então reparei que até havia guloseimas a ornamentar os pitorescos canteiros do jardim. Até que eu, uma beata, fanática, conservadora ou mesmo neoliberal, resolvi perguntar a um dos organizadores: “Olhe, desculpe, o presépio está onde?”. O rapaz olhou para mim como se eu lhe  tivesse perguntado quem ganhou as eleições e atrapalhado respondeu: “Não há... São só coisas de Natal “. Os meus filhos, que já estão na idade de terem vergonha dos pais, coraram, o rapaz também e eu constatei que os portugueses são de costumes tão brandos mas tão brandos que se ficaram pela brandura da bonecada e deixaram o Natal para os fundamentalistas religiosos.
Como estava com os meus filhos tive de fazer o papel de mãe e não pude deixar de exclamar indignada: “Incrível: isto é o mesmo que fazer uma festa de anos e não convidar o aniversariante!”. Eles ficaram a olhar apara mim. Continuei a insultar tudo e todos até que um deles disse: “Mas mãe, isto hoje em dia é mesmo assim: um amigo meu nem sequer sabe o que se festeja na Páscoa”. Chateou-me o “hoje em dia”, onde se podia ler “estás out, cota”. Mas calei-me: contra factos não há argumentos e tendo em conta que a autarquia organizadora da aldeia representa os munícipes e para os munícipes o Natal é bonecada, está tudo bem. Ali quem estava desajustada era eu, concluí.
A verdade é que o Natal está fora de moda. Já não é moda ir à missa do Galo ou falar do nascimento de Jesus.  Um presépio no meio dos duendes fica objectivamente mal. A árvore de Natal substituiu o presépio e o Pai Natal o Menino Jesus. Já é com alguma dificuldade que apanhamos filme épicos na televisão tipo Quo Vadis ou as Sandálias do Pescador e estamos apenas presos ao significado natalício televisivo pelos fios frágeis da Música no Coração ou do Sozinho em Casa. Hoje em dia Natal é neve, gelo e duendes. Já nem sequer é azeite Galo: é sushi. Sushi em família, vá.
Há países onde é proibido festejar o Natal ou ir à missa e onde se é morto por se ser em cristão; há outros onde é proibido enfeitar montras, montar iluminações ou decorar as ruas com qualquer coisa alusiva ao Natal para não “ofender” outras religiões. Desconfio que por cá não vai ser preciso proibir nada, nós damos conta do recado sozinhos. Já não deve faltar muito até chegarmos todos à conclusão que afinal quem nasceu dia 25 de Dezembro foi o Pai Natal.  O resto são lendas.

Alfredo Barroso e o gambuzino neoliberal

JOÃO MIGUEL TAVARES 29/12/2015

A esquerda neo-histérica continua toda entretida com a sua caça ao gambuzino neoliberal
Na véspera de Natal, Alfredo Barroso deixou-me uma prenda no sapatinho do PÚBLICO: um texto que me é dedicado (“Sobre o neoliberalismo fantasmagórico”), com bonitas acusações de “arrogância” e de “ignorância atrevida” por eu não estar disposto a reconhecer que o governo de Pedro Passos Coelho “virou radicalmente à direita”. Barroso, pelo contrário, sempre impressionante na sua modéstia e sapiência, declara urbi et orbi que “as políticas postas em prática pelo Governo Passos/Portas eram oriundas do mais puro e duro neoliberalismo”, apoiando-se para tal em citações de intelectuais ponderados e profundos conhecedores da situação portuguesa, como é o caso de David Harvey e Slavoj Žižek.
Meio a contragosto, sou obrigado a regressar ao tema do “neoliberalismo fantasmagórico”, não porque os comentários de Alfredo Barroso tenham ponta por onde se lhes pegue, mas porque é necessário combater a terrível moda política que se impôs entre 2011 e 2015, e que consiste em utilizar a palavra “neoliberal” como durante muitos anos se utilizou a palavra “fascista” – como uma calhoada verbal, destituída de qualquer significado apreensível. Ora, se é próprio das calhoadas serem pouco dadas à sofisticação argumentativa, elas conseguem alcançar bastante eficácia pela insistência na sua utilização. Num piscar de olhos, temos o espaço público ocupado por acusações de neoliberalismo e de defesas contra o neoliberalismo sem que haja qualquer espécie de entendimento sobre que raio quer tal palavra dizer, enquanto as discussões políticas essenciais não chegam a ser feitas porque anda toda a gente entretida na caça ao gambuzino ideológico.
Podemos até dar uma borla a Alfredo Barroso e admitir que a história da palavra “neoliberalismo” é complexa e até contraditória. Mas mesmo a mais básica entrada na Wikipédia admitirá que qualquer tipo de neoliberalismo terá sempre de defender uma redução significativa da despesa pública e a diminuição do peso do Estado na economia. Se o Estado não diminui, não pode haver neoliberalismo, tal como não pode haver marxismo sem controlo público dos meios de produção ou aves sem asas e sem penas.
Imagino que nos livros de Harvey e Žižek não se encontrem dados sobre a dimensão do Estado português, mas basta um pulo à Pordata para encontrar o peso das despesas da administração pública em percentagem do PIB. Em 2005, quando o engenheiro Sócrates tomou conta do governo, esse valor era de 46,7%. Em 2011, quando Passos Coelho tomou posse, era de 50,0%. E em 2014 estava nos 51,7%. O Estado nunca teve um peso tão grande na economia. A despesa pública em Portugal ultrapassa a barreira dos 50% do PIB, o que não acontece em praticamente lado nenhum do mundo civilizado. Nós somos um dos países mais socialistas do planeta – e Alfredo Barroso acha que caímos nas garras do neoliberalismo.
Porquê tamanha confusão? Em parte, porque Passos Coelho tinha um discurso (não uma prática) relativamente liberal para os hábitos portugueses. Em parte, porque dá mais jeito atribuir as falhas do governo aos excessos de um neoliberalismo inventado do que aos abusos de um estatismo real. E assim, a esquerda neo-histérica continua toda entretida com a sua caça ao gambuzino neoliberal, ignorando o verdadeiro elefante no meio da sala: o capitalismo de compadrio que PS, PSD e CDS alimentam há mais de 40 anos. Alfredo Barroso parece não saber o que isso é. No próximo texto, vou ajudá-lo.

A propósito da morte no S. José

PAULO RANGEL Público 29/12/2015

Os hospitais de Lisboa, em que se passou este terrível episódio, têm muito mais meios do que tem Coimbra ou de que tem o Porto e, no entanto, não são capazes de gerar respostas de idêntico nível.
No dia e na hora em que a televisão – na esteira do Correio da Manhã – noticiou que um jovem de 29 anos, David Duarte, morrera no Hospital de S. José, em Lisboa, na sequência de um incidente provocado por um aneurisma, eu estava a ver o noticiário televisivo. Assim que explicaram que a morte se teria ficado a dever presumivelmente à inexistência de neurocirurgiões de serviço durante o fim-de-semana, fiquei chocado e reagi veementemente, como facilmente pode atestar a familiar que estava ao meu lado. É absolutamente inadmissível que um caso destes possa ter ocorrido.
É estranho que um hospital daquela envergadura viva com aquela lacuna ou que não tenha um procedimento protocolar já estabelecido com outros hospitais da área da grande Lisboa. Mais estranho me parece ainda que, independentemente de tudo o resto, não houvesse nenhum reencaminhamento para algum hospital da zona da grande Lisboa, público ou privado. Ou até que, em último recurso, não se reencaminhasse o doente para Coimbra ou que, mesmo que isso seja bizarro, não se falasse informalmente a algum neurocirurgião do quadro para, à boa maneira portuguesa, valer a uma aflição.
Não percebi, não compreendi, não me conformei. E não me conformo. Lamento profundamente; estou ciente de que não é caso único, nesta como noutras especialidades. Mas é grave, particularmente grave.
Isto esclarecido, importa reflectir sobre o debate público – seja mediático, seja político – que se seguiu. Quase todo o debate foi feito com alarde e com demagogia, numa lógica de aproveitamento “político”. Primeiro, pelos actores partidários e depois pelos candidatos presidenciais. Quase todos, praticamente sem excepção, afinando pelo mesmo diapasão: o de que a falta de neurocirurgião de serviço é uma consequência imediata da política de cortes cegos na saúde e no Serviço Nacional de Saúde. Sintomaticamente, a única voz que, de um modo responsável e sereno, chamou a atenção para que esta falha não era uma simples decorrência dos ajustamentos financeiros na saúde foi a do Ministro Adalberto Campos Fernandes. Com efeito, e num momento em que teria sido fácil embarcar na “corrida ao populismo”, o novo titular da pasta chamou a atenção para que estava também em jogo um problema de “organização” e deu até os exemplos dos hospitais de Coimbra e do Porto, onde uma situação desta natureza não teria nunca sucedido. Eis uma declaração e uma atitude que mostram a fibra de um ministro e que nos dão a confiança de que, mais uma vez – tal como acontecia no executivo anterior –, a pasta da saúde está muito bem entregue.
O primeiro ponto a sublinhar é o do sentido da demissão dos Presidentes da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, do agrupamento de Lisboa Central e do agrupamento de Lisboa Norte. Parece manifesto que a demissão destes responsáveis só pode dever-se a um reconhecimento de que há uma falha de organização, uma falha administrativa. Se se tratasse de uma discordância ligada a consequências das políticas de contenção financeira, as demissões – nesta altura e nesta contingência – não fariam qualquer sentido. Estes responsáveis da alta administração do Estado foram justamente os protagonistas da concretização dessa política de contenção, centrada no aumento da eficiência, no combate ao desperdício e à corrupção e na rentabilização generalizada dos recursos e meios disponíveis. Não faz qualquer sentido que viessem agora – já com outro Governo – esgrimir a sua falta de acordo com essas políticas. Na verdade, o que atesta o seu gesto é que todos compreenderam que tinham uma quota-parte de responsabilidade – mesmo que meramente objectiva – na falha de organização. Quando centros hospitalares com a dimensão, a estatura e os recursos dos Hospitais de Santa Maria e S. José (e adjacentes) não são capazes de se coordenar para fazer frente a um episódio clínico desta natureza, não são precisas mais palavras. A demissão foi um acto digno, mas é um corolário evidente da assunção de uma responsabilidade administrativa e organizativa.
O segundo ponto que interessa enfatizar é a comparação com os agrupamentos hospitalares de Coimbra e do Porto. A generalidade das pessoas não tem noção, mas o nosso Serviço Nacional de Saúde atenta profundamente contra a equidade territorial. Do ponto de vista da saúde, há cidadãos de primeira – os que habitam na região de Lisboa e Vale do Tejo – e há cidadãos de segunda – os que habitam no restante território. O Estado gasta muito mais per capita, em saúde, com os habitantes da região da capital do que gasta com os das outras regiões. O dinheiro que o Estado injectou em hospitais de Lisboa como o S. José ou o Santa Maria não tem comparação, por exemplo, com o que despendeu com os Hospitais de S. João ou de Santo António no Porto. E, no entanto, os desempenhos e até os resultados em sede de contas de uns e de outros deixam os hospitais do Norte a ganhar, e por muitos, aos hospitais da capital. Os hospitais de Lisboa, em que se passou este terrível episódio, têm muito mais meios do que tem Coimbra ou de que tem o Porto e, no entanto, não são capazes de gerar respostas de idêntico nível. A explicação está, mais uma vez, como indiciou o Ministro, na gestão, na organização, na administração. 
As linhas que acabo de escrever são sensíveis e são atreitas à controvérsia e à manipulação. Mas mandam a verdade, a razoabilidade e a responsabilidade, enquanto critérios da acção pública, que não se impute esta tragédia a uma política justa e necessária de racionalização de recursos. Muito menos quando os recursos à disposição das instituições visadas eram, apesar de tudo, proporcionalmente superiores aos de outras instituições de natureza equivalente.