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A mostrar mensagens de Abril, 2016

Há poucos problemas morais

Miguel Tamen | Observador 29/4/2016
Nenhuma teoria sobre justiça nos ensina a distinguir o que é justo, ou muito menos a fazer o que é certo.
A ideia de que há muitos problemas morais é indissociável da ideia de que estamos sempre a deliberar sobre o que devemos fazer. Faz parte da noção de que passamos as vidas atarefados com questões éticas. Quer a ideia quer a noção são exageradas. Não quer isso dizer que sejamos hoje piores que os nossos antepassados. Somos muito parecidos: nunca, eles ou nós, precisámos de grandes deliberações para saber o que é uma boa acção. O caso da guerra é um bom exemplo. Somos normalmente contra, menos nalguns casos. Pode parecer que nesses casos precisamos de deliberar. Acontece que as teorias disponíveis (por exemplo aquela que nos diz que uma guerra é justa quando os seus objectivos são justos) não são de grande ajuda. Nenhuma teoria sobre justiça nos ensina a distinguir o que é justo, ou muito menos a fazer o que é certo; as opiniões dos participantes o…

A Alegria do Amor: a verdade da Caridade

P. Gonçalo Portocarrero de Almada Observador 30/4/2016
O ideal matrimonial e familiar cristão é exigente. Tanto que, quando Jesus Cristo enunciou a obrigação da indissolubilidade, alguns dos seus discípulos disseram: se é assim, então mais vale não casar!
Como era de esperar, a publicação da Exortação Apostólica do Papa Francisco, A Alegria do Amor (Amoris Lætitia), no seguimento da terceira e quarta assembleias gerais do Sínodo dos Bispos, em Outubro de 2014 e de 2015 respectivamente, suscitou uma grande diversidade de reacções. Enquanto a maioria dos fiéis acolheu com alegria as considerações pastorais do Santo Padre, outros houve que manifestaram a sua decepção por este documento não ter ido tão longe quanto as suas expectativas; e alguns ainda reagiram com uma mal disfarçada irritação, por entenderem que este documento pontifício contradiz os tradicionais ensinamentos da Igreja sobre o matrimónio e a família. Do mesmo modo como os trabalhos das duas assembleias gerais sinodais foram…

Intempestivo, pessimista, sempre radical

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ANTÓNIO GUERREIRO 30/04/2016 - 22:22
Paulo Varela Gomes (1952-2016) esteve sempre em discordância com o seu tempo. Paulo Varela Gomes (1952-2016)
Em quatro anos, publicou um livro de crónicas e quatro romances, o último dos quais, saído em Fevereiro, chama-se Passos Perdidos. Do percurso intelectual, espiritual e ideológico de Paulo Varela Gomes, há uma regra contínua e persistente que se pode deduzir: esteve sempre em discordância com o seu tempo. E essa discordância de tempos só de maneira imperfeita se deixa adivinhar num curto apontamento biográfico que encontramos numa das suas crónicas: “Nasci tarde ou cedo de mais”. Por muito que nestas palavras soe a consciência crítica de um herói inadaptado, a verdade que elas revelam situa-se noutro lado: numa região habitada pelo intempestivo, por aquele que tem uma desconfiança insuperável no curso do mundo e fez do pessimismo um método para vislumbrar em cada caminho uma passagem pelos escombros da história. Como todo o herói intempestivo,…

Peço todo o vosso empenho na divulgação das petições pela liberdade e pela família

Peço todo o vosso empenho na divulgação para a mobilização (a) em defesa da família (b) em defesa da liberdade de educação.  Assine aqui: Pai, Mãe e Filhos - Iniciativa de cidadania europe... Assine e divulgue (dirigida ao Parlamento Europeu) Precisamos de todo o nosso empenho. É preciso recolher 1000000 de assinaturas na Europa. A quota portuguesa ainda só está a 2%.  Eu Escolho a Escola do meu Filho! assine e divulgue (dirigida à Assembleia da República) Já vamos nas 4800 assinaturas. A importância desta causa fica bem à vista com o artigo O ataque soviético contra os contratos de associaç... _____

Uma mãe não tem dia, tem vidas

Inês Teotónio Pereira DN 2016.04.30
O que faz a diferença entre as mães e o resto do mundo é que uma mãe é incondicional: ela não impõe condições de espécie alguma e para nada. Uma mãe é sempre igual e do primeiro ao último dia. Seja como for o filho, uma mãe não lhe vê defeitos, reconhece-lhe apenas algumas fragilidades. Para ela, os filhos cometem erros ou fazem asneiras, mas não são maldosos; fazem disparates, mas não são desastrados. Eles até podem mentir, o que não quer dizer que sejam desonestos. É verdade que muitas vezes não se esforçam, mas isso não faz deles preguiçosos. E se estão inseguros, não significa que sejam fracos. Para uma mãe, o verbo ser só se aplica às qualidades e às virtudes; os verbos estar ou fazer aplicam-se aos defeitos. Porque um filho não tem defeitos, apenas está a crescer. E ele cresce a vida toda. Por isso uma mãe não condena, ela censura; não se vinga, corrige e emenda; também não se revolta, apenas se entristece. E não desiste. Nunca desiste. Do prim…

O ataque soviético contra os contratos de associação

André Azevedo Alves Observador 20160430
Formalmente, o ministro da Educação dá pelo nome de Tiago Brandão Rodrigues, mas tornou-se claro desde que iniciou funções que apenas encobre o verdadeiro rosto do poder no sector, o de Mário Nogueira
Durante anos, muitos observadores atentos do sector da educação em Portugal colocaram a questão: o que faria Mário Nogueira se fosse ministro da Educação? Graças à “geringonça”, estamos a ter a possibilidade de conhecer a resposta a essa pergunta e, infelizmente, de confirmar as piores expectativas. É certo que, formalmente, o ministro da Educação dá pelo nome de Tiago Brandão Rodrigues, mas tornou-se claro rapidamente desde que iniciou funções que é pouco mais do que uma cara jovem e simpática que tem por função encobrir as verdadeiras faces do poder no sector. Um exercício comparativo com a pasta da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior só reforça a constatação: concorde-se ou não com as suas opções políticas e ideológicas, Manuel Heitor é uma pers…

Uma conversa da treta

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 29/04/2016
Teodora Cardoso foi acusada por alguns deputados de fazer análises com base em preconceitos ideológicos.
No debate político em Portugal ganhámos o mau hábito de achar que quem defende contas públicas equilibradas é de direita. Que quem defende que o Estado deve ter um défice controlado é um liberal e que quem acha que a despesa do Estado deve ser igual à receita é um perigoso neoliberal. E se alguém se atrever a sugerir que o país até deveria era ter um superavit orçamental para poder abater a dívida pública é imediatamente conotado como sendo quase fascista. Fazer contas passou a ser uma quase actividade subversiva. Dizer que devemos viver dentro das nossas possibilidades passou a ser uma afirmação que não lesa, mas que incomoda de sobremaneira a pátria. Ainda alguns se lembram de João Galamba, no debate do Orçamento do Estado para 2013, acusar Vítor Gaspar de ter uma linguagem salazarenta e de Honório Novo do PCP defender que as ideias de Vítor…

A farsa da “ditadura europeia”

Rui Ramos Observador 29/4/2016
O PEC é uma opção deste governo e desta maioria para manterem o financiamento internacional e a protecção do BCE. Mas uma opção que não lhes dá jeito assumir, e que por isso tratam como "ingerência".
Viram os soldados alemães que ocupam o castelo de São Jorge? Repararam na bandeira francesa hasteada na Torre de Belém? Eu também não. Por isso, ainda não percebi em que força assenta isso a que os mais excitados chamam “ditadura europeia” e que, sob essa ou outra forma mais amena (“ingerência”), faz gemer tanto patriota. Ah, dir-me-ão, hoje as ocupações e as interferências fazem-se de outra maneira: são os tratados, a moeda, as regulações. Muito bem. Expliquem-me então que tratado foi o governo português forçado a assinar; que moeda se viu obrigado a adoptar; e a que regulações está sujeito sem ter participado no estabelecimento dos órgãos que as decretaram. Na história europeia de Portugal, se alguém forçou alguma coisa, foram os governos portugues…

Tempos fantásticos para estar vivo

Paulo Ferreira Observador 29/4/2016
Este caso dos taxistas vs. Uber - que nem sequer é exclusivamente português - é, só por si, um tratado sobre formas distintas de ver o mundo, de estar na vida e de ganhá-la através dos negócios.
Está à venda no site OLX uma licença de táxi para Lisboa. O preço pedido é de 105 mil euros mas o vendedor está disponível para negociar. Este dono de táxi não estará esta sexta-feira, obviamente, no protesto contra a Uber. Seria o cúmulo da incoerência. É que o OLX é uma das várias “Ubers” de anúncios classificados que apareceram nas últimas décadas. Antes destes sites de compras e vendas entre particulares existirem, a forma de anunciar ao mundo que estávamos a vender alguma coisa era fazer uma publicação num jornal e pagar por isso. O fim dos classificados foi um dos vários pregos no caixão da imprensa diária. Que me tenha apercebido, não houve nenhum levantamento dos editores de jornais contra estes sites que não estão sujeitos à regulação da imprensa nem …

A mudança de género e a antipsiquiatria

Pedro Afonso Observador 25/4/2016
Mudar de género não é a mesma coisa que “mudar de penteado”, pois tem um impacto psicológico, familiar e social profundo. Seria uma enorme irresponsabilidade expulsar a psiquiatria deste processo.
Foi noticiado recentemente que o Bloco de Esquerda defende uma alteração da legislação, tendo em vista possibilitar que qualquer cidadão, a partir dos 16 anos de idade, possa apresentar um pedido de mudança de sexo, dispensando para o efeito um relatório clínico. A atual lei de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil (Lei n. 7/2011 de 15 de Março) limita este procedimento as pessoas maiores de idade, que não se mostrem interditas ou inabilitadas por anomalia psíquica, e a quem seja diagnosticada perturbação de identidade de género (também designada como transexualidade). É ainda necessário a apresentação de um relatório (subscrito por um médico e um psicólogo) que comprove o diagnóstico. Mudar de género não é a mesma coisa que “mudar de penteado”,…

Em defesa da família e da liberdade de educação

Tempos que pedem a nossa mobilização (a) em defesa da família (b) em defesa da liberdade de educação.  Peço o vosso empenho Assine aqui: Pai, Mãe e Filhos - Iniciativa de cidadania europe... Assine e divulgue (dirigida ao Parlamento Europeu) Eu Escolho a Escola do meu Filho! assine e divulgue (dirigida à Assembleia da República) ____

Eu Escolho a Escola do meu Filho!

Para: Assembleia da República
"O Estado NÃO pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas". Este é um direito estabelecido no número 2 do Artigo 43.º da Constituição da República Portuguesa, e que o mais recente Despacho Normativo n.º 1-H/2016, dos Gabinetes da Secretária de Estado Adjunta e da Educação e do Secretário de Estado da Educação, vem colocar em causa.  De forma discreta, o atual Governo vem, por intermédio do referido Despacho Normativo, cercear a autonomia dos pais na definição do projeto educativo que desejam para os filhos. Filhos e pais deste país, vão ficar reféns do superior "aval" do Estado para saber a escola a frequentar, de acordo com uma prevalência da rede pública face às escolas que, com contrato de associação, durante anos asseguraram a incapacidade desse mesmo Estado em estar à altura das exigências de um ensino proporcional e de qualidade.  Esta decisão a…

Eles provaram o poder e gostaram

Camilo Lourenço Jornal de Negocios, 20160428
Quem ler o Programa de Estabilidade apresentado pelo governo (atenção, eu disse quem ler!!!) percebe uma coisa: com algumas diferenças, poderia ter sido apresentado pelos partidos que estão agora na oposição. Se é assim, fica uma pergunta: porque é que os partidos de esquerda, que apoiam o governo, não o chumbam a (tanto o PCP como o Bloco já disseram que não o apoiam, mas também não o querem ver submetido a votação no Parlamento)? Porque já perceberram que nem Bruxelas nem os credores aceitariam um documento muito diferente. Mas isto não viola as suas convicções, tão propaladas na campanha eleitoral e nas declarações diárias de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa? Claro que viola. Mas os dois partidos mudaram com a sua subida ao poder. Eles provaram esse poder... e gostaram. E para o manter vão fazer tudo e mais alguma coisa. Como se verá quando o governo tiver de engolir mais medidas de austeridade, impostas por Bruxelas. Vai uma aposta?

O escorpião da fábula

João César das Neves DN 2016.04.28
Uma das ideias mais simples e influentes da nossa vida política foi formulada há muitos anos pelo Dr. Mário Soares. Apesar de evidente, ela precisa de ser relembrada, pois é fácil esquecer. Depois do 25 de Abril, analisando os motivos por que todas as revoluções e regimes de esquerda tinham até então falhado em Portugal, o futuro presidente explicava que isso se devia ao facto de essas forças terem sempre atacado a Igreja e os militares. Por motivos ideológicos, em geral de forma gratuita e alheia às necessidades da situação concreta do momento, os governos esquerdistas sentiam-se na necessidade de criar conflitos e embates com as estruturas eclesial e castrense. Estes problemas acabavam por dominar a agenda governamental, avassalando a conjuntura política e derrubando o poder revolucionário. A lucidez da observação é facilmente confirmável, não apenas pelos desastres antigos, mas também, inversamente, pelo sucesso da revolução de 1974, que pela prime…

Eu, tu e a eutanásia

António Pedro Barreiro Observador 27/4/2016
Ao dizer vigorosamente aos elementos mais vulneráveis da nossa sociedade que a vida de cada um é um assunto exclusivamente seu, estamos a sussurrar-lhes que estão sozinhos no Mundo.
Li recentemente Eu e Tu, de Martin Buber, que é provavelmente o expoente máximo da filosofia dialógica moderna. Buber descreve uma sociedade baseada numa experiência permanente de diálogo. Nela, a humanidade de cada pessoa constrói-se integralmente na relação com o Outro. “Torno-me Eu no Tu; ao tornar-me Eu, digo Tu”. Torno-me mais pessoa em contacto com o Outro, e isso impele-me a reconhecê-lo como entidade semelhante a mim e estruturalmente distinta dos objectos que crio, possuo e tomo como meios. Por oposição, objectificar o Outro é um acto que me desumaniza. Uma singela constatação que se transformou na vingança poética que Buber arrastou consigo quando os nazis lhe arrancaram a sua cátedra, quando lhe coseram uma estrela amarela no braço e quando, inevitavelme…