terça-feira, 31 de maio de 2016

O presidente, Costa e os outros

Rui Ramos
Observador 31/5/2016

Na política portuguesa, quase todos estão neste momento reféns uns dos outros, isto é, destituídos de iniciativa. Não há aqui Maquiavéis, mas apenas náufragos num regime à deriva.
Talvez o presidente gostasse de se libertar de António Costa; talvez Costa preferisse acabar com a sua dependência do PCP e do BE; e talvez o PCP e o BE não desdenhassem aumentar a sua influência. Talvez seja assim. Mas isso não quer dizer que eles saibam como obter esses resultados. Não há aqui Maquiavéis, mas apenas náufragos num regime à deriva.
Comecemos por Costa e o presidente. Costa perdeu as eleições e, para salvar a carreira, entregou-se ao PCP e ao BE. Uma boa relação com um presidente eleito pela direita é a última ponte que lhe resta para o lugar onde o PS costumava estar, e sobretudo uma prova de normalidade. Mas o presidente também precisa de Costa. A “popularidade” de Marcelo Rebelo de Sousa não é a da estrela televisiva, mas a do presidente que, ao contrário de Cavaco Silva, não é atacado pelo PS. É verdade: o actual presidente é exuberante e caloroso, onde o seu antecessor era reservado e formal. Mas é a maior das ilusões pensar que o feitio e o estilo bastam para o proteger: se conviesse ao PS, a exuberância haveria de parecer descontrolo, e a informalidade, ligeireza.
Costa e o presidente estão prisioneiros um do outro, e ambos estão prisioneiros do PCP e do BE. O presidente não terá dúvidas sobre o que significa uma governação subordinada ao PCP e ao BE, num país do Euro e a necessitar de investimento externo. Muito provavelmente, Costa também não. Mas por mais que para ambos isso seja claro, o presidente não pode simplesmente derrubar o governo de Costa para se livrar do PCP e do BE, porque arriscaria um choque com o PS; e Costa não pode demitir-se só para se libertar dos seus parceiros parlamentares em novas eleições, sem passar por um traidor à esquerda.
Não é por acaso que desde Novembro muita gente espera que o PCP e o BE despeguem, senão neste, então no próximo orçamento. Porque isso permitiria ao presidente e a Costa clamar que bem tentaram, mas que esta maioria, com esta composição ou nas actuais proporções, não serve para governar na UE. O presidente poderia então convocar novas eleições sem parecer que estava a querer prejudicar Costa, e Costa apelar às esquerdas para votarem no PS, se quisessem “políticas de esquerda” no quadro europeu.
O problema é que não é claro que o PCP e o BE queiram fazer o favor de sair. Com o actual arranjo, o PCP salvou os seus sindicatos de um declínio irremediável, e voltou a tutelar ministérios, como não acontecia desde 1976; o BE aumentou os seus tempos de antena e deu carreiras mediáticas à sua “nomenklatura”. Henrique IV, quando se converteu ao catolicismo para chegar ao trono de França, terá dito que Paris valia bem uma missa. E se o poder, para o PCP e o BE, valer bem a austeridade? E se, mesmo perante um apertão de Bruxelas, optarem por argumentar que, embora a solução seja má, com a “direita neo-liberal” no governo seria muito pior?
É inútil, por tudo isto, procurar adivinhar qual é a estratégia deste ou prever a próxima jogada daquele. Na política portuguesa, quase todos estão neste momento reféns uns dos outros, isto é, destituídos de iniciativa, à espera do que vai acontecer. Sim, é isto que é uma verdadeira crise política.

Liberdade de Educação, Liberdade para Todos.

José Maria Seabra Duque
Nós os poucos, 2016.05.31
  1. Os pais têm o direito e o dever de educar os seus filhos. Ou seja, os pais não têm apenas o direito de educar os seus filhos da forma que pensam ser a mais adequada,  mas também o dever de o fazer.
  2. Faz parte da educação das crianças a sua educação escolar. Esta dificilmente pode ser ministrada pelos pais, por falta de conhecimentos, tempo e dinheiro.
  3. Dai a evidente necessidade de existir um rede de estabelecimentos escolares, que auxilie os pais na sua missão de educar os filhos.
  4. Qualquer escola, ainda que gerida e detida por privadas, presta por isso um serviço público.
  5. Por isso a dicotomia escola pública vs escola privada é falsa. O que existe são escolas do Estado e escolas privadas. Ambas prosseguem o mesmo fim: o ensino dos seus alunos.
  6. Os pais têm o direito, e o dever, garantido pela Constituição, de educar os seus filhos. Logo também têm o direito de participar na educação escolar dos seus filhos.
  7. Em Portugal isso não acontece. Existe o ensino estatal, grátis, onde os pais não são tidos nem achados. Os seus filhos têm que frequentar a escola da sua área de residência. Escola essa onde os professores são colocados por concurso, o número de funcionários é decidido pela Direcção Regional e o programa definido pelo Ministério da Educação.
  8. A única alternativa que existe a este sistema, onde as crianças, quais servos da gleba, estão acorrentadas à sua zona residencial para frequentar uma escola onde os seus pais não podem interferir, é ter dinheiro para enviar os filhos para uma escola privada. Ou seja, só os ricos podem realmente exercer o seu direito a educar os seus filhos. Os pobres vivem ao capricho do Ministério da Educação e da FENPROF.
  9. A questão não é por isso uma questão da qualidade da escola. Existem muitas escolas públicas boas e muitos colégios maus. A grande questão é os pais poderem decidir como educar os seus filhos.
  10. Porque a qualidade de uma escola é subjectiva. As crianças não iguais, nem o projecto educativo dos pais o é. Eu posso achar que o meu filho precisa de um ensino mais artístico. A pessoa do lado que o seu filho preciso de um ensino mais científico. A outra pessoa que o seu filho preciso é de um ensino mais rígido. Etc., etc., etc...
  11. O actual sistema educativo em Portugal é profundamente injusto. A ausência de qualquer liberdade de escolha dos pais da escola que os seus filhos frequentam tem o único resultado: os mais pobres são obrigados a colocar os seus filhos na escola ao pé de casa. O resultado são escolas tipo gueto. O problema piora com o magnifico sistema de colocação de professores por concurso. Ou seja, as escolas em vez de poderem contratar professores que se adequem aos seus alunos, são obrigadas a receber os professores colocados pelo Ministério da Educação. Resultado: a total instabilidade e a impossibilidade da direcção da escola em manter um projecto educativo pensado para as necessidades da sua população escolar. Muitas vezes ouvimos casos de escolas públicas que funcionam muito mal. O meu espanto é como é que ainda funcionam!
  12. Então qual a alternativa? Várias. Os contratos de associação é uma delas: o Estado pagar à escola por cada aluno que a frequenta independentemente de ser privada ou do Estado. Outra possibilidade é o cheque ensino. Uma verba dada aos pais com filhos em idade escolar que só pode ser usado para pagar a propina da escola. Ou então, e este seria o meu sistema de eleição, as escolas serem geridas por comunidades e associações locais, recebendo uma verba de acordo com o número de alunos, tendo os pais liberdade de colocar os filhos na escola cujo o projecto educativo preferissem.
  13. Evidentemente que a liberdade de educação traz muitos riscos e responsabilidades. Exige maior envolvimento dos pais, das comunidades locais. Traz uma maior fiscalização do trabalho dos professores e das direcções escolares. Mas nenhum destes desafio é o maior entrave à revolução que a educação em Portugal tanto necessita. O maior entrave é que a descentralização da educação de maneira a garantir aos pais uma maior liberdade para educar os seus filhos, iria diminuir drasticamente o poder do Ministério da Educação e dos sindicatos. A Escola deixaria de ser uma arma de doutrinação do povo ao serviço do Estado, para passar a ser, de facto, uma ajuda real aos pais na educação dos seus filhos. E isso a mentalidade socialista do nosso pais não aguenta
  14. A luta pela liberdade de educação é por isso uma luta fundamental por um país mais livre e mais justo. Um país onde cada pai, independentemente da sua fortuna, ideologia, religião, educação, pode de facto cumprir a sua missão de educar os seus filhos. Enquanto assim não for, só os ricos serão livres para educar os seus filhos.

Estado, Estado, Estado

José António Saraiva | SOL | 30/05/2016

A quem cabe assegurar a saúde dos cidadãos? Naturalmente ao Estado. E deve fazê-lo de forma universal e gratuita. Mesmo as pessoas que possam pagar devem, de acordo com a esquerda, ter acesso gratuito a todos os cuidados médicos. E, na Saúde, o Estado não pode poupar um tostão - sob o risco de ser acusado de contribuir para a morte de cidadãos (como sucedeu no caso do jovem que teve um AVC num fim de semana).
A quem cabe assegurar a educação dos cidadãos?
Naturalmente ao Estado, que deve fazê-lo igualmente de forma universal e gratuita. E que, segundo a extrema-esquerda, podia muito bem dispensar o ensino privado.
A quem compete assegurar a Justiça?
Naturalmente ao Estado, porque é o único árbitro que tem condições para ser isento.
A quem compete assegurar a segurança dos bens e das pessoas, e a ordem pública?
Naturalmente ao Estado, porque só o Estado deve deter a possibilidade intervir pela força.
A quem cabe assegurar os transportes?
Naturalmente ao Estado - e, segundo a esquerda, em terra, no mar e no ar. Por isso mesmo, este Governo anulou vários concursos públicos já realizados de privatização de transportes urbanos, e reverteu a privatização da TAP.
A quem cabe controlar as empresas estratégicas, desde a eletricidade, às águas e às telecomunicações?
Naturalmente ao Estado, diz a esquerda, pois sem isso o Governo não dispõe de meios para intervir nos respetivos setores. Por isso, o PCP e o BE foram contra a privatização da EDP e da PT, e não aceitam a privatização das empresas de distribuição de água.
A quem cabe controlar a banca?
Naturalmente ao Estado, dizem igualmente o PCP e o BE, visto que é um setor estratégico. E, nessa medida, para lá de exigirem a continuação da CGD 100% pública, defendem a nacionalização de toda a banca.
A quem cabe controlar os seguros?
Naturalmente ao Estado, pela mesma razão.
A quem compete regular o setor dos media?
Naturalmente ao Estado, que por isso tem uma estação pública de rádio e TV, que lhe permite atuar diretamente no setor.
A quem cabe assegurar o investimento?
Em primeiro lugar ao Estado - diz a esquerda -, pois se o Estado não mostrar que acredita no país quem irá acreditar?
A quem cabe assegurar a todos os cidadãos condições mínimas de sobrevivência?
Naturalmente ao Estado, por isso existe o rendimento mínimo garantido.
O Estado, o Estado e o Estado. Para a extrema-esquerda - e alguns setores do PS próximos dela, que se fortaleceram com esta solução de Governo - o Estado deve ser o proprietário de quase tudo; e, naquilo em que não mande, deve poder meter o nariz à vontade.
Ora isto, a acontecer, teria desde logo um pequeno problema: a partidarização total da vida do país.
Nós vemos o que acontece quando o Governo muda: rolam cabeças, encaixam-se os boys, os critérios de confiança política sobrepõem-se aos da competência.
Imaginemos então o que aconteceria se o Estado mandasse em tudo…
Seria o regabofe.
Além disso, a experiência mostra-nos que as empresas públicas têm uma tendência irreprimível para o prejuízo.
As estações privadas de TV, por exemplo, têm de dar lucro - mas a RTP pode dar constantemente prejuízo.
Imagine-se o que seria alargar ainda mais o perímetro de intervenção do Estado.
Seria a ruína.
Há ainda outra questão. Confesso que estou nos antípodas do que o PCP e o BE pensam sobre o assunto: sou um liberal, defendo um Estado mínimo e uma sociedade civil forte. Incomoda-me a presença do Estado em tudo.
Mas independentemente do que cada um de nós pensa, há uma realidade que se impõe e que é esta: num mundo cada vez mais globalizado, Portugal só poderá safar-se se for competitivo.
Dito de uma forma simples: se conseguir exportar muito.
Caso contrário, estará sempre a endividar-se.
Mas, como quem exporta são as empresas e não o Estado, Portugal deveria estar hoje a aligeirar os serviços públicos e a diminuir os encargos sobre as empresas - tentando ao mesmo tempo atrair investimento estrangeiro, porque sem capital não há empresas.
Sucede que, por força dos acordos feitos por António Costa com o PCP e com o BE,   Portugal está a fazer precisamente o contrário: privilegia a oferta pública, quer empolar alguns serviços, aumenta os impostos e agride certos interesses privados.
Ou seja: Portugal está a caminhar no sentido oposto ao que seria necessário para ser viável.
Por este andar, Portugal não terá qualquer hipótese de sobrevivência no mundo global.
Não acredito que Marcelo Rebelo de Sousa (apesar do que diz) e o próprio António Costa (que não é burro) não tenham percebido o buraco em que estamos metidos - e não estejam a pensar no modo de sair dele.
Costa sabe muito bem que os acordos que fez com a extrema-esquerda impedem a modernização do país e o condenam a não ser competitivo. Não é por acaso que o PCP e o BE são contra a globalização, a União Europeia e o euro (ver foto).
Neste momento, Portugal só tem dois caminhos: ou sair da UE e regressar ao escudo (com a extrema-esquerda e os setores esquerdistas do PS a liderar, assumindo uma vocação terceiro-mundista), ou continuar na UE e aceitar a globalização. Mas, para isto, é preciso inverter rapidamente a marcha.
Os números já começaram a sair - e os avisos já começaram a chegar.

A eutanásia e o regime político

RUI NUNES Público 31/05/2016

O debate em torno da despenalização da eutanásia é um teste ao próprio regime político. Porquê, porque a democracia que conquistámos coletivamente no 25 de abril tem uma marca genética. A marca de que a nossa sociedade não pode nem deve ser governada, como foi no passado, por um conjunto de personalidades por mais ilustres que possam ser. A marca genética da nossa democracia é o pluralismo ideológico e a possibilidade de diferentes mundividências se confrontarem no espaço público, permitindo assim que os cidadãos formem a sua opinião e decidam em conformidade. O oposto do que está a acontecer em Portugal. Uma minoria – até prova em contrário – quer impor a sua visão do mundo, sem legitimidade democrática para o efeito.  
Deve recordar-se que tivemos eleições legislativas em outubro do ano passado e este teria sido um excelente momento para discutir este tema com honestidade intelectual e rigor técnico. Mas tal não aconteceu. E assistimos hoje a uma inaceitável instrumentalização político-partidária de um assunto tão sensível e complexo como a dignidade no fim da vida e a morte medicamente assistida. 
Por isso defendi e defendo que, sendo o tema da eutanásia tão complexo e fraturante, deve ser realizado um referendo nacional sobre a sua despenalização. De facto, o debate social e político em torno da eutanásia origina uma acesa controvérsia num diálogo nem sempre construtivo em torno do conceito de morte com dignidade. Se é certo que assistimos a uma crescente aceitação desta prática quer pela classe médica quer pela população em geral, deve questionar-se se o direito à autodeterminação é ilimitado, nomeadamente no que concerne ao pedido para terminar a própria vida. Ou, pelo contrário, se existem fronteiras que não devem ser ultrapassadas.
Deve realçar-se que o conceito de eutanásia internacionalmente reconhecido se reporta à perspetiva holandesa, ou seja à morte intencional de um doente, a seu pedido (firme e consistente), através da intervenção direta de um profissional de saúde. Para além da reflexão ética, questão distinta reporta-se à despenalização da morte medicamente assistida. Nomeadamente face aos constrangimentos sociais e económicos que a população portuguesa atravessa e às enormes carências existentes no que se refere ao acesso a cuidados paliativos em doentes terminais.
Em síntese sou de opinião que previamente à despenalização da eutanásia é fundamental promover um debate sério e participado sobre a legitimidade da eutanásia no plano ético/social e sobre a necessidade de legislar nesta matéria. Designadamente deve garantir-se uma clara distinção entre “eutanásia voluntária” e “eutanásia involuntária”.
E a Assembleia da República, o Governo e demais órgãos de soberania devem promover a realização de um referendo nacional de modo a que a vontade soberana do povo português possa legitimar qualquer evolução legislativa. Não realizar um referendo e legislar precipitadamente nesta matéria, sem debate, sem esclarecimento, sem contraditório, é regressar ao passado. É regressar a um tempo que julgávamos ultrapassado em que alguns decidiam pelo futuro de todos. O referendo à eutanásia é portanto um sinal claro de vitalidade do regime democrático e dos valores pelos quais se realizou uma revolução em Portugal. 

Meninos ricos, meninos pobres

Sofia Vala Rocha
Sol, 2016.05.31

Numa cidade há duas escolas pertinho uma da outra. Uma é de meninos pobres, a outra de meninos ricos. Na escola dos meninos pobres não há um pavilhão gimnodesportivo. Ou melhor, havia, mas estava em tão mau estado de conservação que a Câmara dessa cidade resolveu demoli-lo por falta de condições de segurança.
As crianças são agora forçadas a uma marcha de um quilómetro, duas vezes por semana, para poderem fazer educação física. Como não há transporte, vão a pé. Carregam as suas mochilas com muitos quilos às costas.
Nesta escola de meninos pobres não há cacifos. Ou melhor, até há. Mas para além de os alunos estarem proibidos de aceder aos cacifos fora dos intervalos, os cacifos são pagos. E esse custo é difícil de suportar para os pais, até porque perto de 40% dos alunos beneficiam de ação social escolar.
Esta escola não tem um pavilhão, um anfiteatro ou uma cantina digna desse nome, e a única liberdade de escolha que os alunos têm é, quando está mau tempo, decidirem se levam ou não chapéu-de-chuva para se protegerem no caminho para o pavilhão. Alguns preferem não levar, até porque já têm obrigatoriamente de carregar duas mochilas.
Os pais destes alunos descobriram agora que a responsabilidade do transporte escolar não era do município mas do Ministério da Educação. Já pediram várias audiências, mas até agora só obtiveram o silêncio como resposta.
Ao lado desta escola há uma escola que tem tudo. É uma escola de ricos. Uma escola modelo, daquelas que levaram as maravilhosas obras da Parque Escolar (a iniciativa que revestiu escolas a mármore e utilizou candeeiros Siza Vieira).
Perante tamanha disparidade, pergunta-se: há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda? Há munícipes de primeira e munícipes de segunda?
Mas os pais dos meninos pobres dizem mais, e vou citá-los: “Por que é que todos pagamos impostos mas uns têm pavilhão, auditório e duas cantinas, e os outros nem transporte têm para fazer desporto e são obrigados a andar à chuva e ao sol com pesos absurdos?”.
Já sei que, neste momento, o leitor está a pensar que a escola dos meninos pobres é pública e a dos meninos ricos é privada. Estão duplamente enganados: as duas escolas são do Estado, completamente públicas.
As duas escolas são em Lisboa, a poucos minutos uma da outra. Ambas na freguesia do Areeiro. A escola pobre e sem meios é a EB 2+3 Luís de Camões. A escola rica remodelada pela Parque Escolar é a EB 2+3 Filipa de Lencastre.
O Estado fez aqui o que faz muitas vezes: planeou mal, geriu mal, executou pior. Gastou fortunas em mármores e Sizas Vieiras para uns, e condenou os outros a marchas forçadas ao sol e à chuva. Tratou de forma profundamente desigual os pais que pagam impostos. Tratou de forma desigual os alunos.
O Estado não precisou de nenhum contrato com privados para fazer asneira. Encarregou-se sozinho da tarefa.

Como cozer um primeiro-ministro em lume brando

Alexandre Homem Cristo
Observador 30/5/2016

Com a economia em degradação acelerada, Costa tem a garantia presidencial de que completará dois anos no governo. Ou seja, ficará o suficiente para ser desgastado pelas consequências dos seus erros.
O plano era simples. Tendo perdido as eleições, António Costa tomaria o poder à direita de mão dada com PCP e BE enquanto os seus interesses fossem convergentes. Implementaria um conjunto de medidas populares para o funcionalismo público e para corporações politicamente próximas desses partidos. Anularia as decisões mais impopulares do anterior governo. Garantiria reposições de salários e mais dinheiro nos bolsos dos portugueses, através de uma aposta no consumo para o crescimento económico. Esperaria que a evolução das sondagens lhe fosse favorável. E, por fim, forçaria rapidamente eleições legislativas para, então, as vencer e formar uma maioria parlamentar mais estável. Sim, o plano era simples, mas o que muitos davam como impossível era que estivesse hoje em curso. E está. A conquista mais notável do governo nestes seis meses foi essa: a de existir.
Uma conquista, diga-se, que surpreendeu muita gente mais à direita – incluindo eu próprio que, no pós-eleições legislativas, não acreditei que o plano de António Costa tivesse viabilidade política. Mea culpa. Mas essa é, contudo, apenas a mais óbvia das surpresas destes seis meses. As outras duas, que condicionarão o futuro, escondem-se à esquerda.
Primeiro, os indicadores económicos, pelos quais o governo será avaliado, estão a degradar-se muito mais rapidamente do que as piores previsões de PS-BE-PCP antecipavam, já sem falar no mais do que ultrapassado cenário macroecnómico de Mário Centeno. O desemprego aumentou, a criação de emprego diminui, as exportações abrandaram, o crescimento económico foi revisto em baixa e o investimento caiu. Em parte, porque o contexto internacional se tem agravado. Mas também porque a estratégia económica não está a resultar, além de que reverter privatizações, aumentar salários e voltar às 35 horas assusta e afasta quem pensa investir no país. Resultado: a desconfiança internacional voltou. E, afinal, ninguém pode censurar os parceiros europeus que desconfiam do compromisso de Portugal em consolidar as suas contas públicas quando os sinais negativos se acumulam – depois de uma proposta de Orçamento que foi desfeita por Bruxelas, o PS continua de mão dada com inimigos da iniciativa privada e a seguir a sua agenda laboral e corporativa. Os avisos acumulam-se e quase se dá por certa a necessidade de medidas de austeridade suplementares – hipótese que o governo nega sucessivamente. Obviamente, não se imagina como pode isto acabar bem.
Segundo, tudo indica, António Costa terá condições para se manter em São Bento durante mais tempo do que inicialmente poderia ambicionar. Com a direita parlamentar de mãos atadas, com um Presidente da República disponível para esticar a paz até às eleições autárquicas, e com os partidos à esquerda a tirarem pacificamente proveito da sua influência na governação, só por vontade própria o PS forçará eleições – o que é improvável, pois nem as sondagens lhe são particularmente favoráveis como não lhe interessa assumir os custos de uma ruptura na geringonça. Quando assumiu a chefia do governo, António Costa tinha pela frente um desafio de curto prazo: um ano para convencer os portugueses de que merecia vencer eleições. Ora, Marcelo ofereceu-lhe o segundo ano.
No balanço dos seis meses, António Costa procurou valorizar a segunda parte, enquanto muitos comentadores relembraram a primeira. Mas o mais interessante está na soma das duas: com os indicadores económicos a degradarem-se aceleradamente, Costa tem a garantia presidencial de que completará pelo menos dois anos como primeiro-ministro. Ou seja, ficará tempo suficiente para ser responsabilizado e desgastado politicamente pelas consequências dos seus erros. Como se coze um primeiro-ministro em lume brando? Marcelo explica: dando-lhe tempo.

O dia dos meus irmãos

POVO 31.5.16 
Há um grupo de cidadãos que quer que hoje se comemore o dia dos irmãos. Se quiser apoiar esta pretensão pode assinar aqui a petição.
Não sou grande fã de dias disto e daquilo, mas havendo dias para tudo, faz falta o dia dos irmãos.
Porém, o que verdadeiramente faz falta são os irmãos. Vejo isto nos meus netos que se cuidam um do outro e se tratam carinhosamente por mano, estabelecendo uma cumplicidade única que reconheço ter também vivido nas memórias da minha infância.
Vejo isto sempre que me re-encontro com um dos meus irmãos (somos nove como se pode ver na fotografia) e tomo consciência de que vivi toda a minha vida adulta longe deles e da falta que um convívio mais próximo nos fez uns aos outros.
Apesar de sermos muitos e diferentes há muitas formas de mantermos e fortalecermos esta relação tão especialmente cúmplice que é a de ser irmão. 
Uma saudação muito especial aos meus irmãos no dia dos irmãos
Pedro Aguiar Pinto

Os meus irmãos

Gosto desta fotografia. 
Podia ter escolhido uma mais recente, mas daqui para a frente (Verão de 1985) a confusão aumentou. Estamos os nove irmãos, a mãe e já três tínhamos casado, razão pela qual há 3 cônjuges alguns filhos e sobrinhos
Atrás: Zé, Bugui, Carlos, Mãe Alice, Fernando, Nininha, António (cunhado)
Em pé, à frente: Gonçalo (sobrinho), Minhoca (mulher), Pedro (com a Leonor ao colo)
Sentados, à frente: Vanda (cunhada) com o Filipe (sobrinho) ao colo, Diogo(sobrinho), Jão, Paulo (com a Inês - nossa filha- ao colo) e Xinho

Um dia igual, um dia diferente

JOSÉ RIBEIRO E CASTRO Público  31/05/2016

É lema conhecido: todos iguais, todos diferentes. O mesmo pode dizer-se dos dias: têm 24 horas, mas todos são diferentes – pelo tempo que faz, pela hora a que o sol nasce ou se põe, pelo calendário. Repetem-se, todos os anos; e, repetidos, podem ser diferentes. O traço distintivo é a memória que assinalam ou o valor que celebram: um aniversário; ou a referência social que lhe associamos.
O dia de hoje distingue-se por ser Dia dos Irmãos – festejamos os irmãos e a sua relação. Foi em 18 de Setembro de 2014 que a assembleia geral da Confederação Europeia de Famílias Numerosas (ELFAC) resolveu instituir o Dia dos Irmãos, fixando-o a 31 de Maio a nível europeu, e iniciou a sua celebração anual, na sequência de uma primeira experiência estreada em Portugal nesse ano.
Já havia dias para tudo, não ainda para celebrarmos irmãs e irmãos. E, todavia, termos irmãos, sermos irmãos, é a relação mais forte, mais próxima, mais duradoura na nossa vida. Há irmãos que se dão mal, não só os que se dão bem. Há os que só têm um irmão ou irmã e os que têm muitos. Há os irmãos de idade próxima e os de idades afastadas. Há irmãos dos dois pais e meios-irmãos, só de mãe ou só de pai. Há ser o mais velho e ser o mais novo. Há os gémeos e os que o não são. Há ter só irmãos, ou ter só irmãs, ou tê-los de ambos os sexos. Mas seja qual for o quadro, é singular e fortíssima a relação de irmãos. Prolonga-se e alarga-se por tios, primos e sobrinhos. Há sobrinhos, filhos de irmãos, que nos são tão queridos como filhos. Há primos, filhos de irmãos dos pais, com que enturmamos como irmãos – os primos-irmãos. E os tios, irmãos dos pais, são os que têm connosco as conversas que os pais não têm, grandes camaradas de rectaguarda. É a relação de irmãos que estrutura a ampla relação familiar.
A lacuna já não existe. Ary dos Santos escreveu no poema que Fernando Tordo musicou para Paulo de Carvalho: “Natal é quando o homem quiser”. Assim é o Dia dos Irmãos: é quando o quisermos – não só quando nos lembramos dos irmãos, mas também neste dia que, a partir da afirmação civil, escolhemos para os celebrar socialmente. Hoje.
Existe uma petição. Aliás, três: uma, dirigida à Assembleia da República; outra, para as instituições europeias; e outra, para a ONU. Essas petições são instrumentos de divulgação e agregação – não se destinam a pedir para ser criado o que já está criado.
Será bom que qualquer dessas instituições públicas, superando partidarismos, o abrace e afirme também. Mas estes “dias” existem fora da deliberação política. Onde está a lei que criou o Dia do Pai? Ou da Mãe? Ou dos Namorados? Não há. Vivem de afirmações sociais. O Dia Mundial do Escutismo resultou dos próprios escuteiros, que adoptaram o Dia de S. Jorge. O Dia Mundial da Terra decorreu da proclamação de um senador americano que foi fazendo o seu caminho. O Dia Mundial da Voz foi uma decisão dos otorrinolaringologistas.
Os irmãos marcam-nos para sempre. São como nossa segunda natureza. Na minha circunstância, só tive um irmão. Melhor dito, só tenho um irmão. É facto que já morreu; mas nunca deixei de o ter. Só vivendo, percebemos o que estou a dizer. Não o entendia antes.
Um cancro levou-o de repente: ainda novo, com 61 anos. Um cancro de pulmão de células pequenas: terrível! Um cancro de fumador, particularmente agressivo. Num ano, deixámos de o ter connosco. Foi diagnosticado em Fevereiro; morreu em Março do ano seguinte.
O meu irmão tinha qualidades extraordinárias, não só de inteligência, trabalho e dedicação, mas também de temperamento e alegria. Crescemos muito, cultivando sentido de humor diante da vida, das situações e das dificuldades. O desenvolvimento do cancro teve duas fases: uma, em que pensou num milagre; outra, de contra-ataque inexorável do bicho. Numa das últimas semanas, fui almoçar com ele perto do seu trabalho. Não tinha cabelo, por causa da quimioterapia. Ao sairmos para o restaurante, cruzámo-nos com umas jovens, colegas dele, que fumavam à porta do edifício. O meu irmão, sorrindo muito, olhou para elas e disse-me: “Zé! Eu já disse a estas meninas para terem cuidado: fumar faz cair o cabelo.” Elas sorriram também. Sorriso contido.
Nunca o ouvi lamentar a sua sorte. Mas o meu irmão gostava muito de viver. Adorava a vida. Sinto que partiu triste. Gostava de ter mais tempo. E tinha muito para fazer.
Tenho sempre dúvidas sobre se estas coisas funcionam, pois também fui grande fumador e as recomendações não funcionavam comigo. Mas sinto que a prevenção do meu irmão a quem fuma é esta: “Cuidado! Fumar faz cair o cabelo.”

De novo, a maioria silenciosa. Venha ela

PAULO RANGEL Observador 31/05/2016

Governo, BE e PCP não se livram da fama de mudarem as regras a meio do jogo.

1.  O movimento Escola.Ponto pode ter mais ou menos razão quanto à legalidade substantiva, ao modelo administrativo escolar e à compreensão (que nunca é uniforme) do que seja o interesse público. Há decerto um item em que tem inteira razão: o Estado deve cumprir os seus compromissos. Longe vão os tempos em que Costa proclamava a plenos pulmões: “palavra dada, palavra honrada”. O Governo, o Bloco e o PCP podem gritar e espernear, mas não se livram da fama e do proveito de, contra a lei e a ética republicana, mudarem as regras a meio do jogo.

Valha a verdade de que o movimento amarelo da Escola.Ponto, sem sindicatos nem partidos de alavanca, se tem mobilizado por todo o país e, para quem diz que corporiza um nicho de pequena expressão, foi capaz de fazer uma impressionante manifestação no Domingo. Interessa-me porém de sobremaneira um ângulo totalmente diverso daquele subjaz à essência dessa luta. O conjunto de pessoas que aparece nas manifestações de protesto do Escola.Ponto não corresponde, em nenhum dos seus traços, ao tipo dominante daqueles que integram os habituais movimentos de protesto. Não tem a mobilização ensaiada e repetitiva do PCP, não exibe a força e o músculo das manifestações da CGTP, não ostenta a criatividade e a provocação (muitas vezes pouco numerosa) do Bloco e de alguns movimentos fracturantes, não aparenta a cadência resignada das organizações da UGT. Tem algo de muito mais espontâneo e artesanal, tem algo de muito mais genuíno e experimental, tem algo de paradoxalmente leve e alegre. As pessoas que integram esta vaga de protesto não são as mesmas que fazem e fizeram os protestos a que estamos mais acostumados. Elas fazem parte daquilo a que se poderia chamar, sem abuso, a maioria silenciosa. Uma maioria que, já há mais de quarenta anos, fez imenso pela implantação de um regime moderado, plural e tolerante. Muitas destas pessoas são hoje, aliás, abstencionistas militantes, desencantados que estão da política e dos políticos. Fazem parte daquele enorme maioria de portugueses que não acredita em radicalismos, em intolerâncias, em fundamentalismos e cegueiras ideológicas, de travo ressentido, assaz vingativo, punitivo ou revanchista.
2. Já aqui disse, por mais de uma vez, que está por fazer a história dos movimentos moderados que, nos idos de 1974-1976, fizeram frente à ameaça ditatorial do PCP e da extrema esquerda. Há alguns estudos sérios e cuidados sobre o papel do PCP, dos seus dirigentes e da sua correia do comando soviética. E há um interesse evidente pelo lugar dos grupúsculos de esquerda radical, as suas múltiplas cisões e divisões, os seus ódios de estimação. Mas continua por estudar e valorizar o papel das classes médias urbanas e rurais que formaram as associações de pais em todos as escolas, que alimentaram células paroquiais e grupos católicos, que encheram praças e avenidas em manifestações políticas e em actos cívicos. Lembro-me de ir com os meus pais dezenas de vezes à Avenida dos Aliados, onde se concentravam centenas de milhares de pessoas, de todas as idades e provindas de todo o Norte, para censurar Corvacho ou Fabião e para apoiar Pires Veloso e Ramalho Eanes. E que para o fazer esta mole humana passava por barricadas violentas e por montes de pneus a arder. E que o fazia, expondo crianças e velhos, a riscos e a impropérios. Contra o advento de uma nova ditadura, contra a ameaça do radicalismo, contra a perversão da promessa que significara o 25 de Abril, a maioria silenciosa fez barulho, produziu ruído, fez-se notar e conseguiu inverter o rumo dos acontecimentos.   
3. Onde muitos vêem apenas o eclodir de um movimento “social” de alcance curto e corporativo – o da defesa dos supostos “privilégios” de meia dúzia de colégios –, não excluo que possa antever-se muito mais. O primeiro sinal que não deve ser descurado é o do apoio expresso da Igreja Católica que, raras vezes – mesmo em questões morais que se poderiam tomar por muito mais relevantes para a sua doutrina – tem apoiado a organização das manifestações. Basta comparar a actuação da Igreja portuguesa com a da Igreja espanhola ou francesa nessas ditas questões morais para ver como, nesses assuntos, a hierarquia católica lusa tem sido discreta. Mas sintomaticamente, neste tema, aceita apoiar acções de rua. O segundo sinal é a forma como o Presidente da República, mesmo fazendo apelos à paciência, não deixa cair nem morrer o tema. E, de algum modo, pelo seu estilo inovador, bem-disposto e heterodoxo inspira o estilo de intervenção daqueles manifestantes.
4. Pois bem, os portugueses estão cansados de sacrifícios e de austeridade. E nisto tem razão quase toda a gente. Mas há uma larga maioria – moderada, sensata, realista – que não está disposta a passar por novos sacrifícios nem por novo resgate. Uma maioria que quer subir na escala social, que quer melhorar os seus rendimentos e a sua perspectiva de vida, mas não quer, de modo nenhum, desperdiçar todo o esforço que foi obrigada a fazer desde 2010-2011. Esta maioria silenciosa – perante as reversões sistemáticas, a devolução relampejante de rendimentos aos funcionários públicos, o regresso da discriminação das 35 horas, a baixa das exportações, o aumento do desemprego, a associação cada vez mais forte de Portugal à Grécia, a iminência (injusta e inaceitável) de sanções, a falta de credibilidade que mata o investimento – não vai ficar queda e muda.
Talvez António Costa não tenha percebido. E o PCP e o Bloco, formados no marxismo, até gostem e delirem. Mas as manifestações da Escola.Ponto podem ser apenas o início: o início de um progressivo movimento da sociedade civil que quer o fim do radicalismo, do “reversionismo” e do revanchismo. Que quer viver melhor, mas com passos seguros e prudentes. Que não quer deitar pela borda fora o esforço brutal que fez nos anos que passaram. E Costa passará a ter, em cada visita de propaganda, a sua Grândola Vila Morena.

No princípio era o Estado

Francisco Mendes Correia
Observador 30/5/2016

O Estado não é uma realidade anterior às famílias. O Estado só existe porque primeiro existem famílias. São as famílias que têm os filhos e são as famílias quem paga impostos.

O recente debate sobre os contratos de associação celebrados entre o Estado e os colégios privados é profundamente ideológico, ainda que muitas vezes se disperse por questões técnicas, como a validade ou invalidade desta ou daquela norma jurídica, ou a quantidade de alunos neste ou naqueloutro concelho.
Um argumento muitas vezes utilizado nos recentes debates ilustra este ponto: “Não se está a restringir a liberdade de escolha! Quando alguém fica doente, também não pode escolher um hospital privado e tem que utilizar o SNS”. A lógica interna é irrepreensível: perante duas circunstâncias em que alguém precisa de uma prestação pública (serviços de educação/serviços de saúde), um cidadão deve conformar-se com o serviço disponibilizado pelo Estado. Aceitar a possibilidade de escolha – dispondo-se o Estado a suportar o respetivo custo – seria aqui “pagar duas vezes” pelo mesmo serviço.
Mas o argumento prova demais. Se um desempregado se encontrar numa situação de carência económica, porque é que o Estado não lhe atribui diretamente um cabaz de compras, composto por bens produzidos pelo próprio Estado? Porque é que o Estado admite que o desempregado escolha os bens e serviços em que pretende gastar o dinheiro? Porque é que o Estado não aproveita esta oportunidade para criar mais postos de trabalho, assegurando o fornecimento dos bens e serviços que o desempregado presumivelmente desejará?
A resposta é simples: porque não é preciso. Porque se o Estado respeitar o princípio da subsidiariedade, não irá intervir numa área onde as famílias se conseguem organizar: a família do desempregado decide quais os produtos e serviços onde pretende gastar o subsídio, e as famílias do merceeiro e do sapateiro decidem quais os produtos e serviços que pretendem oferecer.
O Estado não é uma realidade anterior às famílias. O Estado só existe porque primeiro existem famílias. São as famílias que têm os filhos e são as famílias quem paga impostos (e com esses impostos o Estado pode contratar os funcionários do Ministério da Educação que decidem depois o que é melhor para as famílias e os seus filhos: que alívio!).
As famílias conseguem organizar-se para montar um hospital? Provavelmente não (ainda que se possa discutir se não conseguiriam assegurar organicamente, através de associações, cooperativas, misericórdias e outras entidades não-estatais, muitos dos cuidados primários de saúde que o Estado assegura).
E conseguem organizar-se para montar uma escola? Claro que sim, através de cooperativas de pais, de cooperativas de professores, ou simplesmente escolhendo uma escola privada e intervindo mais ou menos, consoante os gostos, na sua gestão. A prova disso mesmo é que o debate actual não tem sido centrado na qualidade do ensino das escolas com contratos de associação mas na justiça da possibilidade de escolha. E isso é que é surpreendente. Os pais exerceram a sua liberdade de escolha, como o fazem muitos outros que não têm a sorte de ter colégios com contratos de associação perto de casa, e ainda assim fazem um esforço suplementar para poder escolher onde estudam os seus filhos. E o debate desenrola-se tendo como protagonistas os sindicatos de professores, a equipa do Ministério da Educação, os donos dos colégios…
Cumpre então perguntar: porque é que qualquer medida de apoio a iniciativas não-estatais de ensino é vista como “um ataque à escola pública”. As duas principais razões não são boas: a primeira prende-se com a defesa dos interesses de quem lá trabalha. Compreende-se o interesse de assegurar o emprego dos professores das escolas públicas que protestam contra os contratos de associação. Mas não podemos esquecer-nos que o orçamento do Ministério da Educação é suportado com os impostos de todas as famílias deste país, e que elas é que são as titulares da escolha.
A outra razão é ainda pior. Prende-se com a pretensão totalitária e paternalista do Estado: retirar na maior medida possível as crianças das garras incompetentes das famílias. Muitos dos discursos que ouvimos partem deste princípio: as crianças só terão uma educação de excelência se forem educadas segundo os mais finos padrões, desenhados ao nível ministerial. E nas escolas não-estatais o Estado não conseguiria assegurar que os conteúdos são transmitidos e assimilados. A matemática e o português? Não: todas as escolas querem ensinar matemática e português. A educação para a cidadania? A educação sexual? Claro! E nós não podemos correr o risco de deixar as famílias escolherem como educam os filhos. Afinal, se os filhos são do Estado…
Advogado, Professor na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e membro das Catholic Voices

Dia dos Irmãos

segunda-feira, 30 de maio de 2016

31 de Maio, Dia dos Irmãos

Margarida Gonçalves Neto
DN 20160531
Esta ideia simples já caminha há três anos. Convoca quem quer vir connosco celebrar a relação de irmãos. Queremos chegar às instâncias internacionais. Devagar se vai ao longe. Uma ideia que não fractura, uma ideia feliz. Não havia este dia - há muitos outros, mas faltava este. Vemos muita gente a aderir. As famílias sobretudo. Muitos outros, desde o comércio aos media. Em Lisboa, a CP fará um desconto de 25% a quem se apresentar no dia 31 de Maio com um irmão ou uma irmã. Gosto de ver os pacotes de açúcar da Delta, que, neste ano, circulam com o símbolo do Dia dos Irmãos - adoçamos o café, adoçamos com a ideia. A frase sugere um sorriso e uma conversa: "Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos."
Porque é simples? Porque nos adoça a alma? Porque a relação de irmãos é a mais próxima: acompanha-nos desde que nascemos até ao final da vida. Ficará depois da morte dos nossos pais. E a sua perda dói e quebra: perdemos parte de nós ou perdemo-nos de nós.
A infância marca-nos a vida. Com os irmãos, fizemos todas as tropelias, descobrimos segredos, inventámos brincadeiras, experimentámos a maior parte dos sentimentos que nos fazem seres humanos.
De memória, recuando nos anos, chegamos a pais e avós. Também aos nossos irmãos. Cumplicidades. Rivalidades. Coisas boas e coisas más, é assim que crescemos. Proximidades. Intimidades. Pertença a uma origem, a um lugar, uma maneira comum de ver a vida. A família é o espaço onde chegamos e chegam também os nossos irmãos. O espaço onde cada um pode ser mesmo o que é. Onde é possível crescer sem máscaras. Onde nos tornamos gente. Fazemo-nos gente com os nossos irmãos: com eles e a partir deles. Percebendo o que somos, no meio deles, na pertença a eles.
É também o que sentimos com os tios - irmãos dos nossos pais. E com os primos - quase nossos irmãos, porque filhos dos irmãos de nossos pais. A família é isto. Afectos que transbordam e nos fazem desejar, nas relações que vamos estabelecendo, um eco dessa solidariedade, dessa pertença simples, espontânea, natural.
Dir-me-ão: "Mas vivemos tempos de famílias mais pequenas, com menos filhos e menos irmãos." Somos um dos países com mais filhos únicos. A quebra da natalidade das últimas décadas, que a crise acentuou, torna mais rara esta vivência, esta experiência tão rica e tão especial. O desejo das famílias portuguesas é terem mais filhos e aproximarem-se de uma taxa de fertilidade de 2,3. Demasiadas famílias não o conseguem, ficam aquém, infelizmente para elas e para todos nós. Aos governos, compete melhorar as políticas públicas que ajudem as famílias a ter os filhos que desejam. Há muito a fazer. É possível começar a reverter a situação.
Estou convicta de que uma criança cresce ainda melhor entre irmãos. O mundo precisa desta relação, desta dinâmica. As sociedades precisam de crianças e as crianças precisam de outras crianças. A coesão social precisa da família, como a primeira escola da generosidade e da solidariedade. É lá que se aprende a partilha, a igualdade, a fraternidade.
Quem tem irmãos sabe do que falo. Quem não tem, sabe o que lhe faltou.
Amanhã, aproveite este dia para lembrar isto. Para dizer alguma coisa que ainda não tenha dito. Com palavras ou com gestos. Estes dias servem para isso. Ajudam-nos a exprimir coisas que estão cá dentro.
Eu agradeço aos meus irmãos. Somos quatro. Sou a segunda na fratria. Não sei o que seria sem eles.
Bom Dia dos Irmãos!

Em defesa da liberdade de educação

POVO 30.5.16 
A manifestação de ontem movimentou milhares de pessoas de todo o país, não apenas em defesa do ensino privado mas em defesa da escola. Ponto. Efectivamente o que está em causa não é apenas uma diferente maneira de olhar para um contrato mas sobretudo, uma diferente maneira de olhar para a função educativa. Ou é uma missão (dever e direito) dos pais ou é uma função exclusiva e universal do Estado. As inúmeras formas como é possível equilibrar estas perspectivas pareciam balançadas numa evolução que é visível nas várias versões da Constituição. Estão a ser questionadas pela actual equipa do Ministério da Educação em curiosa coincidência de pareceres com a FENPROF.
Como o assunto está e vai estar na ordem do dia e porque é da maior importância aconselho vivamente a leitura deste artigo do Prof. Mário Pintoque explica como a Constituição rege a questão da liberdade de ensino e de escola. A ler para fundar os argumentos das discussões que estão a acontecer um pouco por todo o lado. 
Procurarei organizar os posts que foram saindo no Povo num dossier próprio sobre Liberdade de Educação
Pedro Aguiar Pinto

Liberdade de educação

LIBERDADE DE EDUCAÇÃO

domingo, 29 de maio de 2016

Concessões portuárias

João Taborda da Gama
DN 2016.05.29
O timing do acordo alcançado na madrugada de sábado entre os operadores portuários e os estivadores não vem nada a calhar, já tinha a coisa meio escrita e agora é preciso dar uma volta ao texto. Bem podiam ter anunciado a coisa no domingo. O texto ia começar com Rui Reininho ("se o mercado impera e somos todos iguais // muito cuidado quando escorregas sempre cais // se o mercado emperra e vais sempre longe demais demais // atenção cuidado voltas ao cais") e acabar num sofá.
No site do IKEA está anunciado que, em virtude da greve da estiva, o envio de encomendas para os Açores e para a Madeira vai ficar mais caro. Um exemplo real das consequências da greve prolongada, dos seus efeitos sobre a economia, que é uma maneira de dizer as pessoas que querem comprar um sofá no IKEA, ou na IKEA, dependendo dos gostos, onde de certeza que os nomes dos modelos de sofás em tecido, não modulares, são escolhidos nas páginas amarelas dos portos escandinavos (Norsborg, Knislinge, Stocksund).
A luta dos estivadores é um fenómeno histórico conhecido, bem como as características da classe profissional. Em dez anos, houve cem greves em Portugal - quanto custaram à tal economia? Alguém fez esta conta? Trezentos milhões por mês? Por ano? Os números desfilam com pouco ou nenhum rigor, mas essa conta havia de ser feita.
Mas parece que já há um Acordo de Paz Social, um APS, ou à PS, esperemos que de vida mais longa do que aquele anunciado em janeiro, de poucas horas. Tudo leva a crer que sim, e a querer que sim também. Um pequeno milagre, e nisto da estiva é preciso milagres, desde a greve dos estivadores de Londres de 1889 que só terminou com a intervenção divina, pela intercessão do cardeal Manning, que foi o mediador da coisa e conseguiu um acordo. A sua intervenção, e o desfecho, abriu a porta para a consagração explícita dos direitos dos trabalhadores na encíclica Rerum Novarum (a Raquel Varela me desculpe estar para aqui a misturar a greve de 1889 com a Igreja Católica na mesma linha, mas, vá, já passa). Que concessões houve e de quem?
Para perceber a greve dos estivadores, e a sua força, convém ler o The Box: How the Shipping Container Made the World Smaller and the World Economy Bigger, de Marc Levinson. Entre várias coisas conta como resistiram por todas as formas à introdução dos contentores. O contentor foi, fiquei a perceber naquele livrinho, uma das invenções mais importantes da civilização, revolucionou o transporte, cortou custos, alterou cidades, zonas ribeirinhas, a indústria, tudo pela standardização das medidas e formato do transporte por oposição ao embrulho e embrulhinho, caixa, fardo, que reinava mundo fora. E os maiores opositores de tudo isto foram os estivadores, que temiam perder o trabalho (não serve de muito dizer emprego, porque a forma de organização do trabalho era sobretudo à jorna e através de mecanismos de subcontratação/leilão pouco dignos). Mas no pós-guerra, a grande vitória da classe é, em troco da paz relativa em torno da automação e dos contentores, a criação de carreiras altamente privilegiadas e autocontroladas no acesso, e a sua cristalização, tentando proteger, por lei, uma classe da evolução, do futuro.
São as consequências dessa luta - as benesses da classe na remuneração, na organização do trabalho, na proteção tribal ao acesso por terceiros - aliadas a uma cultura própria da estiva, que geram uma falta de simpatia generalizada pela classe. No livro de Levinson, para ilustrar a perceção pública sobre os estivadores, relata-se a anedota inglesa segundo a qual um estivador foi apanhado a roubar uma barra de ouro, e a sanção aplicada foi descontarem-lhe o valor da barra de ouro do ordenado seguinte. Tudo isso também muito presente no Há Lodo no Cais (que no Brasil se estreou como Sindicato de Ladrões...). Ao contrário do que se passa com greves de professores, funcionários públicos, ou médicos, ninguém está verdadeiramente ao lado dos estivadores (a não ser algum romantismo que grassa em institutos de investigação laboral, e a natural hipocrisia e oportunismo dos partidos à esquerda). Mas a maior prova que os estivadores pouco apoio têm nessa mesma esquerda vê-se no facto de a ministra do Mar e o primeiro-ministro se terem permitido responder-lhes com voz grossa, sem medo do Bloco nem do PC. Se o acordo será aceite, se será cumprido, vamos ver. Se a história é uma boa bola de cristal, até ao verão temos outra greve e mais à frente teremos outro acordo.
Mas mais do que as concessões da greve importa discutir as próprias concessões dos portos, e a falta de competitividade dos nossos portos em relação aos espanhóis. João Carvalho, presidente da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT) foi há umas semanas ao Parlamento chamar a atenção para o facto de os prazos mais curtos de concessão dos nossos portos nos colocar numa desvantagem em relação a Espanha e outros países. Estender o prazo das concessões é um imperativo que permitirá maiores investimentos de capital, maior competitividade, maior rapidez nas entregas, menores custos. Também para os compradores dos sofás IKEA. Nas ilhas e no continente. É assim quando o mercado impera, e somos todos iguais.