quinta-feira, 30 de junho de 2016

O bode está cansado de expiar

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 30/06/2016

A estratégia é sempre esta: não fomos nós, foram os outros – foi Bruxelas.
É impressionante a quantidade de gente que tem vindo a tratar os britânicos que optaram por sair da União Europeia como se fossem idiotas. Que os ingleses do “remain” achem os ingleses do “leave” um bando de tontos, isso é lá com eles; que um considerável número de portugueses, do alto da sua democracia com 42 anos, apareça a dar lições de sapiência política aos cidadãos de Reino Unido, já me parece bastante patético. Uma pessoa pode lamentar, como eu lamento, que o Reino Unido tenho optado por sair da União Europeia, mas não deveria passar pela cabeça de ninguém dar lições de bom-senso democrático aos habitantes das ilhas britânicas e andar para aí a proclamar que a “emoção” venceu a “razão”.
Aliás, tendo em conta que há 20 anos Portugal transformou em estrondoso bestseller o livro de António Damásio O Erro de Descartes, naquilo que pode ser considerado um dos mais bizarros fenómenos da história do mundo editorial português, poderíamos ao menos ter lido as badanas e aprendido que não existe essa coisa da razão separada da emoção. Em termos científicos, as emoções são essenciais na adopção de comportamentos racionais. Em termos retóricos, os “emotivos” são apenas aqueles com os quais nós, os “racionais”, não concordamos. Não há nada de irracional na decisão da Grã-Bretanha sair da União Europeia, no sentido em que há razões válidas que o justificam e que nada têm a ver com xenofobia. A única irracionalidade que por aqui anda, e já tresanda, é a forma como inúmeros políticos, partidos e até governos estão a querer fazer da União Europeia um daqueles Judas de trapos e sarapilheira que se surram e se queimam nas festas populares, para esturricar o pecado.
Com certeza que a União Europeia tem inúmeros problemas burocráticos, democráticos e diplomáticos, mas o maior é ter-se transformado no bode expiatório de todos os males das nações que a compõem. Excesso de imigrantes? União Europeia. Excesso de apatia para com os mortos no Mediterrâneo? União Europeia. Excesso de austeridade? União Europeia. Excesso de tolerância para com os países incumpridores? União Europeia. Excesso de liberalismo? União Europeia. Excesso de proteccionismo? União Europeia. A União Europeia é acusada de tudo e do seu oposto. Ela foi transformada no alvo de todas as frustrações, muitas delas completamente contraditórias, porque ela própria, como diriam os ingleses, é um “sitting duck” – está lá, é grande, não se mexe e ninguém a defende. É só carregar no gatilho.
David Cameron carregou, disparou um referendo e o primeiro pato a cair foi o Reino Unido. É possível que outros se sigam enquanto os políticos não pararem de acusar a União Europeia de todos os problemas que os rodeiam e que eles não conseguem resolver. Ontem Durão Barroso disse uma coisa acertada: se os accionistas de uma sociedade passam o tempo inteiro a dizer que ela não presta, as acções desvalorizam. Com excepção da Alemanha, é isso que todos os países têm feito. Veja-se o caso português e o discurso da autocomplacência: a crise de 2011 e a austeridade foram culpa da troika que nos veio espremer; nós, pobres inocentes, fomos empurrados para um endividamento louco porque os alemães queriam que comprássemos os seus carros. A estratégia é sempre esta: não fomos nós, foram os outros – foi Bruxelas. É uma estratégia tentadora, mas grave, porque o bode está esgotado de tanto expiar. Ou lhe damos uma boa folga ou fenece. E nós com ele.

30 de Junho - Santos protomártires da igreja de Roma

POVO 30.6.16 
Santos Protomártires da Igreja de Roma, 64-67
Hoje a Igreja celebra a memória dos cristãos que sofreram o martírio durante a perseguição de Nero, no ano 64. A culpa do incêndio de Roma recaiu sobre os cristãos, os quais foram cruelmente martirizados. Do lado Sul da Basílica Vaticana há um recinto pequeno, chamado ainda hoje Praça dos Protomártires (primeiros mártires) Romanos. As iluminações que lá se vêem na noite de 26 de Junho, evocam as fogueiras que, pelos anos 64 e 65 extinguiram, ou sublimaram, humildes e heróicas vidas humanas. Roma ardera seis dias e sete noites. Prendem-se primeiro os que são suspeitos de seguir o cristianismo, e depois, conforme as denúncias que se vão fazendo, prendem-se outros em massa, condenados menos pelo crime de incêndio, do que pelo ódio que outros lhes têm. Aos tormentos juntam-se as mofas, homens envolvidos em peles de animais morrem despedaçados pelos cães, ou são presos a cruzes, ou destinados a ser abrasados e acendidos, à maneira de luz nocturna ao anoitecer ... Nero oferece os seus jardins para este espectáculo; vestido de cocheiro, corre misturado com a multidão, ou em cima dum carro. A perseguição movida por Nero prolongou-se até ao ano 67. E entre os mártires mais ilustres estavam São Pedro e São Paulo. O primeiro foi crucificado no circo de Nero, actual Basílica de São Pedro. São Paulo foi decapitado junto da estrada que leva a Óstia.


As tochas de Nero 
1876
Henryk Siemiradzki (Polish 1843-1902) 
óleo sobre tela 
94 x 174,5 cm
Colecção privada (Dinamarca)

Não há um muro

João César das Neves
DN 20160630

O dramático resultado do referendo britânico da semana passada deu, como se esperava, origem a enorme chorrilho de disparates. 
Para lá dos profissionais da asneira, extremistas de todas as cores a quem tempos turbulentos dão audiência, muita gente sensata decidiu entrar na enxurrada, contribuindo com cenários radicais e abstrusos.
Há razões válidas para o vendaval, pois todos estamos justamente confusos e assustados. Não apenas a possibilidade de saída do Reino Unido da União representa um choque terrível num momento difícil da Europa como também a diferença mínima da votação manifesta um país profundamente dividido numa questão essencial. Isso antecipa enormes dificuldades, bem como novos tremores, como o já anunciado referendo escocês sobre a permanência na Grã-Bretanha ou dificuldades acrescidas na dividida ilha irlandesa. Pior, o caso mostra um patente defeito no sistema democrático que surpreendentemente quase passou despercebido.
Qualquer que seja a opinião no assunto, parece evidente que uma decisão deste alcance não pode ser tomada assim. Não é razoável que uma consulta ocasional, para mais com estimativas tão próximas, voláteis e mergulhadas em embustes e falácias, decida questões fundamentais e estruturantes como estas. Todos devem ter isto em conta, pois assim até os vencedores de hoje podem ver os seus ganhos invertidos com a mesma facilidade. Isto não passa de uma roleta eleitoral, alheia a um regime saudável e equilibrado.
A coisa fica pior por ter antecedentes. Foram situações destas que geraram o repúdio generalizado pelas democracias na primeira metade do século passado. Nunca se pode esquecer que o actual consenso a favor do regime livre se deve apenas ao flagrante desastre dos sistemas totalitários em meados de Novecentos. Mas estes gozavam inicialmente de vasto apoio, precisamente devido ao desastre das democracias nas décadas anteriores. Continuando por este caminho, repetiremos esses erros.
Quem ignora que os extremistas sabem usar a liberdade e as instituições para as destruir? E quem duvida de que isso pode acontecer hoje no Ocidente como há 90 anos? Este referendo inglês, tal como o escocês em 2014 e os outros que muitos sugeriram nesta semana, caem evidentemente neste caso. Claro que a vontade do povo deve ser sempre respeitada, mas qual é a vontade do povo? Se o voto tivesse acontecido umas semanas antes ou depois, toda a história desse povo seria fundamentalmente diferente. E se a consulta for repetida daqui a meses, o efeito pode ser o oposto. Isso mostra como o método é errado nestas decisões. Nas democracias, sérias mudanças constitucionais só são admissíveis com maiorias alargadas. Não é a permanência na União mais decisiva e influente do que muitos parágrafos constitucionais? Como pode estar sujeita à diferença de milhares de votos?
Para lá deste grave erro institucional, pior por se situar na sociedade britânica, pilar da liberdade contemporânea, outro facto determinante deste processo foi a displicência com que tantos falaram e falam da situação, fazendo o jogo dos radicais. Parece que a saída da Grã-Bretanha e o alegado fim da União Europeia, invocado tão profusa e imprudentemente nestes dias, são assuntos abstractos e alheios, interessando apenas a estratégias políticas e a xadrez internacional na congénita tolice governamental.
Fingem esquecer que o povo britânico está condenado a forte recessão, que se pode transformar numa perda mais longa e profunda, dependendo de negociações ainda imponderáveis. Muitos dos que celebraram na sexta-feira vão em breve amargar esses festejos. Se isso é já um facto, os cenários afirmados com tanta ligeireza serão muito piores. A desunião europeia, invocada de forma tão frequente quanto fútil, ou mesmo só uma crise, traduzir-se-á em desemprego, pobreza, injustiça, tumultos e confrontos por toda a Europa.
Perante isto, a posição razoável é a tomada pelos políticos, por uma vez mais sensatos do que os comentadores: o resultado de quinta-feira é profundamente perturbador e lamentável, exigindo esforço geral para minorar efeitos e evitar repercussões e contágios. É difícil de aceitar que tantos analistas honestos e responsáveis se deixassem contagiar pelo nervosismo extremista, elaborando sobre a questão como meramente potencial e abstrata. Mesmo que se sintam pessoalmente imunes, pensem nos familiares. Senão por sensatez, ao menos por pudor, era bom contenção e equilíbrio. Não estão sentados num muro a contemplar os tontos em baixo. Estamos todos solidários pois somos europeus.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

29 de Junho - S. Pedro e S. Paulo

POVO 29.6.16 
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Mt 16,15

Líderes queridos

Graça Canto Moniz
ionline 20160628

Portugal não precisa de políticos rendidos a esta lamentável cultura de afetos, mas de líderes que sejam capazes de, sóbria e esclarecidamente, tomarem as decisões difíceis que a situação do país e do mundo exige

A democracia fundamenta-se na escolha dos cidadãos; o Estado de direito, na separação de poderes. O que dá consistência e progresso a uma comunidade é a força das suas instituições - económicas, políticas e judiciais -, privadas e públicas, e a autonomia dos seus cidadãos para fazerem escolhas não condicionadas e livres. A ambição máxima de uma sociedade estruturada é que a gestão da coisa pública se institucionalize nestes dois pilares e não domine o espaço comunicacional até à náusea.
Esse espaço, em Portugal, está longe de ser o expoente de uma sociedade saudável e madura, vivendo antes dominado pelo culto de personalidades presentes ininterruptamente, quais santos elevados num altar. Os nossos políticos, em vez de se dedicarem ao exercício dos seus cargos, procuram diariamente o carinho do povo, numa doentia - e cansativa - magistratura da ubiquidade. O populismo é isso: a tentação dos políticos de deturparem o equilíbrio institucional procurando, numa cultura de afetos, o apoio permanente do povo para legitimar toda e qualquer ação que os ajude a perpetuarem-se no poder. Como se fossem concorrentes de um reality show, na mesma semana, Presidente da República (PR) e primeiro-ministro (PM) dividiram-se entre jogos de futebol e marteladas de S. João. Não que a comparência nestes eventos não faça parte da “festa da democracia”: já as escolhas que lhes estão subjacentes são altamente discutíveis. O PM, por estar supostamente no Porto, faltou a um importante debate parlamentar; já o PR deu sinal de que não há espaço que não ocupe e faça seu, ao comparecer na flash interview, local reservado aos intervenientes num jogo de futebol, mostrando que todo o espaço de protagonismo lhe pertence, desde que o deseje. Pelo andar da carruagem, não se espantem se virmos o comandante supremo das Forças Armadas no banco da seleção, a instruir o treinador na tática vitoriosa. Com tanta omnipresença e apelo ao carinho, é seguro que ao prof. Marcelo a história vai reservar o cognome de Querido Líder.
Portugal não precisa de políticos rendidos a esta lamentável cultura de afetos, mas de líderes que sejam capazes de, sóbria e esclarecidamente, tomarem as decisões difíceis que a situação do país e do mundo exige. As gerações mais novas, como a minha, dispensam o clima festivo e a presença permanente dos políticos no espaço público, e o estilo bolivariano que os acompanha. Não precisamos dos afetos dos políticos nem da sua irritante presença diária em todos os espaços que frequentamos - incluindo os mediáticos e os lugares vagos do nosso sofá. Se fosse para isto, tínhamos votado na Teresa Guilherme. Líderes procuram-se: é que amigos para beijar e opinadores de bola, é coisa que não nos falta.

O último reduto dos derrotados

Luís Aguiar-Conraria
Observador, 20160629

Muitos dizem que David Cameron errou ao convocar o referendo porque o resultado foi o que foi. É exactamente o contrário. Se a maioria do eleitorado quer sair da UE, então é bom que o Reino Unido saia

Ficámos chocados com a decisão dos ingleses de sair da União Europeia. Pelo menos, eu fiquei. A Europa sem o Reino Unido não é a Europa. Basta lembrar que, mesmo sem Inglaterra, a língua franca na EU continuará a ser o inglês. E quem já tentou aprender alemão deseja vivamente que assim continue a ser.
Independentemente da tristeza de ver os ingleses sair, não deixo de invejar a oportunidade que tiveram de referendar a sua participação. A primeira foi em 1975. Também nessa altura se vivia em crise económica, causada pelo choque petrolífero de 1973, que aconteceu pouco depois da adesão do Reino Unido à CEE (Comunidade Económica Europeia). Também nessa altura deve ter sido fácil atribuir à Europa as culpas de todos os males da crise. Mas o resultado foi diametralmente diferente. Mais de dois terços dos votantes quiseram permanecer na então CEE (Comunidade Económica Europeia).
Já nós, entrámos na CEE sem qualquer referendo. Há uns anos, quando se assinou a Constituição Europeia, também se prometeu um referendo em Portugal, que não se chegou a realizar. Um referendo com resultado negativo em França tinha arrumado com essa Constituição. E quando a Constituição Europeia foi substituída pelo Tratado de Lisboa, também a promessa de referendo foi substituída por um compromisso político para não haver referendo.
A possibilidade de haver referendo a um tratado europeu já se tinha colocado antes, quando se assinou o Tratado de Maastricht, em 1992. Mas não foi para a frente. Lembro-me de, pelo menos, dois argumentos contra a realização do referendo ao Tratado. Um foi do primeiro-ministro de então. Achava que ficava muito caro fazer um referendo. Outro foi do presidente na altura: tinha medo que os portugueses votassem contra e que arranjassem um lindo sarilho.
Muita gente reage ao referendo britânico dando um argumento similar ao de Mário Soares: David Cameron cometeu um erro enorme ao convocar o referendo porque o resultado foi o que foi. É exactamente o contrário. Se a maioria do eleitorado quer sair da UE, então é bom que o Reino Unido saia. Podemos ficar chocados com o facto de a maioria do eleitorado ter escolhido como escolheu. Podemos até achar que são estúpidos, xenófobos, medricas e que decidiram mal. O que faz menos sentido e é pouco democrático é achar que se deve ter uma política contra a maioria da população.
De todos os argumentos, o que mais me irrita é a acusação de que é fácil fazer populismo e mentir aos eleitores nas campanhas que precedem o referendo. Até parece que a Marine Le Pen se tornou a mais popular política francesa por referendo. Ou que Donald Trump foi escolhido por referendo para ser candidato pelo Partido Republicano nos EUA. E até parece que em eleições gerais os candidatos nunca mentem, nunca cedem aos populismos e nunca, mas nunca, prometem aquilo que não podem cumprir. A verdade é bem mais prosaica. Os principais perigos que há com um referendo também existem com eleições gerais.
Os referendos têm, no entanto, uma grande vantagem. Regra geral apenas se vota num assunto específico, em vez de se votar num partido ou candidato com um programa eleitoral com uma gama de assuntos. Por isso é muito mais fácil ao eleitor informar-se sobre o que está em causa. É também muito mais fácil inferir qual a verdadeira opinião do eleitorado. Por exemplo, das últimas eleições no Reino Unido, que elegeram Cameron para primeiro-ministro, seria praticamente impossível inferir as preferências do eleitorado relativamente à UE.
Na verdade, há um imenso trabalho académico que demonstra como o uso do referendo ou de outros instrumentos de democracia directa permitem melhorar a democracia e estimular a vida cívica (o exemplo da Suíça é dos mais citados mas está longe de ser o único). Infelizmente, em Portugal o referendo é usado não como instrumento democrático por excelência, mas sim como pura arma de arremesso político. Uma espécie de último reduto dos derrotados (ou como álibi para alijar responsabilidades). Foi assim no referendo sobre o aborto em 1998 (fez ontem 18 anos), que resultou de um acordo entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Guterres que não tiveram forças para impedir que a Assembleia da República despenalizasse a interrupção voluntário de gravidez. Foi assim com o referendo sobre a Regionalização, que foi o álibi de Guterres para não regionalizar o país. Foi assim quando o deputado do PSD Hugo Soares propôs que se realizasse um referendo à co-adopção por casais do mesmo sexo, pouco depois de a co-adopção ser aprovada na Assembleia, conseguindo com essa táctica adiar por uns meses o inevitável.
E volta a ser assim com o referendo absurdo que Catarina Martins propôs recentemente. Catarina Martins não propõe que se referende o Tratado Orçamental (embora, em tempo devido, e muito bem, o tivesse feito). Catarina Martins propõe um referendo sobre sair da União Europeia caso Portugal sofra sanções por ter violado as regras do défice (que violamos, sucessiva e ininterruptamente, desde 2001). É como se fôssemos perguntar aos criminosos condenados em tribunal se querem rever o Código Penal. Mais absurdo ainda, nos termos em que Catarina Martins põe o assunto, quem votasse a favor da continuação de Portugal na UE estaria a votar a favor das sanções, ou seja, estaríamos a dar carta-branca a Bruxelas para continuar (e até agravar) as sanções.
Dada a atitude dos políticos em Portugal, não admira que a figura do referendo seja tão mal vista. Mas o problema não é o referendo, é mesmo a classe política

terça-feira, 28 de junho de 2016

Acham normal não pagar à lavandaria?

Graça Franco
RR online 28 jun, 2016

70% das mulheres considera justa a repartição do trabalho doméstico com os homens. Azar meu que faço parte das 30% que vêem aqui uma enorme injustiça.

As mulheres portuguesas com emprego fora chegam às férias com mais um mês de trabalho realizado do que os respectivos maridos (mais 24 dias 8 horas diárias para ser exactos). Não é novidade, mas convém fazer do “ óbvio” notícia. Só para a tornar tema de conversa de jantar no maior número de casas. Mero “fait divers”? Errado. Aqui radica boa parte da explicação para a baixa fecundidade nacional, como prova um precioso estudo da FFMS sobre a baixa natalidade em Portugal.
O novo inquérito aos “Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal”, realizado pelo Centro de Intervenção Social, permite fazer as contas: no trabalho pago eles gastam em média mais 27 minutos (daí um salário ainda mais alto). Já no trabalho não pago elas dedicam mais uma hora e 12 minutos dedicando um total de 3 horas e 6 minutos às “tarefas domésticas” (cozinha/limpeza/tratamento de roupas e afins) .
Numa semana, a soma das duas parcelas equivale a efectuar uma jornada adicional de mais seis horas e um quarto. Ao fim de um ano isso traduz-se em mais mês e meio de trabalho (ao ritmo de oito horas/dia). Resumindo: as “executivas” portuguesas, 40 anos passados, ainda não gozam da semana-inglesa.
Mesmo que morem perto do trabalho quem quiser folgar os normais dois dias terá de roubar pelo menos um deles ao sono. As que além disso estão sujeitas a perder infindáveis horas nos transportes, não têm alternativa ao velho sistema chinês: nem sono nem folga.
Se considerarmos que cuidar dos filhos não é sempre ou não é só um prazer podemos contar também com mais quase uma hora (52 minutos) gastos com as criancinhas em comidas, banhos, fraldas e diversos do que os dispensados pelos respectivos companheiros. Por ano isso significa 39 jornadas adicionais de “babysitting”.
Perguntarão os homens: mas tratar dos próprios filhos “é trabalho?”. Mesmo que se faça a concessão de achar que não, e eu concedo de bom grado que não seja, vale a pena discutir a repartição das tarefas em matéria de parentalidade . Eles gastam em média duas horas e 14 minutos basicamente a brincar e ajudar nos trabalhos. Elas a dar banhos, confeccionar e dar refeições, etc… Quem não trocará as papas pelas brincadeiras? Já a tortura dos trabalhos é certo que pode continuar com eles.
Olhando este dia a dia, 70% das inquiridas considera justa a repartição. Azar meu que faço parte das 30% que vêem aqui uma enorme injustiça. Não fora lá em casa uma repartição bem mais equitativa e não vejo possível ter tido cinco filhos.
Tudo se faz com gosto? Claro. E nem todas gostariam, ainda mais, de poder descansar um bocadinho? Também.
O estudo da FFMS é claríssimo: nos casais jovens em idade fértil, uma maior repartição de tarefas – ou seja, “pais mais presentes” – mostra-se um dos factores determinantes para que as mulheres encarem a passagem de um para o segundo filho, o suficiente para garantir a renovação geracional. Pelo contrário: pais ausentes impedem que o ideal “dos dois filhos” venha a concretizar-se.
Faz sentido. As mulheres que trabalham fora e sofrem sozinhas a sobrecarga de trabalho resultante da chegada do primeiro filho demoram mais tempo a organizar-se e a dispor-se a receber mais um, mesmo que o desejem.
Tem aliás que a explicação de tanta felicidade possa resultar de um acentuado desvio estatístico: duas horas em média de trabalho a mais com as crianças pode resultar de uma grande diversidade de situações. Basta uma hora a mais para a vizinha de cima e três a mais para a vizinha do lado. Nada para a sortuda que tem um marido que trabalha em casa, adora cozinha e trata das crianças, e quatro horas de lufa-lufa diário para quem teve o azar de casar com o machista preguiçoso.
A discussão do tema aqui na redacção foi sintomática: fazer as refeições próprias e dar banho aos filhos é trabalho? Escandalizaram-se os homens. A cozinheira e a “babysitter” ganham por ler o jornal? Contrapuseram as mulheres. O trabalho em benefício próprio é mero lazer? Ou tudo o que se faz com gozo deixa de ser trabalho? Será que os jornalistas ou jardineiros, médicos ou cozinheiros felizes dispensam as férias? Bela teoria.
Eis o ponto. Paga-se à lavandaria, à “babysitter”, ao operário que limpa os vidros do prédio, à cozinheira, costureira, à porteira que cuida das limpezas, e à empregada doméstica interna se fizer um pouco de tudo isso. As empresas que asseguram as idas e vindas das escolas também se fazem pagar. Razão tinha o saudoso professor Alfredo de Sousa (reconhecendo o valor económico do trabalho doméstico) ao lembrar que “sempre que alguém casa com a governanta se reduz a riqueza nacional na exacta dimensão do respectivo salário”. O mesmo acontece se a relação envolve o jardineiro ou o “personal trainer” .
Vale a pena também aqui seguir o Papa Francisco na sua Exortação sobre a família, cuja leitura dos capítulos 4º e 5º se recomenda vivamente. Aí se diz que a causa dos problemas da família actual não está no facto de as mulheres trabalharem “fora” de casa nem podem resolver-se voltando às formulas passadas . A solução passa por maior partilha de tarefas entre pais e filhos e entre marido e mulher, bem como numa legislação laboral que permita maior conciliação e maior tempo de lazer.
O inquérito revelado na segunda-feira mostra, por exemplo, que embora mais de metade dos inquiridos considere relativamente “fácil” conseguir no emprego uma ou duas horas para imprevistos domésticos esta percentagem é muito menor entre trabalhadoras em idade fértil.
Além disso um terço dos trabalhadores revela que várias vezes por mês é chamado a reduzir o tempo de lazer para atender as solicitações da empresa onde trabalha. E entre as mulheres mais de dois terços reconhece que quando deixa o emprego sente demasiado cansada para atender à vida de família ou simplesmente usufruir da própria vida pessoal. Dá que pensar.

Espanha não virou à esquerda

Miguel Angel Belloso
DN20160628

Quero crer que os espanhóis que votaram no domingo passado, e que deram à direita a oportunidade de continuar a governar tiveram muito em conta o inevitável empobrecimento a que conduzem as teses populistas que foram determinantes no brexit ou as que na altura levaram Tsipras ao governo da Grécia. Não o esperava, porque a democracia é esquiva e nem sempre garante que os resultados produzam o bem-estar geral e o bem comum, como aconteceu nos casos da Grécia e do Reino Unido. Mas, desta vez, a Espanha teve sorte. Na lotaria que é sempre a democracia, os meus compatriotas demonstraram mais senso comum do que é costume. O que tínhamos de decidir no domingo passado era se queremos manter o país no rumo que o conduza a continuar a ganhar competitividade, que é a base do progresso, ou se, pelo contrário, queremos aplicar os recursos públicos na redistribuição e na despesa social indiscriminada, incentivar a falta de produtividade, a inação dos nossos jovens, uma taxa de desemprego inquietantemente elevada e o abuso de um Estado social que já deu provas evidentes de que é insustentável. Optávamos também entre dois modelos, o dos que estão dispostos a baixar os impostos a todos e o dos que querem aumentar a carga fiscal que aflige a classe média, que é a que suporta a nação, e penalizar todos aqueles que triunfam e estão a ter sucesso na vida. Entre os que querem mais empresários e menos pobres do que nunca, e que creem na capacidade de gerar riqueza que todos temos inscrita nos nossos genes, e os que pensam que a maioria é composta por uns imbecis que não têm capacidade para sobreviver sem o apoio permanente do Estado, sem o subsídio continuado como modelo de vida. E decidiram que a direita era a melhor opção para consolidar a senda de crescimento e assegurar o futuro do país.
Eu não digo, jamais tal me ocorreria, que Rajoy seja o paladino do liberalismo nem da economia de mercado, que seja a bandeira do Estado pequeno e eficaz de que eu gostaria, nem o defensor da autonomia individual e da responsabilidade pessoal com o futuro da própria vida a que obriga a condição humana, mas não tenho dúvidas de que entre todos os que se apresentavam a estas eleições é ele quem mais se aproxima destes postulados, dos quais inclusive o Ciudadanos está muito longe, mas mais ainda o Partido Socialista de Pedro Sánchez e, sobretudo, o Podemos.
Os espanhóis decidiram também virar as costas a Pedro Sánchez, que perdeu cinco assentos parlamentares em relação aos resultados das passadas eleições de 20 de dezembro. O inenarrável Sánchez e a sua mulher, que tem mais vontade ainda do que o seu marido de que este seja primeiro-ministro e se agarra a ele como uma lapa onde quer que vá, estão agora desolados. Não pôde ser desta vez e o justo é que não seja nunca. Porque o que é realmente inquietante é que o secretário-geral do PSOE tenha acolhido os péssimos resultados com um sorriso de orelha a orelha. Que não se sinta afetado pela devastação a que conduziu o Partido Socialista, com dois recordes consecutivos dos piores resultados da história, o das eleições de 20 de dezembro passado e o das de 26 de junho. Que não se tenha demitido domingo à noite. Pelo contrário, apresentou-se perante as câmaras para celebrar a proeza de ter evitado a "ultrapassagem" da aliança entre o Podemos e os comunistas, de ter mantido o partido ainda como a referência da esquerda. De ter ficado em segundo. Será esta uma atitude plausível?
Como lembrou mais de uma vez a presidente da Junta da Andaluzia e principal adversária de Sánchez, a socialista Susana Diaz - que também não deve lançar foguetes, pois foi ultrapassada pelo PP naquele terreno tradicional de votos do partido -, o PSOE foi sempre um partido ganhador, não compete com o Podemos, mas sim com o PP. O seu adversário é Rajoy, não Pablo Iglesias. Pedro Sánchez deu-se por satisfeito por ter-se visto livre da aliança de Iglesias com os comunistas e pensa e defende com os seus guarda-costas - que triste figura, todos eles! - que tudo está bem. É uma atitude, mais que cobarde, infame. Ou o PSOE muda de líder, de tom e de programa ou vai a caminho, mais cedo ou mais tarde, de se tornar um partido marginal.
Na realidade, os resultados das eleições foram perfeitos para qualquer pessoa que tenha senso comum e deseje que o país progrida. O PP ganhou claramente, o PSOE perdeu cinco assentos parlamentares e o Podemos perdeu um milhão de votos na experiência conjunta com os comunistas da Izquierda Unida. Não há viragem à esquerda. Não vai haver uma mudança... para pior. Não há possibilidade alguma de um governo de esquerda, que teria sido uma maldição para o país, e tudo aponta para que Rajoy vá poder governar, com enormes dificuldades, mas poderá governar, sobretudo se o ser menor que é Albert Rivera - o presidente do Ciudadanos - deixar de lado a sua presunção e desistir de opor vetos para os quais não está legitimado depois da admoestação que levou nas urnas. Será muito complicado que o PP consiga levar adiante leis importantes, mas será impossível aprovar alguma que estrague a atual situação, na qual é muito provável que a economia espanhola continue a crescer com intensidade, mais do que o resto da Europa, com o apoio dos mercados e dos investidores, que viram dissipar-se definitivamente os seus piores augúrios. Embora ninguém o dissesse uma semana atrás, talvez os espanhóis tenham mais senso comum do que os britânicos.

Comemoração do 65º aniversário da ordenação sacerdotal do Papa emérito Bento XVI



O Papa Francisco presidiu hoje no Vaticano a uma cerimónia de homenagem a Bento XVI, pelo seu 65.º aniversário de sacerdócio, afirmando que o agora pontífice emérito “continua a servir a Igreja”.
“Vivendo e testemunhando hoje de modo tão intenso e luminoso esta única coisa verdadeiramente decisiva - ter o olhar e o coração dirigido para Deus -, o senhor, Santidade, continuar a servir a Igreja, não deixa de contribuir verdadeiramente com vigor e sabedoria para o seu crescimento”, disse o pontífice argentino perante responsáveis da Cúria Romana, na Sala Clementina, a mesma onde o agora Papa emérito se despediu dos cardeais a 28 de fevereiro de 2013.
A iniciativa marcou o regresso, mais de três anos depois, de Bento XVI ao Palácio Apostólico do Vaticano.
Francisco apresentou uma reflexão centrada na presença do seu predecessor no Mosteiro ‘Mater Ecclesiae’, do Vaticano, desde onde emana “uma tranquilidade, uma paz, uma força, uma confiança, uma maturidade, uma fé, uma dedicação e uma fidelidade” que fazem “muito bem” ao Papa e a “toda a Igreja”.
O pontífice argentino quis ainda elogiar o “são e alegre sentido de humor” de Bento XVI.
Francisco quis abraçar o seu predecessor assim que entrou na sala e voltou a abraçar o Papa emérito no final da intervenção de homenagem.
O discurso evocou a ordenação sacerdotal de Joseph Ratzinger na Catedral de Frisinga, na Alemanha, a 29 de junho de 1951, e uma “vida inteira dedicada ao serviço sacerdotal e à verdadeira teologia”, a “busca do amado”.
“É isto que o senhor sempre testemunhou e testemunha ainda hoje: que a coisa decisiva nos nossos dias, de sol ou de chuva, aquela com a qual vem também tudo o resto, é que o Senhor esteja verdadeiramente presente”, assinalou o Papa.
Francisco observou que este “amar” e “acreditar” permite que se olhe para o futuro “não com medo ou nostalgia, mas com alegria”, mesmo nos anos mais avançados da vida.
O Papa sustentou que o Mosteiro ‘Mater Ecclesiae’ é “completamente diferente” dos locais esquecidos em que a “cultura do descarte” de hoje procura relegar as pessoas quando estas, por causa da idade, “perdem as suas forças”.
“É precisamente o contrário e permita-me que o seu sucessor, que escolhe chamar-se Francisco, diga isto com força”, declarou.
A cerimónia continuou com uma intervenção do cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e curador da obra completa de Joseph Ratzinger, bem como do cardeal Angelo Sodano, decano do colégio cardinalício.
O Papa emérito recebeu uma edição, em várias línguas, do livro que reúne várias reflexões suas sobre o sacerdócio, com prefácio de Francisco, tendo entregado uma das cópias ao Papa.
Bento XVI anunciou a sua renúncia ao pontificado a 11 de fevereiro de 2013 e está a manter desde então uma vida de recolhimento, no Vaticano, surgindo esporadicamente em público para acompanhar cerimónias presididas por Francisco ou receber homenagens.

Europa unida

POVO 28.6.16 
Esperamos chegar outra vez a uma Europa unida mas purgada da escravatura de tempos antigos - uma Europa onde cada homem tenha orgulho em dizer "Eu sou Europeu".
Esperamos ver uma Europa onde os homens de todas as nações considerem tanto ser europeus quanto pertencendo à sua terra natal sem perderem nenhuma parte do amor e lealdade para com a sua pátria.
Esperamos que, onde quer que vão neste vasto domínio ao qual não pomos limites no continente europeu, eles sintam verdadeiramente "Aqui estou em casa, sou também um cidadão deste país"
Winston Churchill
Amsterdam, 9 Maio 1948

‘Bora lá, Portugal: vamos sair da UE!

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 28/06/2016

Adoro quando Catarina faz voz grossa e imagino o pânico de Merkel – um Tuguexit!

Uma das consequências maçadoras do Bloco de Esquerda fazer parte da solução de governo inventada por António Costa é sermos obrigados a levar a sério aquilo que Catarina Martins propõe. Antigamente, os congressos do Bloco eram uma breve notícia que líamos ensonados nos diários de segunda-feira. Agora dão origem a várias páginas nos jornais e directos nas televisões. Antigamente, se o Bloco ameaçava com um referendo sobre a permanência de Portugal na União Europeia, o comentário mais longo sobre o tema seria “pfffff”. Agora estamos tristemente condenados a articular palavras.
Articulemos, pois, até porque Catarina Martins teve este fim-de-semana o seu momento Pedro Nuno “As Pernas Até Lhes Tremem” Santos. Recordam-se com certeza que em 2011 o então escanhoado vice-presidente da bancada parlamentar do PS disse, a propósito do pagamento da dívida, que estava a “marimbar-se para os nossos credores”. “Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses”, afirmou. “Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos. E se nós lhes dissermos que não pagamos a dívida, as pernas dos banqueiros alemães até tremem.”
Certamente inspirada pela presença de Pedro Nuno Santos no congresso, Catarina Martins teve o seu momento “As Pernas Até Lhes Tremem”, não com a dívida, mas com um referendo à presença de Portugal na União Europeia. “Se a Comissão Europeia aplicar uma sanção inédita e inaceitável e provocatória pelo mau desempenho das contas de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, enquanto aplicaram as medidas da troika, declara guerra a Portugal. Neste caso, Portugal só pode responder recusando as sanções e anunciando que está disposto a pôr na ordem do dia um referendo para tomar posição contra a chantagem.” Adoro quando Catarina faz voz grossa e imagino o pânico de Merkel – um Tuguexit! Conhecem a anedota do elefante e da formiga que foram ao cinema? A formiga ficou sentada atrás do elefante. Como não conseguia ver nada, levantou-se, foi sentar-se na cadeira à frente do elefante e disse-lhe: “É tramado, não é?”
É, Catarina, é tramadíssimo. Proponho, aliás, um duplo referendo: perguntamos aos portugueses se querem a União Europeia e perguntamos aos cidadãos da União Europeia se querem Portugal. Porque quando Catarina Martins acusa os políticos europeus de “mostrarem todos os dias que estão dispostos a destroçar a Europa para aguentar uma política que assusta os povos”, ela esquece-se de responder a duas questões fundamentais: que “política” e que “povos”. Um dos maiores atentados à lógica nas discussões acerca do futuro da Europa está em considerar que existe uma única política responsável por todos os males e um povo europeu imbuído de um único desejo. Nada disso existe. Os ingleses não votaram pela saída do euro porque os portugueses sofreram muita austeridade. Votaram “leave” por quererem mais soberania, mais controlo de fronteiras, mais foco nos seus problemas e menos países – como Portugal, Espanha ou Grécia – a chatear. Convém recordar que foram ingleses que inventaram a sigla PIIGS. O problema da União Europeia é precisamente esse: a incapacidade em conciliar interesses contraditórios. E dá-se o notável fenómeno de os pobres países torturados do Sul quererem com toda a força permanecer na União – até os gregos! E os países ricos do Norte, esses torturadores, começarem a querer dar à sola. Explica lá isto, Catarina.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Os extremismos não são uma fatalidade

José Manuel Fernandes
Observador 27/6/2016

Em Espanha não ficou tudo igual porque o vento mudou de direcção. A derrota dos radicais do Podemos e a vitória do PP mostram que a Europa não está condenada a sucumbir aos cantos de sereia populistas

Domingo, hora do almoço, pavilhão do Casal Vistoso em Lisboa. No palco, quase eufórica, Catarina Martins proclamava: “Estamos só a começar”. Na plateia batiam-se palmas e agitavam-se bandeira – na mesma plateia que minutos antes aplaudira com entusiasmo o delegado do Podemos e apupara o representante do Syriza. No horizonte anunciava-se uma “cimeira das alternativas” – em Portugal, em Espanha ou na Catalunha.
Domingo, hora de jantar, Madrid. A euforia de Catarina é arrefecida por um imenso balde de água fria. O seu Podemos, agora em coligação com os comunistas espanhóis, perde votos e deputados. O sonho da esquerda radical de ultrapassar a esquerda moderada do PSOE não se materializa, mesmo com os socialistas espanhóis a perderem também eles votos e deputados. O “estamos só a começar” pode tornar-se afinal um “já estamos a acabar” muito mais depressa do que se imagina.
Na realidade as eleições espanholas não deixaram tudo na mesma. É certo que delas não resultou qualquer maioria de governo, mas ocorreu nelas uma inversão de rumo: a ascensão dos populismos radicais não é uma inevitabilidade; afinal os velhos partidos democráticos e moderados são capazes de resistir à investida dos extremistas e aos cantos de sereia dos especialistas em protagonismo mediático (com muita cumplicidade dos jornalistas à mistura).
Há seis meses nenhum partido, nem sequer o vencedor das eleições, podia reivindicar o direito de governar, tão longe estavam todos de poder formar qualquer coligação. Agora o PP de Mariano Rajoy pode fazê-lo e já o fez, pois subiu de votos (mais 573 mil), subiu na percentagem dos votos expressos (mais 4,3 pontos percentuais) e subiu no número de deputados (mais 14). Cabe-lhe dialogar, mas terá de esperar que os outros partidos mostrem sensatez e humildade, pois todos perderam nas eleições de domingo.
Esta vitória do PP, com uma dimensão que nenhuma sondagem previu, parece ser também um sinal de que os eleitores começam a perceber que o seu voto não é apenas uma arma de protesto, antes pode ter pesadas consequências. Pode ser que o referendo do Brexit tenha contribuído para essa tomada de consciência. Pode ser que as loucuras a que se têm vindo a entregar as gestões municipais dos aliados do Podemos em Madrid e Barcelona tenham ajudado os eleitores a perceber o custo da irresponsabilidade e a diferença entre os discursos utópicos e as exigências da governação, mesmo quando esta é só a nível local (os resultado em Madrid do Podemos foram especialmente maus). Pode ser que tenham simplesmente percebido que não podiam deixar o seu futuro nas mãos de um grupo de lunáticos arrogantes, como seria o caso se o Podemos ficasse com a chave do poder nas mãos.
A derrota do grupo de Pablo Iglesias tem especial significado pois não só permite ao PSOE conservar o seu lugar de segundo partido espanhol (mesmo tendo tido o pior resultado de sempre, mesmo tendo perdido para o PP na Andaluzia), como mostra os limites de um discurso de protesto sem adesão à realidade. Se algo resultou claro da campanha eleitoral espanhola é que o Podemos não tinha uma proposta realista para governar Espanha. Os seus números não batiam certo e não deram nenhuma indicação de como poderiam pagar as suas promessas. Nem sequer tinham um arremedo de programa económico como aquele que o Syriza tinha preparado na Grécia (e que depois deu no que deu).
O fracasso da estratégia radical é o melhor indicador de que a Espanha saída destas eleições não é a mesma Espanha de Dezembro passado. Nessa altura o tempo parecia correr a favor dos extremismos; agora o vento mudou de direcção. Isso deve tornar mais fácil formar um acordo que torne possível governar, e possível que governem os que ganharam as eleições.
Por muitos “calculadores de coligações” que possamos fazer, só existem duas verdadeiras alternativas. A primeira é a formação de uma coligação do PP com Ciudadanos, com a eventual participação de mais alguns partido nacionalista, coligação essa que possa ser viabilizada pela abstenção dos socialistas. Parece ser a solução preferida pelo El Pais que, no seu editorial, escreve que do PSOE deve “escutar o mandato dos eleitores para que permaneça na oposição e permita com a sua abstenção que governe quem tenha os votos necessários para o fazer”. A segunda é uma grande coligação incluindo o PP, o Ciudadanos e o PSOE, uma solução que, escreve-se no editorial do El Español, teria a vantagem de permitir promover “uma agenda de reforma política ambiciosa que incluiria mudanças na Constituição”. Isto porque são “os três partidos que podem garantir regeneração e unidade”.
O grande receio de que soluções deste tipo abrissem caminho ao crescimento dos extremismos, um receio absolutamente legítimo em Dezembro, quando o Podemos parecia imparável, perde razão de ser com os resultados de Junho. A maré, para já, foi contida, mas isso não permite novas irresponsabilidades aos partidos moderados. É que se podem contar com uma economia espanhola que continua a dar sinais de vitalidade, não se podem esquecer que foram e continuam a ser minados por escândalos de corrupção. É por isso que faz tanto sentido falar em regeneração.

Catarina, a Grande contra a Europa

Alexandre Homem Cristo
Observador 26/6/2016

O PS aproximou-se do BE e foi essa vitória que os bloquistas exibiram: o PS governa, mas quem manda é o BE. Catarina não foi apenas entronizada líder única do BE, mas também comandante da geringonça.

No espaço de um mês, a geringonça foi celebrada duas vezes. Primeiro, no XX Congresso do PS. Agora, na X Convenção do BE. De certo modo, estes foram eventos gémeos: em ambos, vincou-se a viragem à esquerda, criticou-se o rumo do projecto europeu, diabolizou-se o anterior governo PSD-CDS e assinalaram-se as medidas mais populares (populistas?) da geringonça. A maioria das intervenções que se ouviram nesses dois eventos poderia ter sido proferida tanto num como noutro. Algo que, em 2014, seria inimaginável – nessa altura, o BE escarnecia o PS enquanto partido de direita. Quem mudou? Os socialistas – como explicou Mariana Mortágua, foi o PS que se aproximou do BE e não o contrário. Foi, aliás, essa vitória que os bloquistas passaram o fim-de-semana a exibir: o PS governa, mas quem manda é o BE. Seja directamente, condicionando as decisões executivas por via dos equilíbrios na maioria parlamentar. Seja indirectamente, fixando as linhas estratégicas e ideológicas para os grandes temas, nomeadamente quanto ao projecto europeu. Ou seja, Catarina não foi apenas entronizada como líder única do BE, mas também como comandante suprema da geringonça. A sua mensagem política foi claríssima: quem quiser que o PS governe à esquerda terá de votar no BE.
Este pragmatismo do BE tem méritos eleitorais, mas sofre de uma incoerência gritante quando iluminado pelo poder: a ausência de um pensamento estruturado sobre o projecto europeu. O BE quer abandonar a UE? Catarina Martins garante que não, o que quer é uma UE liberta do neoliberalismo e das políticas de austeridade. Mas como é isso compatível com a convicção de que a UE é um projecto falhado, como Louçã qualificou, ou com a afirmação de que esta UE não tem solução possível, como Pureza sentenciou? Não dá para querer reformar a UE e, ao mesmo tempo, decretar a morte do projecto europeu e apontar “uma linha mais soberanista” como caminho.
Esta incoerência não é uma originalidade do BE. O Syriza viveu-a quando venceu as eleições legislativas na Grécia e, depois de uma cisão interna, optou por cumprir com as regras europeias. Ora, o BE quer crescer e reforçar a sua influência na governação do país, pelo que a questão impõe-se: numa situação semelhante em termos de composição do governo – imagine-se, por exemplo, uma coligação PS-BE – seguiria Catarina Martins o mesmo caminho de Tsipras, aceitando as regras do Tratado Orçamental? Ficou triplamente claro que não. No discurso de encerramento de Catarina Martins, que arrasou as lideranças e regras europeias. No apupar que os militantes bloquistas dedicaram ao Syriza. E na entrevista de Mariana Mortágua, que explica o afastamento institucional do BE face ao Syriza – a cedência de Tsipras às regras europeias é imperdoável. Traduzindo: a identidade do projecto do BE requer um confronto com a actual UE, a sua liderança e as suas regras – daí a ameaça de pedir um referendo caso Bruxelas imponha sanções sobre Portugal.
Num partido que agora assume um projecto de poder e se reconhece como partido de (influência do) governo, esta posição sobre a Europa é insustentável. Porquê? Porque conduz a um vazio fundamental, aquele a que Catarina Martins não soube (ou não quis) responder: afinal, para além dos slogans soberanistas, onde está a alternativa do BE às regras europeias? Não se sabe. Em tempos, alguns dos seus ideólogos apontariam à Albânia. E o BE, mesmo que agora se diga mais pragmático e menos idealista, continua sem apresentar uma resposta melhor.

Brexit: Um Erro Que Provoca Inveja.

José Maria Duque, Nós os poucos, 2016.06.27



Faço parte daqueles que pensam que o Brexit é um erro. Um erro que sairá caro ao Reino Unido e que sairá muito caro à União Europeia. A verdade é que o projecto europeu, apesar de seus muitos erros,  tem conseguido cumprir o seu maior objectivo: a paz. E este período de paz, que nós tomamos como adquirido, é uma novidade na Europa desde os tempos de Roma. Com a grande diferença que a paz actual não é fruto da atenta vigilância de uma super potência, mas sim da boa vontade entre os países da Europa.

Esta é a grande genialidade do projecto europeu: relações internacionais já não baseadas no equilíbrios de poder mas sim no desejo de cada país de viver pacificamente com os seus vizinhos.

Por isso o projecto europeu não falhou. O seu grande objectivo continua vivo. Neste momento existe uma grande confusão, fruto do modo como o poder da União tem desenvolvido o projecto europeu. A integração política e económica deixaram de ser meios para alcançar a paz, para serem fins em si mesmo. De tal maneira que a União Europeia tem sido construído não com os povos europeus, mas apesar, e muitas vezes contra, os seus povos. 

A saída do Reino Unido pode por isso significar o fim do projecto europeu.  Quer porque a União simplesmente se desintegre, quer porque na ânsia de se manter unida insista em reclamar para si mais poder, acabando por desvirtuar de vez a ideia de Europa de Schuman e Adenauer, substituindo-a por uma Super Europa, na qual os cidadão europeus não se reconhecem e contra a qual, em última instância, se irão revoltar.

Dito isto é impressionante ver a maturidade democrática do Reino Unido, sobretudo se comparado com a dos restantes países europeus.

O Reino Unido teve eleições gerais há pouco mais de um ano. Nessa eleições os Conservadores conseguiram uma confortável maioria, suficiente para garantir a David Cameron quatro anos de poder.

Contudo, Cameron, pressionado por grande parte do eleitorado conservador, prometeu que iria realizar um referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia. Cameron ganhou as eleições, contra todas as sondagens, e cumpriu a sua promessa. Decidiu saber se os seus eleitores queriam ou não permanecer na Europa. Ao contrário dele, eles não queriam. E Cameron decidiu respeitar a sua vontade. Mesmo com a tal maioria confortável, mesmo com o pedido dos deputados Conservadores que fizeram campanha pelo "leave" para que ficasse como Primeiro Ministro, mesmo com a escassa vitória do "leave", admitiu a derrota e demitiu-se, para dar lugar a quem pudesse negociar com a Europa a saída do Reino Unido, o que ele não se sente capaz de fazer por o considerar um erro.

Comparemos o que aconteceu no Reino Unido com o que acontece no resto da União Europeia. Nenhum governo se atreve a consultar o povo sobre a integração europeia. Todas as decisões sobre a Europa são tomadas em gabinetes escondidos. A Europa é governado por uma Comissão que não é eleita pela povo e sobre a qual o povo tem pouco ou nenhum controlo. Cada vez que algum pais ousa desafiar Bruxelas é imediatamente ameaçado com sanções. 

Basta ver as reacções ao Brexit por essa Europa fora. A maneira como 17 milhões de cidadão britânicos têm sido reduzidos a um bando de xenófobos ignorantes nas mãos de demagogos é absolutamente chocante. Na União Europeia só se é democrático quando se é a favor da União. Quem é contra é um extremista a um passo de ser um segundo Hitler.

Se queremos um bom exemplo da diferença entre a democracia europeia e a britânica, basta vermos o que aconteceu nas eleições espanholas. Rajoy, que à terceira tentativa foi eleito, quebrou a sua promessa de rever a lei do aborto. Em Dezembro passado e agora, não conseguiu maioria suficiente para governar, nada acontece. Pedro Sanchez levou o PSOE a dois resultados vergonhosos, continua a tentar governar. Pablo Iglesias inventa um partido com dinheiro venezuelano, fica em terceiro lugar nas duas eleições e continua a achar que tem direito a fazer parte do governo. E entre birras e amuos Espanha irá, aparentemente, continuar sem governo.

Que diferença para o Reino Unido, onde um Primeiro-Ministro com maioria absoluta no parlamento se demite simplesmente porque o povo decidiu sair da U.E. e ele considera não ser capaz de liderar esse processo.

Por isto é que eu, mesmo sendo contra o Brexit, tenho inveja dos ingleses. Inveja, porque também quero uma política onde o povo é realmente soberano. Uma democracia sem medo, onde a legitimidade não está nos gabinetes de Bruxelas nem nos comités centrais dos partidos, mas nas urnas. Uma democracia onde os governante respondem diante dos eleitores e não diante do secretário-geral.

Se tivesse que escolher entre ficar com esta União Europeia burocrática, centralista, autoritária ou a livre Inglaterra, provavelmente, pesando todas as consequências, ficaria do lado da União. Mas escolheria com o coração triste e cheio de inveja daquela estranho país onde o povo é realmente soberano.

Respeito

Henrique Raposo
Expresso, 2016.06.25

Apesar de não ligar às suas aulas, Alfredo Tinoco era o meu professor favorito. Passávamos tardes a beber imperais e a conversar num café na esquina da Av. das Forças Armadas com a Av. 5 de Outubro. Era uma tertúlia de três fellinianos: ele, eu e o meu amigo Bruno Vieira Amaral. Não falávamos da matéria ou do ISCTE, mas sim de mulheres, de romances oitocentistas, de cinema italiano, das memórias de cada um, da odisseia que ele viveu na Europa durante os anos da oposição a Salazar. O Tinoco era desconcertante por várias razões. Para começar, fundia uma voz infernal com um olhar meigo; a rouquidão prometia punição mas os olhos garantiam colinho. A meiguice era reforçada por barbas de avô oitocentista e pelo cigarro descontraído e indiferente ao fascismo higiénico. Para terminar, tinha à sua volta uma aura de tranquilidade como poucas vezes senti na vida. Apesar de ser ateu, anarquista e bombista fracassado (LUAR), Tinoco tinha aquele ar de quem conheceu o paraíso em primeira mão para depois descer à terra com o propósito de tranquilizar a malta. Quando faleceu há uns anos, eu e o Bruno colocámos nos nossos blogues um texto em sua homenagem. Muita gente ficou admirada com esta relação entre um professor de esquerda e um aluno de direita. 
Há dias, morreu o avô de um amigo. A alma que passou para o outro lado esteve sempre ligada ao PCP e o seu filho (o pai do meu amigo) também está ligado à esquerda. Contudo, quando chegou à igreja, veio ter comigo para me dizer que gosta de me ler. Estivemos à conversa. Um pouco depois, meti-me com o meu amigo, “olha que o teu pai é meu fã”. Ele ficou admirado. Expliquei-lhe que não há motivos para espanto, pois tenho bastantes leitores de esquerda. Nem estou a falar do esquerdista viciado em ódio que me lê só para ter a sua dose diária de raiva, só para fazer a sua mijinha de ódio num Twitter qualquer. Estou mesmo a falar de leitores de esquerda que gostam de me ler apesar de não concordarem comigo. 
Seja como for, o espanto gerado pelas duas cenas indicia a crescente radicalização do espaço público. Assume-se à partida que não pode haver pontes entre homens diferentes, até porque começa a ser evidente a intolerância dos millennials. Ou talvez seja mais correto falar em cultura millennial. Afinal de contas, há septuagenários que teclam com a forquilha e cinquentões que fazem autos de fé no Facebook. A intolerância está a ganhar terreno ao longo de toda a pirâmide demográfica desta sociedade cada vez mais afastada dos átomos e cada vez mais escravizada pelos bytes. E o problema dos bytes é que transformam seres humanos de carne e osso numa abstração virtual, distante e espezinhável. Quando o outro é uma abstração desmaterializada, espezinhar, bater e matar tornam-se verbos de fácil conjugação, porque deixam de colocar dilemas morais. Até um país conhecido pela sua moderação e amizade cívica, o Reino Unido, está a ser colhido pelo vírus do Facebook e Twitter. Se calhar, o meu amigo tinha mesmo razão para ficar admirado. Se calhar, as minhas filhas não vão mesmo acreditar que o pai apanhou pifos com o professor ateu que tinha lá dentro a tranquilidade do paraíso.

Revolta e choque

Miguel Monjardino
Expresso 20160627

Um referendo mostra a clivagem entre Londres e o resto do país e entre as gerações novas e mais velhas. Nada ficará como dantes 
O processo de decisão estratégico, todavia, tende a ser sempre rodeado por estas incertezas. Depois do referendo, as sociedades e os líderes europeus deixaram de ter o luxo de ir para intervalo. Temos de compreender o que aconteceu e tomar as primeiras opções. 
Que nos mostra o resultado do referendo no Reino Unido? 
Sobretudo duas coisas. O país vive do comércio internacional, mas as consequências da Grande Recessão de 2007-2009, a evolução da globalização, o fraco crescimento económico e a queda da produtividade minaram a confiança da maioria da população em relação aos partidos políticos tradicionais. 
A guerra civil na Síria e a fragmentação do Médio Oriente transformaram a imigração na questão central do referendo. A identidade nacional e cultural ganhou à economia, às finanças e ao comércio As consequências a nível interno e externo dependerão muito do que vai acontecer em Londres, Bruxelas e Washington nas próximas semanas e meses. 
Dito isto, temos de considerar seriamente a possibilidade de a Escócia poder ter a possibilidade de se tornar um país independente na próxima década. Se isso acontecer, a Inglaterra terá pela primeira vez em séculos um país independente na sua fronteira norte. 
A estabilidade da Europa tem sido um dos pilares da política externa de Londres. O paradoxo de 23 de junho é que a opção pela separação política de Bruxelas tornará esta estabilidade ainda mais importante para os decisores ingleses. O resultado do referendo enfraquece o eixo europeu mais cético em relação à Rússia na NATO — Londres, Suécia, Polónia e países bálticos — e mais determinado na defesa da ordem europeia de 1989-1991. 
Ao nível económico, fiscal e orçamental, Berlim perde um aliado crucial nos debates europeus. O futuro da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) ficará ainda mais em dúvida. 
O 23 de junho não é um fenómeno meramente inglês mas sim um sinal do crescente ceticismo das sociedades europeias em relação à UE. Estamos literalmente presentes na criação de novas regras para a ordem europeia. 
É urgente pensar nas consequências de tudo isto para Portugal.