domingo, 31 de julho de 2016

Liberdade de escolha no Ensino

Eugenio Viassa Monteiro
Observador 31/7/2016

Este é que é o verdadeiro critério: o que não serve deve ser substituído por aquilo que é bom. E quem deve avaliar são os pais, com as suas opções, não os sindicatos nem o ministro.

É convicção geral que apenas as famílias ricas têm os filhos a estudar nos centros privados e que os pobres vão para o ensino oficial onde têm tudo pago. Talvez entre nós esta convicção tenha base na tradição de os meninos preguiçosos e chumbões, de famílias ricas irem para os colégios internos.
As ideias feitas, os preconceitos, sobre este assunto parecem reduzir a capacidade de pensar com isenção e profundidade, o que me leva a recordar um estudo cuidado, de muitos anos e de forte impacte, que abalou as convicções tradicionais face ao relato e contacto com fatos sobre os quais vale a pena voltar a perder uns minutos.
O estudo recolhido no essencial no livro The Beautiful Tree: A Personal Journey into How the World’s Poorest People Are Educating Themselves, de James Tooley (2009, Cato Institute), revela práticas de famílias pobres, em flagrante contradição com as convicções dos responsáveis pelo ensino em diferentes países. Após anos de investigação – confrontando os achados com os responsáveis do ensino, num estreito contacto com a realidade escolar na África, na Índia e noutros países asiáticos –, encontrava evidências bem ao invés das certezas profundamente arraigadas. Por facilidade eu referirei apenas a cidade de Hyderabad, embora o fenómeno se desse no resto da Índia, nos países africanos e asiáticos, como o autor relata no livro.
Notava ele que no casco antigo da cidade de Hyderabad as escolas oficiais gratuitas tinham boas instalações físicas, laboratórios e ginásios, e professores diplomados; apesar disso, os pais das crianças pobres não mandavam os filhos para essas escolas; muito perto, surgiam escolas privadas, com instalações decrépitas e sujas, com professores sem a habilitação adequada, sem laboratórios nem ginásios; melhor, tudo improvisado. E os pais pagavam uma propina mensal e a escola era cada vez mais solicitada, o que permitia ter umas propinas baixas. Nos Ministérios e nas instâncias oficiais a convicção inabalável e firme era que só os ricos iam para as essas escolas privadas, onde se pagava!
O autor não conseguia explicar a contradição entre a realidade que constatava com os seus olhos e a versão dos burocratas dos corredores do poder, que nunca saíam dos seus gabinetes – se é que iam aos gabinetes –, para ver a realidade. Repetiam a sua ‘cassete’ de que o ensino gratuito oficial era utilizado pelos pobres, e só os ricos mandavam os filhos para as escolas privadas.
Tentou chamar a atenção em todos os níveis da burocracia; e depois de os ter levado a visitar as escolas, e conversado com os pais dos meninos pobres, fez-se luz naquelas mentes: onde as crianças de verdade aprendiam era nas escolas privadas. Porquê? Havia um director, responsável e dedicado que sentia o drama dos pobres; e os professores eram dedicados, imaginativos, vindos de estratos pobres também, que estimulavam com concursos, visitas, exposições dos alunos, etc.; nunca faltavam e sabiam motivar. Os pais, alguns analfabetos, viam que as crianças ali aprendiam, estavam felizes, exigidas e a trabalhar. Daí que pagassem a propina, com sacrifício mas com gosto.
O ensino oficial era gratuito… em boas instalações, com livros e uniformes dados, mas os professores, colocados por cunhas dos políticos, faltavam quando apetecia; o clima era de amiguismo irresponsável. Não havia inovações, e os directores não podiam exigir dos protegidos políticos uma prestação justa face à remuneração que recebiam. Nestes últimos anos, felizmente, os abusos vão-se reduzindo, há mais moralização com o novo Governo, e interiorização do sentido profissional e de justiça na acção.
Estou a referir-me a países em desenvolvimento. Contudo, não deixa de haver parecenças com os desenvolvidos. Lembrava um político nosso que num local com ensino oficial e privado (este com contrato de associação, para a comparação ser válida), se se tratava de fechar turmas por falta de estudantes, deveriam fechar-se as que tivessem menos alunos inscritos, porque os pais sabem bem o que tem qualidade. Este é que é o verdadeiro critério: o que não serve deve ser substituído por aquilo que é bom. E quem deve avaliar são os pais, com as suas opções, não os sindicatos nem o ministro.
Se nem todos têm meios económicas, parte do dinheiro com a Educação deveria aplicar-se em contratos de associação para criar uma real liberdade de escolha, que têm os ricos, por terem dinheiro, mas não têm os pobres. O ensino oficial ganharia mais qualidade ao competir, ao querer ser uma real alternativa ao ensino privado. Ganharia, sem dúvida o país!

Amor

POVO 31.07.16 
O amor é um juízo da inteligência que arrasta consigo toda a sensibilidade humana 
Luigi Giussani

O Povo vai de férias durante o mês de Agosto. Para as vivermos bem, recomendo esta leitura: Férias

HOJE

Fazemos 40 anos de casados
É motivo de alegria, reconhecimento e de dar graças.
Muito do que sou nasce deste juízo da inteligência que me arrasta consigo e que é o amor.
Porque o Povo nasce da minha forma de olhar o mundo, este facto e, também, esta forma de olhar o amor como juízo da razão que arrasta toda a sensibilidade, são motivo de partilha
Graças a Deus!

40 anos de casados

Ponte de Sor, 31 de Julho de 1976

sábado, 30 de julho de 2016

A jihad, uma ameaça para a Europa

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 30/7/2016

A Europa não pode ignorar uma verdade bem evidente: se, em tempos passados, teve de fazer frente a um terrorismo essencialmente político, agora é ameaçada pelo terrorismo que se autoproclama islâmico.
Não há palavras que possam exprimir a estupefacção pelo modo selvagem e cobarde como foi assassinado o padre Jacques Hamel, na passada terça-feira, em Saint Etienne du Rouvray, França. E, contudo, há o perigo de, ultrapassada a primeira reacção de espanto, reduzir o facto a um mero episódio de uma actualidade cada vez mais pródiga em notícias desta natureza. Ou, pior ainda, ceder à tentação de querer responder à ameaça do terrorismo com outro terrorismo, como pretendem os que se querem servir destes acontecimentos para impor políticas xenófobas, ou contrárias à liberdade religiosa.
É verdade que, no caso do atentado em Rouen, a motivação para o crime foi de natureza religiosa e, ao que parece, os executantes da degolação do ancião presbítero eram oriundos de países árabes. Quer isto dizer que todos os árabes são possíveis terroristas?! Dever-se-á supor, doravante, que qualquer crente no Islão é um eventual assassino?! Mas, não houve também criminosos de outras etnias e religiões?! A Bíblia não atribuía a Deus, Senhor dos exércitos, as ordens de fazer a guerra aos inimigos de Israel e, até, de exterminar os infiéis?! Mesmo depois de Cristo ter proibido terminantemente tais práticas aos seus discípulos, impondo-lhes como lei suprema o mandamento novo da caridade, não foram os cruzados protagonistas de acções violentas contra os mouros?!
Como é sabido, Adolf Hitler, austríaco de nascimento, era nacional-socialista e foi culpado pelo extermínio de milhões de judeus. Mao Tsé Tung era chinês e, como dirigente comunista, foi responsável, em termos éticos e políticos, pelos milhões de vítimas causadas pela sua despótica e criminosa governação. Pode-se então concluir que todos os austríacos e chineses são potenciais criminosos? E que dizer dos nazis e maoístas?
Tomás de Aquino distinguia o que é próprio de alguma coisa per se, do que só acidentalmente lhe convém. Ou seja, que Adolf Hitler ou Mao Tsé Tung fossem, respectivamente, austríaco e chinês, é algo acidental nas suas biografias, mas as suas escolhas ideológicas foram determinantes das suas acções políticas. Com efeito, tanto o nazismo como o comunismo são doutrinas totalitárias, que legitimam o uso da violência e o desrespeito pelos mais elementares direitos humanos. Portanto, supor que um austríaco, ou chinês, é, por esse facto, um possível terrorista, é absurdo; mas temer que um nazi, ou maoista, possa atentar contra a democracia, não releva nenhuma injusta suposição, precisamente porque essas ideologias são, em si mesmas, essencialmente antidemocráticas.
E o Islão? É óbvio que há que respeitar todas as religiões – a liberdade religiosa é um dos principais pilares da democracia e do estado de direito – mas, mesmo que todas as religiões sejam pela paz como, a propósito deste atentado, disse o Papa Francisco, não se pode negar que o não são todas do mesmo modo. Um budista é, por natureza, um pacifista e um acérrimo partidário da não-violência, mas um muçulmano é um crente em Alá, pela alegada revelação de Maomé que, se por um lado foi um fervoroso líder religioso, por outro também foi, como é historicamente certo, um feroz guerreiro, que “não só pregou a violência contra os não muçulmanos, como dirigiu pessoalmente sessenta campanhas militares de enorme agressividade” (Paul Copan, Is God a moral monster?, ed. port., pág. 358). Por isso, não há qualquer exagero em afirmar que, embora possa haver um budista, ou um cristão, violento e agressivo, mais por excepção do que por regra, o mesmo não se pode dizer de todos os maometanos. Se há, como é de justiça reconhecer, seguidores de Maomé que são pacíficos e tolerantes, também os há que seguem a vida guerreira do dito profeta, professam a sua doutrina belicista, pretendem propagar pelas armas a sua crença e querem impor à força o regime islâmico, excluindo, como já acontece nos países oficialmente muçulmanos, a liberdade religiosa e os demais direitos fundamentais.
Bernard Lewis, talvez o maior especialista ocidental na matéria, escreveu: “As cruzadas são um desenvolvimento tardio na história do Cristianismo . O Cristianismo estivera sujeito aos ataques dos muçulmanos desde o século VII e perdera grandes territórios, que haviam sido conquistados pelo Islão . Contudo, no quadro da prolongada batalha entre o Cristianismo e o Islão, as cruzadas foram tardias, limitadas e relativamente breves. Pelo contrário, a jihad está presente desde os começos da história do Islão, tanto nos escritos como na vida do profeta e nos actos dos seus companheiros e sucessores imediatos. Prosseguiu durante toda a história do Islão e continua a ser fascinante para os muçulmanos da actualidade”, como os recentes atentados dolorosamente confirmam.
É óbvio que não se pode pôr em causa a liberdade religiosa, nem a liberdade política, de pensamento e de expressão mas, de modo análogo a como um nazi ou um maoista é um perigo para o Estado livre e democrático, também um crente extremista é uma ameaça real para a sociedade, sobretudo se professar uma religião que legitima o uso da violência. Seria injusto supor que todos os árabes, ou muçulmanos, são potenciais criminosos, até porque também há, no chamado Estado Islâmico, bastantes terroristas que não são árabes, bem como, eventualmente, mercenários que simularam a sua conversão ao Islão para serem admitidos nessa milícia muçulmana. Mas a Europa não pode ignorar uma verdade por de mais evidente: se, em tempos passados, teve de fazer frente a um terrorismo essencialmente político (Brigadas Vermelhas, ETA, Baader-Meinhof, IRA, etc.), agora é ameaçada pelo terrorismo que se autoproclama islâmico.
Os judeus estavam autorizados a aplicar a lei de talião: ‘olho por olho e dente por dente’ (Ex 21, 23-25; Lv 24, 17-21). Pelo contrário, os cristãos sabem que, se forem agredidos numa face, devem oferecer a outra (cf. Mt 5, 39) e que, em qualquer circunstância, estão obrigados a amarem os seus inimigos (cf. Lc 6, 35-36). Mas o evangelho também ensina os crentes a serem simples como as pombas, mas não ingénuos, e prudentes como as serpentes (cf. Mt 10, 16).

Frase do dia

POVO 30.07.16 
À volta dos pobres e dos doentes vejo uma luz especial que nós não temos
Beato Pedro Jorge Frassatti

Beato Pedro Jorge Frassatti patrono das Jornadas Mundiais da Juventude 2016

Jovens com opinião

Inês Teotónio Pereira
DN 20170730

Alguns dos meus filhos estão a ficar gente: têm opiniões. Estão a entrar naquela idade em que já não perguntam, debitam o que lhes vai na alma. Não sabem muita coisa sobre quase nada por falta de tempo, mas falam de tudo. Têm opinião sobre terrorismo, religião, esquerda e direita, sobre profissões, música, o que está bem e mal em casa, no país ou no Médio Oriente. E têm a certeza absoluta. São opinativos fundamentalistas. Funcionam com base no "porque sim" ou porque viram no YouTube. E não há teoria, realidade ou factos que os afastem da sua verdade.
Pais e mães mais experientes já me tinham avisado de que esta fase iria chegar e que, segundo eles, "era muita giro". Pois não é. Passar por isto é o mesmo que ouvir os profissionais do comentário na televisão e não poder mudar de canal. É irritante. É o mesmo que jantar com a SIC Notícias em bloco. Com todos ao mesmo tempo e todos os dias. E o pior é que não os podemos insultar como fazemos com os profissionais a sério antes de carregarmos no botão que os faz desaparecer. Não, com os meus filhos tenho mesmo de ficar a ouvir e, diz o bom senso, deixá-los exprimir a sua opinião. Bolas, nunca pensei que deixar alguém exprimir a sua opinião fosse tão doloroso. Mas eu deixo, juro. Só que sinto que estou claramente em desvantagem. Enquanto eu, para fazer valer o meu ponto de vista, tenho de dar lições de história, citar autores, falar de números e de filosofia, já eles respondem com o YouTube, repetem o que um amigo lhes disse ou citam uma coisa que ouviram "já não me lembro onde". Impossível rebater. São evidências que lhes fazem sentido enquanto as minhas só lhes dão trabalho. Sou eu contra todas as redes sociais do mundo, os canais de notícias e as maiores palermices que se dizem por aí. Giro? Pois, experimentem explicar a um adolescente, que tem como sonho ir tirar fotografias para a Austrália e como ídolos John Lennon e o Papa Francisco, qual é a ligação entre o terrorismo e o islão e depois digam-me se é giro. Não é. É doloroso e difícil respeitar a opinião e conversar seriamente com alguém que fala do Iraque sem nunca ter visto e ouvido Artur Albarran em direto de Bagdad. É por isso que gosto muito mais de jantar com os meus outros filhos que só me fazem perguntas. São de longe os mais sensatos.

O liberalismo que nos convém

Miguel Angel Belloso
DN 2016.07.29

A revista espanhola Actualidad Económica, da qual sou diretor, dedica a sua última capa à besta negra da esquerda: o liberalismo. Pareceu-nos que depois das eleições, que felizmente detiveram a ameaça do populismo e de uma viragem do país à esquerda - embora ainda vá demorar até que se forme um governo e tudo isto se possa alterar até lá -, era o momento de reivindicar a ideologia mais denegrida mas que mais progresso e bem-estar proporcionou à humanidade. Também porque pensamos que se, apesar das dificuldades parlamentares com que vai tropeçar o eventual governo de Rajoy, o liberalismo for a orientação das novas políticas, Espanha e, sem dúvida, Portugal, continuariam a ter uma oportunidade para crescer e prosperar.
Se o (neo)liberalismo é o ideário que domina as nossas vidas, como salientam os seus detratores, a humanidade só pode estar-lhe agradecida. Não apenas as centenas de milhões de asiáticos, latino-americanos e africanos que saíram da miséria graças ao livre mercado. No Ocidente também não nos correu mal. O PIB per capita não deixou de crescer desde os anos 1980, nem nos Estados Unidos nem na Europa nem em Espanha. Por muito que algum sábio estúpido como Paul Krugman ou algum jovem iracundo como Pablo Iglesias reiterem que o mundo tem piorado durante os últimos anos, e que está um desastre, a realidade objetiva é que nunca esteve melhor.
"Muitos americanos pensam que os seus filhos viverão pior do que eles", explica Warren Buffett na sua última carta aos acionistas da Berkshire Hathaway. E o mesmo poderia dizer-se dos espanhóis e, com certeza, dos portugueses. Mas "é uma opinião totalmente errónea: as crianças que estão a nascer neste momento nos EUA são as mais afortunadas da história", diz Buffett. "Todas as famílias da minha vizinhança de classe média-alta desfrutam de um nível de vida superior ao que tinha John D. Rockefeller quando eu nasci."
Para desmontar os ataques contra a chamada revolução liberal conservadora, que segundo a esquerda assola o mundo, torna-se particularmente ilustrativa a comparação entre o Reino Unido e a França. Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o PIB per capita dos britânicos era cerca de 12% superior ao francês. As posições inverteram-se depois da política dirigista e nacionalizadora iniciada por Clement Attlee no pós-guerra. Em 1979, quando Thatcher chegou a Downing Street, os gauleses eram perto de 11% mais ricos. A Dama de Ferro começou então a desmantelar a herança trabalhista ao mesmo tempo que o seu vizinho do Eliseu, François Mitterrand, se dedicava a regular e expropriar. Três décadas depois, o rendimento dos ingleses é novamente cerca de 10% maior do que o francês.
Ironicamente, a França quer agora copiar o Reino Unido. E o Reino Unido, sacudido pelo brexit, tem uma nova primeira-ministra conservadora que pretende implantar uma espécie de agenda social, pois ali os resultados do não à União Europeia são interpretados como o movimento de protesto das pessoas apeadas do crescimento ou simplesmente castigadas pela concorrência da imigração e da falta de expectativas. Em França, com muitas dificuldades, aprovou-se uma reforma laboral que é uma cópia quase literal da espanhola, a fim de injetar flexibilidade nas empresas para que se adaptem ao ciclo de fomentar a criação acelerada de emprego. Não sabemos o que irá acontecer no Reino Unido, mas parece que Theresa May está impressionada com a animosidade para com as políticas conservadoras que foi deixada clara pelo brexit, e que quer liderar uma nova época com a ideia de que ninguém fique para trás. É uma ideia louvável, que sempre esteve presente em Margaret Thatcher e nos liberais genuínos: ajudar aqueles que por incapacidade genuína ou infortúnio não conseguem prosperar por si mesmos. Mas só a esses. Se, pelo contrário, se generaliza o Estado assistencial ou o subsídio indiscriminado parece--me que nos encontraremos perante a atual situação, na qual muitas pessoas que poderiam enriquecer pessoalmente satisfazendo a procura da sociedade têm muito mais incentivos para viver como parasitas, à conta do erário público, como acontece em França, em Espanha ou em Portugal.
A crise económica, talvez a mais dura desde a grande recessão de 1929, com o seu rasto de destruição de tecido produtivo e de perda de postos de trabalho, voltou a alimentar os inimigos do capitalismo, que proliferam por toda a parte. Os argumentos têm sido mais ou menos os de sempre: que o sistema é incapaz de prevenir e de evitar as crises cíclicas, e que se transforma num manancial de desigualdades, cada vez mais difícil de tolerar. Mas que a economia é cíclica é algo que já se sabe, porque faz parte da sua essência, do seu ADN. É um aspeto insolúvel. Algo mais discutível é que, vivendo crises de certo em certo tempo, o mundo não tenha vindo sempre a melhorar em termos líquidos, apesar de alguns retrocessos ligeiros e pontuais.
Por exemplo, o incremento da desigualdade registado em Espanha durante os últimos anos é modesto e tem que ver quase exclusivamente com o aumento do desemprego, não com o facto de os ricos se terem saído melhor com a crise. Também não é verdade que se tenha dado um retrocesso colossal na classe média. Não há provas empíricas que o avalizem. O que aconteceu, pelo contrário, foi uma queda dramática das expectativas. Depois da época dourada anterior à crise, as pessoas pensam, com razão, que voltar a recuperar os níveis de vida vai exigir algum tempo e um esforço que se faz com dificuldades. Sobretudo se o caldo de cultura for precisamente o contrário, o de recompor um Estado social que é financeiramente insustentável e culturalmente nocivo.
Espanha criou nos últimos dois anos 60% do emprego de toda a União Europeia. Mas os meus compatriotas, sentimentalmente agitados pela esquerda, não estão contentes. Creem que se trata de um emprego precário, a tempo parcial, com salários baixos. Pois claro que é! Nunca houve nenhum caso no mundo em que uma crise tão dramática se supere recuperando de maneira instantânea os níveis de vida anteriores. O dramático é comprovar como as pessoas no meu país, grande parte das que encontraram um emprego, trabalham realmente mal. Muito mal. Estão mais preocupadas com os dias de férias do que em como melhorar o seu rendimento e a satisfação dos clientes. Deste ponto de vista, o Estado social foi nefasto. Criou uma cultura dos direitos em vez dos deveres a que estamos obrigados, que é nociva. Destruiu a "vontade de conquistar o mundo" - sem que nos importasse os ordenados e os horários - com que as pessoas da minha geração entraram no mundo laboral. Muitos dos nossos jovens são uns parasitas ou umas falsas vítimas e, sem dúvida, maus trabalhadores para quem os conceitos de produtividade e de competitividade são mais uma maldição do capitalismo, de maneira que ter um emprego, mais do que uma oportunidade, uma primeira alavanca para ter êxito na vida, é uma maldição, um trâmite inevitável até que chegue o fim de semana para se dedicarem ao que realmente importa, que é desfrutar.
Eu não serei tão taxativo como os membros da Opus Dei, que têm como uma das suas máximas que o trabalho conduz diretamente à santidade, mas creio indubitavelmente que trabalhar bem é um requisito imprescindível para ganhar em dignidade, em autoestima e em elevação moral. Tudo o contrário do que pensa a esquerda, dedicada de corpo e alma a perverter a opinião pública. Vale a pena apostar no liberalismo. Este está cada vez mais ausente dos programas dos partidos políticos, inclusive dos partidos conservadores. Mas é o único caminho para recuperar o vigor que falta nas nossas sociedades e recuperar a grandeza que qualquer país merece.

Todos por um e um por todos!”

Imagens de Marca, 2016.07.27
Nuno Pinto de Magalhães, Presidente do ICAP

A vitória de Portugal no Campeonato da Europa de Futebol e a visibilidade que a mesma traz sobre o País por esse mundo fora vai aumentar certamente o impacto positivo na percepção e na curiosidade que temos vindo a despertar já em muitos e agora também noutros que melhor nos quererão conhecer, ajudando à consolidação que se tem vindo a assistir em termos de notoriedade e que se tem traduzido quer ao nível de atração de turismo como potenciando negócios e ajudando a nossa economia nacional, que tanto precisamos!
Esta vitória a que se seguiram outras que trouxeram medalhas para Portugal, quer no campeonato europeu de atletismo, no campeonato europeu de hóquei em patins e ainda no campeonato europeu de surf em juniores, vem traduzir antes de mais um trabalho coerente, dedicado e consistente de todas as entidades relacionados com o desporto, ao longo dos últimos anos e vem sobretudo confirmar um dado relevante – O trabalho em equipa quase sempre é mais eficaz para atingir o topo. E este tanto é verdade no jogo como e todos os outros aspetos da vida. Ou seja impõe-se na ordem do dia a mudança de paradigma do estilo português, que ainda passa muito pelo individualismo, para o todos por um e um por todos.
Penso ser essa a principal lição a tirar deste Mundial!
Assim, se também os políticos de todas as forças políticas, pusessem os seus interesses partidários de lado e se esforçassem em entender-se conjuntamente num modelo a seguir em matérias e valores basilares do Estado, como a justiça, a segurança, a saúde, a educação  e a segurança social, em vez de perder tempo em querelas e clientelismos que só desgastam e não privilegiam o todo, então sim estariam verdadeiramente a contribuir de forma consistente e coerente para mais e melhor Portugal.
Food for thought!

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Fundação AIS junta quase centena e meia de pessoas numa inédita jornada de oração pelos cristãos perseguidos em plena praia alentejana

Quase centena e meia de pessoas reuniram-se ao fim da tarde da passada sexta-feira na Praia do Malhão, em Vila Nova de Milfontes, para uma iniciativa inédita da Fundação AIS: rezar pela paz e pelos Cristãos Perseguidos.

Esta iniciativa inseriu-se na campanha internacional “Seja a Misericórdia de Deus” que a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre tem vindo a desenvolver desde Junho e que vai prolongar-se até Outubro com diversas actividades já agendadas de Norte a Sul do país.
Assumindo que “rezar pela paz e pelos Cristãos perseguidos é uma obra de misericórdia”, a Fundação AIS lançou o convite a todos os que se encontravam nesta praia da costa alentejana para rezarem o Terço lembrando em especial o sofrimento dos que vivem em países em guerra, como a Síria, Iraque ou Sudão do Sul, e o drama dos milhões de refugiados em todo o mundo.
Esta jornada de oração, que contou com a colaboração activa do “Presépio da Cidade”, do Patriarcado de Lisboa, procurou ser como que uma “ousadia” junto de todos os que habitualmente escolhem aquela praia como local de descanso.
Sofia Guedes, a principal dinamizadora do “Presépio da Cidade”, considerou esta iniciativa como um “sucesso”, até por se ter tratado de uma acção invulgar. “Temos de ser cristãos onde quer que estejamos”, diz. E acrescenta: “Não devemos ter vergonha nem medo de o assumir”.
De facto, quase centena e meia de cristãos, muitos deles frequentadores habituais da praia do Malhão há mais de duas décadas, aceitaram o repto da Fundação AIS e, “sem medo nem vergonha”, rezaram os Mistérios Dolorosos do Terço, lembrando a desventura de milhões de refugiados e desalojados em todo o mundo, assim como as vítimas do terrorismo e da guerra.
Sofia Guedes não tem dúvidas de que esta jornada de oração em plena praia alentejana foi “uma ousadia” que “ficará na memória” de todos os que a viveram ou presenciaram.
E muitos dos que se juntaram ao grupo que rezou pelos cristãos perseguidos eram jovens. Sofia Guedes destacou a importância desse facto. “Há muita gente nova que se esqueceu de rezar, ou então nunca foi motivada para isso e isto pode ser também um bom exemplo. É bom ter aqui imensa gente nova, pois isso faz com que as pessoas deixem de ter vergonha de rezar em público.”
Se a esmagadora maioria dos que participaram neste evento organizado pela Fundação AIS já se encontravam em férias pelas praias da região de Vila Nova de Milfontes, houve o caso de algumas pessoas que se fizeram à estrada propositadamente para rezarem o Terço. Rita Rego foi uma dessas pessoas e justificou a sua presença “pela importância do testemunho”.
Rita, que fez a viagem “de propósito, desde Lisboa, para chegar a horas do Terço”, faz parte, no entanto, dos que já frequentam a praia do Malhão há vários anos. Ela pertence até a um grupo de amigos que tem por hábito reunir-se em oração mesmo durante as férias. “Mas rezar o Terço em plena praia é a primeira vez”, admite. 
Esta jornada de oração inseriu-se na Campanha da Misericórdia – www.aismisericordia.org – que a Fundação AIS está a promover, a nível internacional, em resposta ao repto lançado pelo Papa Francisco, estando previstas ainda várias iniciativas de Norte a Sul do país.
É o caso da presença da Ajuda à Igreja que Sofre na Torre dos Clérigos, no Porto, nos dias 5, 6 e 7 de Agosto, em que se vai procurar sensibilizar os milhares de turistas que visitam aquele monumento nacional para a Campanha da Misericórdia e o drama dos Cristãos perseguidos no mundo, estando prevista a realização também de uma oração pela paz.
Mais tarde, nos dias 20 e 21 de Agosto, será a vez de Braga acolher a presença da Fundação AIS, no Santuário de São Bento da Porta Aberta.


Félix Lungu

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Não sabem o que dizem

João César das Neves
DN20160728

Até há uns meses nunca contemplaria escrever um artigo assim. Em temas financeiros é preciso muito cuidado ao falar em público. Declarações negativas ou só ambíguas podem ter consequências drásticas e inesperadas. A base das finanças é a confiança, que pode ser abalada por frases imprudentes acerca da reputação de uma instituição. Sou apenas um académico sem qualquer influência real, mas mesmo assim a prudência recomenda nunca escrever um artigo destes.
Pior, a situação financeira está ao rubro. Não só o mundo ainda anda combalido, após uma das maiores crises da história, sofrendo já novos choques, não só as taxas de juro estão a níveis impensáveis, como a sucessão de assustadores casos bancários nacionais pôs os aforradores com os nervos em franja. Num clima tão explosivo, nunca escreveria um artigo assim.
Só que hoje parece que entrámos num mundo surrealista, onde os responsáveis fazem as declarações mais inacreditáveis, com ligeireza e insensatez que tocam as raias da loucura. Em particular, depois do passado dia 18, entrámos no reino da imbecilidade institucionalizada. Peço desculpa, mas assim vou escrever um artigo destes.
Tudo começou com uma situação inaudita, ao termos o governo apoiado por forças que há anos pressionam para que se faça uma reestruturação da dívida. E mesmo depois de terem tomado a posição de pseudocoligação, PCP e Bloco de Esquerda mantiveram a proposta. Dizer isso na oposição, como partidos extremistas e irrelevantes, ninguém levava a sério. Mas a histórica opção de António Costa colocou-os a dominar a situação, e tudo mudou de figura.
Como é que uma entidade com responsabilidades políticas pode apregoar que se deve reestruturar a dívida, enquanto o governo que apoia está todos os dias a pedir mais dinheiro emprestado? O problema não é terem ou não razão sobre essa necessidade, mas, precisamente se a tiverem, ser muito estúpido anunciar a urgência. A fazer-se, uma reestruturação deve ser súbita, disfarçada ou diluída num programa europeu. Nunca declarada.
A nossa dívida pública é enorme. Tão grande que não apenas o PCP e o Bloco, mas também os mercados financeiros têm fortes desconfianças de que a possamos sustentar. Apesar disso, os sucessivos governos têm garantido que cumprirão pontualmente todas as suas obrigações creditícias. Porquê? Na visão conspirativa dos esquerdistas isso só pode ser enfeudamento aos interesses do capital. Mas há outro motivo mais simples: uma reestruturação fica sempre horrivelmente cara. E aumenta de custo se for vaticinada.
A atitude é idiota, mas não teve grandes efeitos, provavelmente porque, apesar de tudo, ninguém ainda leva a sério quem tem tanta dificuldade em abandonar os hábitos irresponsáveis de agitador arrivista. Então chegou o dia 10 de Abril de 2016, quando o senhor primeiro-ministro deu uma grande entrevista ao DN e à TSF. Aí afirmou com naturalidade: "Acho que era útil ao país encontrar um veículo de resolução do crédito malparado, de forma a libertar o sistema financeiro de um modo que dificulta uma participação mais ativa nas necessidades de financiamento das empresas portuguesas." No dia seguinte, o The Wall Street Journal punha como título: "O primeiro-ministro português diz que um "banco mau" pode ajudar a economia".
Se fosse uma potência inimiga pretendendo minar a confiança na nossa banca, assustar os depositantes e impedir que investidores estrangeiros cá colocassem as suas poupanças, era compreensível a afirmação. Na boca de um primeiro-ministro atinge o delírio suicida. Isso não se diz, faz-se. Ele não fez, conversou sobre o tema. A partir dessa data toda a gente ficou a saber que a nossa banca está por um fio. A partir dessa data eu podia escrever um artigo destes. Mas não escrevi, até contemplar o que nunca acharia possível: ver um governo encostar uma pistola à cabeça de um banco ferido e serenamente puxar o gatilho.
No relatório que acompanha a carta que Mário Centeno enviou à Comissão Europeia, nas "Alegações fundamentadas de Portugal no âmbito do processo de apuramento de eventuais sanções", está escrito na página 8: "De acordo com a carta e compromisso da República Portuguesa sobre o Novo Banco, o banco será vendido até agosto de 2017; se não for, entrará num processo de liquidação ordeira." Ordeira!? Depois disto, quem quererá ter poupanças nesse banco? Sem as poupanças, quem quererá comprar o banco? Assim tenho de escrever este artigo: por favor, alguém diga a esses senhores para se calarem. Com dirigentes destes, não há sistema que resista.

A Taça das Zero Sanções

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 27/07/2016

O pior que pode acontecer a Portugal é a perpetuação das desculpas externas para esconder as incompetências internas.

Pronto. Já cá canta mais uma taça. Portugal continua a vencer na Europa. 
Contra todos as expectativas, e após um forte pressing final do adversário que levou o próprio treinador português a duvidar da vitória (“a situação aparentemente não está muito simpática para Portugal”, disse ontem António Costa), lá conseguimos erguer a Taça das Zero Sanções. Marcelo pode encomendar as medalhas. Todos estão contentes: o governo está contente porque Pierre Moscovici plagiou os seus argumentos epistolares em conferência de imprensa; o PS está contente porque ergueu a voz e Pedro Nuno “Até as Pernas Lhes Tremem” Santos foi enfim vingado; o Bloco está contente porque já não tem de referendar nada; o CDS está contente porque defende as zero sanções desde pequenino; o PSD está contente porque espera que a frase “contas de 2015” não mais seja invocada até à segunda vinda de Cristo à Terra; e o PCP… bom, o PCP não está contente, mas também não podia estar: no que diz respeito à Europa, o partido enveredou pelo anarco-sindicalismo e entende que a Comissão não tem o direito de passar multas, mesmo que sejam zero.
Já agora: eu também estou contente. Não por ser sensível ao patriotismo lamecho-pedinchão que tem dominado a canícula, mas por uma razão muito prática: agora, há menos uma desculpa à qual António Costa se agarrar. Ao longo dos últimos meses, o nosso querido primeiro-ministro colou-se como uma lapa ao discurso das zero sanções porque ele lhe permitia mil e uma distracções. Agora está na hora de dar o corpo pelas suas políticas e pelas políticas do seu Governo, sem a desculpa de que a Europa está malvadamente entretida a sabotar o seu keynesianismo de casino, impedindo a esquerda de regovernar e mostrar ao mundo o quão bestial e amiga do crescimento é a sua aposta no consumo interno e na devolução dos rendimentos aos funcionários públicos. Não há multa, não há injustiça, não há sanções – o Governo que leve a taça e comece finalmente a assumir as consequências dos seus actos.
O pior que pode acontecer a Portugal é a perpetuação das desculpas externas para esconder as incompetências internas. Sócrates teria sido um primeiro-ministro bestial se não fosse a malfadada crise das dívidas soberanas; Passos Coelho teria sido um primeiro-ministro bestial se não fosse o malfadado programa da troika e os chumbos do Tribunal Constitucional; António Costa teria sido um primeiro-ministro bestial se não fossem as malfadadas sanções e as imposições dos tratados que o impedem de conduzir o país até à terra onde escorre o leite e o mel. As políticas destes três senhores divergem, mas as desculpas, essas, convergem. É assim desde sempre. A ausência de uma cultura liberal e a falta de fé nas capacidades de cada um é compensada com a criação de uma extraordinária máquina de produzir desculpas que funciona a todo o vapor desde tempos imemoriais. É a máquina dos “ses”. Nós teríamos conseguido, se…; nós teríamos vencido, se…; nós teríamos atingido, se…
A Taça das Zero Sanções é menos um “se…” no nosso caminho, menos uma desculpa para juntar à pilha. Com a vitória, veio também a conta: consolidação de mais 450 milhões em 2016 e proposta para aumentar o IVA em produtos com taxa reduzida. Isso parece-se demasiado com o plano B que António Costa disse que não existia. Logo se verá. O fundamental é isto: dar espaço ao Governo para ganhar ou perder por si próprio. Sem mais “ses”. Sem mais desculpas.

Este mundo não é nada como tínhamos imaginado

José Manuel Fernandes
Observador 28/7/2016

O multiculturalismo falhou porque ignorou a centralidade dos nossos valores. O laicismo também falhou pois ignorou que a modernidade não é só filha do Iluminismo, é também da tradição do cristianismo.

Não foi assim que imaginámos que ia acontecer.
Não imaginámos que a globalização, que muitos diziam que ia empobrecer os pobres, causasse afinal problemas nos países ricos. E por isso não vimos chegar Donald Trump, como antes não compreendêramos o significado do voto popular em Marine Le Pen ou em Nigel Farage.
Não imaginámos que aqueles que foram sendo acolhidos na Europa como imigrantes se voltassem tão violentamente contra os valores dessa mesma Europa. Não imaginámos que uma, duas gerações depois de chegarem continuassem não apenas a não estar integrados, como a recusar a integração.
Não imaginámos que, depois da revolução portuguesa de 1974, das transições democráticas na América Latina, desse maravilhoso ano de 1989 em que caiu o Muro de Berlim, os regimes autoritários voltassem a ter prestígio e até apoio popular. Tal como não imaginámos que a ideia de “primavera democrática” não tivesse o mesmo sentido, nem o mesmo destino, nas duas margens do Mediterrâneo.
Eu sei que houve muitos avisos. Que muitos alertaram para o excesso de optimismo. Que houve quem previsse uma viragem dos ventos, quem notasse que, na viragem do século, estávamos porventura a viver um momento de “viragem da maré”, e que vinham aí tempos menos previsíveis, mais turbulentos, com menos liberdade, com menos esperança.
Eu sei isso tudo, até porque várias vezes, ao longo destes anos, alertei para a necessidade de algum cepticismo: a História não é um processo com um só sentido, a ideia de que se pode forçar o Progresso (com P maiúsculo) é mesmo das mais perigosas.
Mas, convenhamos, não me recordo de alguém ter previsto esta espécie de “tempestade perfeita” em que parece estarmos a entrar neste Verão de 2016. E não, não é a economia, pois nunca houve tanta riqueza ao dispor de tantos no conjunto da Humanidade. E não, também não é guerra, pois a verdade é que também nunca, na história da mesma Humanidade, houve tão poucas guerras e, proporcionalmente, tão poucas pessoas a morrer de morte violenta.
Os eleitores de Trump ou Le Pen podem sentir-se deixados para trás pela globalização, mas não deixam por isso de ter acesso a níveis de conforto e de consumo que mesmo há uma ou duas gerações eram inacessíveis mesmo àquela pequena parte da população mais rica. Os terroristas de Nice ou de Ansbach ou de Bruxelas podem invocar discriminação, mas a verdade é que todos eles tinham acesso a níveis de protecção social ou a condições de liberdade inimagináveis nos países de onde vinham, ou de onde os seus pais tinham vindo.
Eu sei que porventura não devia estar a colocar num mesmo saco fenómenos que são muito diferentes, assim como associar num mesmo parágrafo eleitores inquietos com criminosos sem nome. Amalgamar tudo nunca é bom critério – mas também não é esse o meu objectivo. A preocupação é outra: é ter a imagem de conjunto. É ver como há certezas, ou expectativas, que se esboroam, escapando-se por entre os dedos das nossas mãos, tal areia fina.
É que é essa imagem que surpreende, e não apenas pela vertigem das notícias, que podem ser tão distintas como um motim racial nuns Estados Unidos presididos por Barack Obama, ou a eleição de Trump (por enquanto apenas como candidato republicano), a vaia dos delegados híper-radicalizados na conferência do partido democrata, a subida do populismo nacionalista e do extremismo de esquerda entre os eleitorados europeus, a opção de jovens educadas nas nossas escolas por deixarem os seus trajes europeus e regressarem à niqab ou mesmo à burka, enquanto outros defendem restrições à liberdade em nome do direita a não ser ofendido, tudo isto para não falar dos ataques de Orlando, de Nice, de Ansbach e, agora, de Saint-Étienne-du-Rouvray. O que teve por palco uma igreja. Aquele em que um padre de 86 anos foi degolado, numa encenação semelhante à realizada com os reféns do deserto sírio.
Essa é a imagem de um mundo que não imaginávamos possível ainda há poucos anos. Um mundo onde as democracias parecem mais frágeis, mais susceptíveis de sucumbirem perante as investidas do autoritarismo, do populismo ou do radicalismo, ou de tudo isto à mistura. Um mundo onde a convivência e a integração se revelam muito difíceis de conseguir, antes regridem. Um mundo que, afinal, não partilha valores que considerávamos, e consideraramos, universais, mas que uns contestam, outros repudiam, outros combatem de forma encarniçada.
Um dia vamos ter de discutir a sério as razões do refluxo da maré que parecia trazer liberdade e prosperidade para cada vez mais, e isto sem nos reduzirmos aos simplismos de culpar outros – sejam eles os mercados financeiros, a guerra do Iraque ou a ignorância das classes baixas e dos velhos que votam sempre mal. Nessa altura talvez compreendamos algumas coisas.
A primeira, é que as instituições que deram corpo às nossas democracias e que permitiram a nossa prosperidade não nasceram do nada e muito menos, como alguns sugerem, da rapina do tempo dos impérios. Essas instituições, sendo produto de uma longa maturação, têm raízes na cultura judaico-cristã que é – ou era, digo temerosamente – a do Ocidente. Um Ocidente que também é filho da tradição grego-romana e do iluminismo. Um Ocidente que também não pode esquecer que a solidariedade não existe sem uma forte ética do trabalho, que os cidadãos estão antes do Estado, que a democracia é sobretudo sobre regras, não sobre resultados. Se não percebermos que é tudo isto que faz (ou ainda faz) a nossa identidade, nem sequer perceberemos o que estamos a defender.
A segunda, é que temos de encontrar formas de adaptar as expectativas à realidade. Se é mentira que tenha existido um passado paradisíaco a que valesse a pena regressar, como sugerem muitas nostalgias, também é verdade que o grande desafio das nossas sociedades e dos nossos políticos vai ser o de viver com pouco ou nenhum crescimento. Há dois séculos que não sabemos o que isso é na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, pelo que temos pela frente o grande desafio de aprender a viver em democracias que já não vão conseguir oferecer o progresso material a que nos habituámos, geração atrás de geração.
A terceira, que temos mesmos de defender a nossa identidade e os nossos valores. Não somos nós que temos de nos adaptar, que temos de rever os nossos livros de História, reescrever as letras dos hinos ou deixar de venerar os grandes vultos da nossa cultura, de apreciar os monumentos que ergueram ou os livros que escreveram – são os que nos procuram em busca de uma vida melhor que devem integrar-se. A prosperidade que procuram não é independente dos valores que a tornaram possível – e esses são os nossos valores, não os deles. Como também não são os dos populismos nacionalistas ou dos radicalismos socialistas.
O multiculturalismo falhou porque desistiu da centralidade dos nossos valores como base do nosso modo de vida. O laicismo também falhou porque ignorou que a modernidade não é apenas filha do Iluminismo, é também herdeira da tradição do cristianismo, e que isso é válido mesmo para os ateus.
Nestes dias em que a sucessão de acontecimentos nos vai tornando quase imunes ao choque, porventura à indignação, e nestes tempos em que sinais tão diferentes e contraditórios fazem com que até seja difícil pensar, e ainda mais perceber, talvez o melhor antídoto para o desnorte seja o regresso ao essencial, e o essencial são os nossos valores, aqueles que são as referências, os pontos cardeais que temos de ter presentes no meio da tempestade – e no dia a dia deste tempo de muitos medos.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Escancarai as portas à misericórdia

D. Javier Echevarría
Observador 27/7/2016

A intuição de S. João Paulo II — que propôs aos jovens estas jornadas há já 30 anos — arraigou firmemente na vida de raparigas e rapazes — católicos ou não — do mundo.

Mais uma vez reunir-se-ão, junto ao Santo Padre, centenas de milhares de jovens procedentes de todo o mundo. Deixarão as suas casas, os estudos ou as atividades quotidianas, por alguns dias, para celebrar em conjunto a beleza da fé cristã e da Igreja santa.
A intuição de S. João Paulo II — que propôs aos jovens estas jornadas há já 30 anos — arraigou firmemente na vida de raparigas e rapazes — católicos ou não — do mundo. Agora, esta Jornada de 2016 volta às raízes geográficas e espirituais do santo Pontífice polaco: ali a misericórdia será de novo a chispa capaz de acender tantos desejos de entrega a Deus, de disposição de serviço aos outros. Nos ouvidos dos que atravessarem a Europa, a caminho de Cracóvia, ressoarão as palavras que surpreenderam o mundo e que continuam a ser atuais: Não tenhais medo! Escancarai as portas a Cristo!
Seguindo os passos de S. João Paulo II e de S. Faustina Kowalska — que nos falam da Misericórdia de Deus — serão dias em que será proposto aos jovens que abram as portas da alma, para descobrir a misericórdia. Com efeito, temos de evitar o risco de que a misericórdia seja apenas uma bonita palavra, capaz de encher discursos, frases sonantes ou canções, mas que não se torne viva no nosso ser e na nossa atuação. Por isso, o Papa Francisco nos apresenta muitas oportunidades — esta JMJ é um exemplo — para a experimentar e encarnar.
A misericórdia de Deus identifica-se com Ele, por isso brota do seu próprio mistério. Para descobrir o seu conteúdo, é preciso acolhê-la, e o melhor modo de o fazer — o caminho mais direto e jubiloso— passa pela confissão das nossas faltas no Sacramento da Penitência. Deixar nas suas mãos as nossas ofensas permite-nos compreender até que ponto o Criador nos ama. “Jesus Cristo — dizia S. Josemaria — está sempre à espera que voltemos para Ele, precisamente porque conhece a nossa fraqueza.”. Oxalá muitos jovens regressem de Cracóvia com o olhar mais limpo e a alma alegre por se terem posto nas mãos da graça divina, por terem sentido o abraço do Pai divino que sempre espera o nosso regresso. Não tenhamos medo, escancaremos as portas à misericórdia de Deus! Esta atitude reconduz-nos ao bem, se o tivermos perdido, e gera novos desejos de amor.
A misericórdia ganha força em nós também quando a exercitamos. Tal é o seu poder, porque possui a capacidade de encher uma vida, de transformar uma existência cinzenta na força poderosa, positiva e pacífica que a nossa sociedade necessita. Um saudável inconformismo caracteriza a alma jovem, como explicava S. Josemaria: “Quando era novo fui rebelde e agora continuo a sê-lo. Porque não me dá na gana protestar por tudo sem dar uma solução positiva, não me dá na gana encher de desordem a vida. Revolto-me contra tudo isso! Quero ser filho de Deus, ter intimidade com Deus, portar-me como um homem que sabe que tem um destino eterno e tem de passar pela vida fazendo todo o bem que puder, compreendendo, desculpando, perdoando, convivendo…”
Estes dias na Polónia proporcionar-nos-ão muitas circunstâncias para nos exercitarmos na misericórdia, no espírito de serviço: o convívio com pessoas desconhecidas, os momentos de espera, o calor e o frio, as horas escassas de sono ou outras incomodidades dar-nos-ão oportunidade para atender e ajudar os outros como o faria Jesus Cristo. Oxalá com esta experiência, cada um regresse à sua casa com um propósito — concreto e pessoal —, que contribua para difundir o poder da ternura de Deus por todos os cantos deste mundo.
Se fizermos destes dias uma escola de misericórdia, cada peregrino voltará ao seu lugar de origem com a mochila carregada de esperança, capaz de distribuir a mãos cheias o tesouro inesgotável que guarda uma alma que se deixou abraçar pelo Senhor.
Prelado do Opus Dei

Padre Jacques Hamel

POVO 28.07.16 
Vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram
Ap 6, 9

PÉRE JACQUES HAMEL

Pére Jacques Hamel estava ali, servindo o Senhor, quando em nome de um deus que não existe, (porque não há nenhum deus que exija a morte, que fomente o ódio, que enalteça a morte dos outros), é barbaramente morto, decapitado, como se por acaso o Deus de infinito amor não recebesse com superlativo amor, aquele que perde a cabeça, (porque apaixonado se deixa guiar pelo coração), no Seu seio, e não fizesse a festa no Céu por aquele que foi sacrificado pelo “rebanho”.

Decapitado ou morto por leões, numa europa que cada vez mais se aproxima dos circos romanos, onde se matava em nome de nada e os cidadãos se compraziam com o espectáculo, anestesiados por governantes corruptos e débeis na vontade, na força e no carácter.

Não, não pode haver vingança a ser servida, mas tão só a realidade dos factos, a justiça que deve ser exercida e exigida, e a demonstração que a civilização tocada por Cristo, é muito melhor do que o ódio que poderia humanamente ser aceitável contra tais indivíduos, porque é uma civilização tocada pelo amor, em que o mandamento principal depois do amor a Deus, é o amor aos outros, mesmos àqueles que nos fazem mal.

É que se nos deixarmos levar por esse ódio, então damos-lhes a vitória, porque perdemos o que de mais sagrado nos une a Deus, que é amor a Ele e aos outros.

Dizem-nos vários relatos dos martírios dos Santos de Deus no Circo de Roma, que eles cantavam, louvavam a Deus, enquanto morriam.

Sem deixarmos a tristeza tão humana inerente à perca de uma vida humana dedicada a Deus, demos também nós graças a Deus por este Seu filho, Jacques Hamel, e alegremo-nos porque temos um Santo no Céu a interceder por nós.

Rezemos também pelos seus algozes, por muito que nos custe, na certeza de que Jacques Hamel junto de Deus, Lhe diz neste momento: Perdoa-lhes Pai, que não sabem o que fizeram!

Tudo e sempre para a maior glória de Deus, nosso começo e nosso fim, nossa confiança e esperança, nossa vida eterna em plenitude.


Marinha Grande, 26 de Julho de 2016
Joaquim Mexia Alves