sexta-feira, 21 de abril de 2017

Francisco e Jacinta: a biografia de um sim

IRMÃ ÂNGELA COELHO E Pe. ALEXANDRE PALMA   OBSERVADOR    20.04.17

O que se vai canonizar, dando como modelo à Igreja e ao mundo, é a liberdade comprometida, o compromisso fiel e fidelidade feliz que, com esse «Sim queremos», se fez vida vivida nos pastorinhas.
Tudo começou com uma resposta. Porque tudo começou com uma pergunta: «Quereis oferecer-vos a Deus»? Assim foi, a 13 de Maio de 1917, na Cova da Iria, aquando desse primeiro diálogo entre a Virgem Maria e os três pastorinhos de Fátima. E a resposta, cheia daquela ousada generosidade tão típica das crianças, estava cheia de futuro: «Sim queremos». Esse seu futuro é hoje, também, o nosso presente. Porque assim se abriu um fecundo caminho de santidade vivida. Uma autêntica biografia de um sim, pessoal e total, comprometido e fiel. Esse sim que agora é reconhecido, de forma pública e afirmativa, como expressão de vida evangelizada. Esse sim que agora, num gesto de toda a Igreja, é canonizado como rosto de santidade.
A biografia deste «sim», diz-nos que a santidade começa por ser chamamento. Deus «con-vida» para uma vida com Ele. No princípio desta biografia, como no princípio de tudo, está Deus, que tudo chama à existência. A santidade é assim, na sua génese e estrutura, o fruto excelente de uma vocação. Mas toda a interpelação pede resposta e compromisso. O «sim» dos pastorinhos é pessoal e comunitário. É plenamente eclesial, portanto. O «sim» dos pastorinhos é, simultaneamente, expressão de confiança presente e profecia de relação nova com Deus. Porque assim foi o itinerário de vida de Francisco e Jacinta. Um sim primeiro, grande como chamamento que os «con-vocara». Um sim repetido, nos muitos pequenos gestos com que se teceram as suas breves vidas. Um sim dito, profecia de um sim vivido. Para nós hoje, profecia realizada e, por isso, expressão certa de vida santificada por Deus. Porque identificação com aquele «sim» eterno que nos introduziu numa nova relação de aliança com Deus: «o Filho de Deus, Jesus Cristo […] não foi um “sim” e um “não”, mas unicamente um “sim”. Nele todas as promessas de Deus se tornaram “sim”» (2Cor 1, 19-20).
Cem anos depois, torna-se claro como a biografia desse «sim» ainda não acabou. Ele continua a ressoar, como continua a interpelar. Porque o que se vai canonizar em Francisco e Jacinta é, precisamente, este «sim» e a vida nova em Deus que ele possibilitou e gerou. O que se vai canonizar é a identificação desse seu «sim» com o «sim» de Cristo, com o «sim» que é Cristo. O que se vai canonizar, dando como modelo à Igreja e ao mundo, é a liberdade comprometida, o compromisso fiel e fidelidade feliz que, com essa resposta, se fez vida vivida nos pastorinhos. O que se vai canonizar, relendo com gratidão esta história centenária de Fátima, é o amor à vontade de Deus, tão cultivado por Francisco, e o dom de si pelo próximo, tão aprofundado por Jacinta. Eis porque o seu «sim» continua vivo. A sua biografia vive agora um momento simbólico de particular intensidade: 100 anos volvidos, no mesmo local, toda a Igreja se reúne, em torno do «bispo vestido de branco», para canonizar o «sim» de Francisco e Jacinta. E assim, essa singela resposta, deixa de ser apenas memória de um passado. Ela é também convite para um presente, profecia de um novo futuro. Porque agora, sabemo-lo, tem-nos a Virgem a seu lado, quando com voz maternal se nos dirige a nós e, a partir de Fátima, pergunta sempre de novo: quereis oferecer-vos a Deus?

O regresso da austeridade quase sem disfarces

HELENA GARRIDO       OBSERVADOR      20.04.17

“Logo se vê e acredita no que digo, não olhes para as estatísticas nem ligues às previsões”: estas as regras dos tempos que correram. O Governo agora começa a assumir a austeridade que sempre aplicou.
A política orçamental do Governo de António Costa foi, e promete ser, mais austeritária do que a concretizada pelo último ano de Governo de Pedro Passos Coelho. As perspectivas desenhadas no Programa de Estabilidade e Crescimento 2017-2021 dizem-nos exactamente isso: a página da designada austeridade não foi nem será virada. Como não podia ser, se o PS continuasse a ser aquilo que sempre foi, um partido que defende a integração de Portugal no euro e o respeito pelos compromissos da República Portuguesa em relação aos tratados que assinou e à dívida que contraiu.
O mais extraordinário dos tempos que vivemos em Portugal é a brutal diferença entre aquela que é a mensagem política e aquilo que de facto o Governo faz. É o ditado popular “faz o que eu digo, não faças o que eu faço” adaptado numa fórmula do género “acredita no que eu digo, sem olhar para as estatísticas, nem para o dinheiro que te entra de facto no bolso e muito menos para o teu poder de compra”.
Portugal já tinha sido um caso de estudo pela resistência que os cidadãos revelaram perante a dose de austeridade a que foram submetidos especialmente em 2012. Volta agora a ser um caso de estudo, para economistas e políticos, que queiram investigar como se aplica uma política de austeridade financeira, com o apoio da esquerda tradicional e moderna, e convencendo a população em geral que a sua vida está e vai ficar muito melhor do que de facto está. É de se lhe tirar o chapéu.
O grande erro cometido por todos quantos há um ano se preocuparam com o futuro do país, no quadro do euro, foi acreditar no que ouviam em vez de esperarem pelos actos antes de se pronunciarem. Os actos revelaram uma profunda contradição com as palavras. Depois de ter devolvido os salários à função pública e algumas pensões, o Governo fez uso de tudo o que tinha à mão, e não era visível de imediato, para reduzir o défice público. Foi tudo de facto histórico. O défice mais baixo da democracia – agora sim com a revisão feita pelo INE – e um dos saldos primários mais elevados do euro são devidamente acompanhados por cativações de despesa historicamente elevados, cortes recorde no investimento público e o já tradicional perdão fiscal.
Claro que a recuperação da economia e especialmente o aumento do emprego ajudaram. Mas até isso pode ter surpreendido o próprio Governo – nunca o saberemos. É apenas uma hipótese a colocar face ao resultado de 2% obtido no défice — bastava ter chegado aos 2,3% para se considerar um bom resultado, mesmo do ponto de vista da prova da sustentabilidade da dívida (prova e não realidade). Olhando para trás, percebe-se que o Governo pode ter sobre-reagido e até desperdiçado um das armas que pode precisar mais tarde, a do perdão fiscal.
Quando se olha para o que se passou nas contas públicas em 2016 e aquilo que o Governo promete fazer este ano e nos próximos, através do Programa de Estabilidade e Crescimento 2017-2021 (PEC17-21), percebemos que António Costa persegue o mesmo objectivo do seu antecessor Pedro Passos Coelho: controlar o “monstro” financeiro em que se transformaram as administrações públicas e especialmente o Estado central. E percebe-se melhor agora do que há um ano porque, finalmente, António Costa pode começar a mostrar o seu jogo, condicionados que estão os partidos de esquerda que o apoiam.
É de facto uma pena não se conseguir saber exactamente qual seria a realidade alternativa. Mas podemos fazer um exercício apenas económico-financeiro do que teria sido a continuidade de Pedro Passos Coelho na governação. (Apenas no domínio da economia e das finanças, porque a dinâmica política teria sido completamente diferente, nomeadamente na vida do PS que estava sob séria ameaça se não tivesse subido ao poder).
Comecemos pelo mais fácil que é a diferença entre o que se prevê e aquilo que foi a troika. A diferença mais significativa em relação aos anos da troika está na dose. O medicamento para a grave doença das finanças públicas tem a mesma substância activa: apertar o cinto de quem trabalha para o Estado e de todos os que pagam impostos. As doses da medicação são agora obviamente mais baixas, porque não estamos à beira da bancarrota e sem acesso a financiamento. Agora a austeridade pode aproveitar a recuperação já obtida com a terapia de choque do passado e a retoma da economia ditada em grande parte pelo turismo. Além disso, e não menos importante, criou-se para o “doente” um ambiente de descontracção, garantido pelo discurso do Governo de fim da austeridade e pela aliança com o PCP – o dono das manifestações de rua – e com o Bloco – que que se pode dizer, simplificadamente, que influencia mais o espaço da opinião publicada.
O que poderia ser diferente sem nunca termos a certeza que o seria? O ano de 2016 poderia ter sido menos turbulento, menos volátil, com um horizonte mais claro, aquele que só agora se está a conseguir ter. Ou seja, a margem de manobra política que António Costa ganhou em 2016 teve como preço a incerteza gerada pelo discurso agressivo contra a Europa e a dita austeridade e pelas medidas de “reversão” adoptadas nos primeiros meses de governação. Como é que esse preço se consubstanciou na economia? Não sabemos. Resta-nos admitir a hipótese de que o investimento seria mais alto – com elevada probabilidade. Recorde-se que a reposição de salários da função pública prometida por Passos Coelho era mais lenta, o que significa que poderia ter gasto mais em investimento público. De alguma forma, António Costa trocou investimento público pela reposição de salários.
Além disso, podemos admitir que as taxas de juro da dívida pública (aqui avaliadas pela média mensal da taxa de rendibilidade a 10 anos) estariam mais baixas e a avaliação do risco do país poderia já ter subido. No caso do ‘rating’ é aliás interessante verificar que só agora, há uma semana, é que começam a surgir análises sobre a possibilidade de o risco de Portugal melhorar a curto prazo. Foi o caso do Commerzbank – a admitir que a DBRS pode melhorar o ‘rating’ de Portugal – ou da Standard & Poor’s a sistematizar as condições em que a sua classificação pode subir: se a economia recuperar e o crédito malparado baixar. Parece óbvio ma saté há bem pouco tempo o problema não era colocado desta forma. Pelo contrário, o que se discutia era o risco de baixar o ‘rating’ e não as condições para o subir.
Em termos gerais, neste exercício de realidade alternativa, é possível admitir que o crescimento da economia seria mais elevado por via da confiança de quem investe já que a confiança de quem consome – para a qual se dirigiu o actual Governo – teve um efeito mas limitado que pode também ser explicado pela falta de confiança do sector privado.
Mas ponto a que chegamos hoje permite-nos respirar de alívio porque as piores perspectivas não se confirmaram. O Governo não fez o que disse que ia fazer e deu-nos uma austeridade disfarçada, com menos investimento e mais impostos indirectos, daquela que só conseguimos perceber passado algum tempo, animados (ou preocupados) que estávamos com o que António Costa e Mário Centeno nos diziam. E podemos ainda dar um segundo suspiro de alívio quando lemos o Programa de Estabilidade. Estão lá os objectivos de honrar os compromissos financeiros e reduzir a dimensão do Estado. Só não sabemos como é que o Governo o vai fazer. Mas a austeridade que já existia é agora assumida, com menos disfarces, menos mascarada.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Amoris Laetitia é um "documento orientador de um estilo pastoral"

FAMÍLIA CRISTÃ   19.04.17


Um ano depois da publicação da Amoris Laetitia, a exortação apostólica pós-sinodal sobre a família, o Pe. Duarte da Cunha, secretário do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e especialista em assuntos da pastoral da família, considera que este documento é «apenas uma etapa neste caminho que continua e que tem como pretensão acompanhar as famílias, discernir e enfrentar o objetivo de compreender o que é que Deus nos pede para fazer». «A certa altura do Sínodo, houve um pedido ao Papa para que escrevesse um documento conclusivo de todos os debates doutrinais que estavam em jogo, mas não era esse o objetivo do Papa Francisco, e por isso fez um documento orientador de um estilo pastoral», considera o sacerdote português.
Antes do lançamento da sua nova obra, Pensar e decidir em Família, onde faz uma leitura da exortação apostólica do Papa, o Pe. Duarte esteve à conversa com a Família Cristã sobre a exortação que deixou «muita gente assustada». «Quando faço o balanço, não posso dizer que está a ser fácil. Até pode estar a correr bem, mas há coisas que não são claras como abordar, para além até das famosas dubia dos quatro cardeais, há pessoas com dúvidas concretas relacionadas com o capítulo VIII», refere o sacerdote.

Apesar disto, ressalta do documento a vontade do Papa «em dizer que não estejam tão preocupados com grandes discussões intelectuais, mas arrisquem a aproximar-se das pessoas». «Mesmo que não tenham a certeza do que precisa de ser feito, é preciso amar essas pessoas», diz o Pe. Duarte.
Da extensa exortação, o Pe. Duarte da Cunha retira duas palavras, que resumem o tal estilo pastoral do documento. «Acompanhamento e discernimento: acompanhar noivos, casais novos, casais em crise, com situações, difíceis, a educação dos filhos… estar com, ajudar, pensar, incentivar, corrigir e ter uma proposta. Um acompanhamento que serve para iluminar, como Jesus no caminho de Emaús, que não se limita a caminhar com eles, mas explica-lhes as leituras; e um discernimento que implique um pensar, um decidir, ver a realidade em todos os seus fatores, e um pensar que seja em ordem a uma compreensão da ação», explica o sacerdote.
Um discernimento que, muitas vezes, é mal-entendido. «Muitos confundem o discernimento com um “estive a pensar e acho que…”, e não é nada disso. O problema do discernimento na cultura atual é que é contracultura. Implica parar, escutar e olhar, e isso na sociedade acelerada em que vivemos não é imediato. É preciso uma educação ao discernimento, uma atitude que procura escutar e pensar nas dificuldades, das famílias e das pessoas individuais.
Depois é preciso distinguir o que é o discernimento das pessoas sobre a sua própria vida e o que é o discernimento dos pastores sobre aquilo que devem ensinar e explicar às pessoas. Eu posso ajudar uma pessoa a discernir, mas tenho de fazer um discernimento sobre as coisas que lhe posso propor e as que não posso. E a Amoris Laetitia diz que o discernimento deve ser de acordo com aquilo que a Igreja ensina, com a vontade do bispo. O discernimento é uma tentativa de procurar compreender como é que esta situação é iluminada pela Palavra de Deus, pela doutrina da Igreja», avisa o secretário da CCEE.
Uma “novidade” da exortação que foi esquecida nos sínodos… o Amor



E é por isso que considera que, apesar de uma maior abertura para receber pessoas em situações irregulares ou até de situações complicadas como a poligamia em África, este caminho não poderá ir até aos sacramentos. «É importante não mudar nada da doutrina, mas acompanhar muito, estar perto, arranjar soluções para que as pessoas não sejam discriminadas, podem fazer leituras, estar na igreja, serem padrinhos de batismo, abriria a tudo isso sem dificuldade, sem nunca deixar de dizer que não é a mesma coisa que um casamento válido. O acesso à comunhão e à confissão implica reconhecer que a pessoa que vive maritalmente está casada com a bênção de Deus, e como para os batizados estar casado com a bênção de Deus significa o sacramento, como é que posso dizer, quando há um vínculo de um primeiro sacramento, que há um vínculo com outra pessoa, e que aqui não há uma situação de adultério?», questiona o sacerdote.
Muito do debate que se vem tendo sobre a exortação sobrevaloriza o capítulo VIII em detrimento do resto do documento, principalmente do capítulo IV, que, diz o Pe. Duarte, foi uma novidade em relação aos sínodos. «A exortação apostólica tem uma coisa que não se nota muito, mas é importante. Nos dois sínodos, ninguém falou no Amor. Não se percebeu o que é o amor cristão envolvido numa família. E o Papa introduziu o capítulo IV na exortação, dizendo “isto não foi tratado, mas é um tema essencial”. Ele explica a vivência do Amor dentro de uma família como um grande desafio», sustenta.
Sem conhecer «o impacto futuro da Amoris Laetitia na história da Igreja», o Pe. Duarte da Cunha sempre vai adiantando que a hipótese de cisma, que muitos colocam é «exagerada». «Continua a haver tensões, e na próxima semana haverá um polémico congresso em Roma sobre estes temas, mas dizer que haverá um cisma é exagerado. Eu não vejo os bispos em ambiente de cisma, vejo-os chateados uns com os outros, mas hoje é por causa deste tema, ontem era por causa de outro. Não deixam de se falar, discutem, mas os sínodos e concílios na história da Igreja foram sempre assim», considera.
Para este sacerdote, «há pessoas que não estão de acordo», e por isso é preciso enfrentar os problemas com realismo, a fidelidade à Tradição, mas sem ficar estagnado. Tem de haver um desenvolvimento que não seja invenção, mas continuidade», defende.

Até porque, conclui o secretário da CCEE, «o que é preciso é debater e discutir, e depois encontrar a luz do Espírito Santo para andar para a frente, e muitas vezes ceder, e dizer que prefiro estar com a Igreja do que estar só comigo. Se for preciso mudar de opinião, eu mudo, porque o que quero é estar com a Igreja».


Um livro com «dimensão pastoral fortíssima de apoio às famílias»
No lançamento da obra que aconteceu ontem na Igreja do Campo Grande, estiveram presentes Mons. Feytor Pinto, pároco do Campo Grande, e Tó e Zé Mouta Soares, casal das Equipas de Nossa Senhora. Mons. Feytor Pinto agradeceu a presença do Pe. Duarte e o ter decidido lançar o livro na sua paróquia e destacou a «síntese fantástica que o Pe. Duarte fez». «É um livro de uma riqueza muito grande, com uma dimensão pastoral fortíssima no apoio às famílias», considerou.
Já o casal convidado enalteceu «tudo o que o Mons. Duarte da Cunha tem feito pelos nossos casais e pela Igreja» e desejou que «a sua verdadeira pastoral faça ver o Evangelho e introduzir os homens na intimidade de Deus, como seus filhos».
Tomando a palavra, o Pe. Duarte agradeceu a presença de todos e explicou que «antes de se fazer seja o que for, devemos olhar para Deus». «Só depois de conhecermos o que Deus nos pede é que podemos olhar para a realidade», afirmou.
Segundo ele, não se pode falar de um Evangelho da Família, porque «a família cristã é uma expressão do Evangelho, é o anúncio do Evangelho na sociedade».

Vaticano: Portugal vai ter novo santo a 15 de outubro

AGÊNCIA ECCLESIA   20.04.17

Padre Ambrósio Francisco Ferro morreu durante perseguições do século XVII, por tropas holandesas

Cidade do Vaticano, 23 mar 2017 (Ecclesia) - O sacerdote português Ambrósio Francisco Ferro, morto no Brasil a 3 de outubro de 1645 durante perseguições anticatólicas, por tropas holandesas, vai ser canonizado a 15 de outubro, anunciou hoje o Vaticano.
O futuro santo faz parte do grupo dos chamados “protomártires do Brasil”, que foram mortos no atual território da Arquidiocese de Natal, então sob jurisdição portuguesa.
As perseguições do século XVII custaram a vida aos padres André de Soveral e Ambrósio Francesco Ferro, além do leigo Mateus Moreira e outros 27 companheiros.
A 16 de julho de 1645, o padre André de Soveral e outros 70 fiéis foram c mortos por 200 soldados holandeses e índios potiguares, quando celebravam a Missa dominical.
A 3 de outubro de 1645, houve o "massacre de Uruaçú" no qual o padre Ambrósio Francisco Ferro foi torturado e assassinado. 
Estes fiéis católicos foram beatificados por João Paulo II, no Vaticano, a 5 de março de 2000, que os apresentou como “as primícias do trabalho missionário, os protomártires do Brasil”.
No local do massacre foi erguido o ‘Monumento dos Mártires’.
A data e local para a canonização foram anunciadas hoje após um Consistório Público, reunião formal do Papa com cardeais, no Palácio Apostólico do Vaticano.
Além dos mártires do Brasil, vão ser canonizados a 15 de outubro, no Vaticano, três jovens mártires mexicanos (Cristóforo, António e João), o padre espanhol Faustino Míguez e o religioso capuchinho Angelo de Acri, italiano.

Um 'cantinho de Fátima' em Lisboa

VOZ DA VERDADE 16.04.17

Uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, duas imagens de Francisco e Jacinta Marto, um queimador de velas e a oração diária do Terço. É ‘Um cantinho de Fátima perto de si’ que acontece diariamente na Igreja dos Pastorinhos, em Alverca, a primeira no mundo a ser dedicada aos futuros santos.

Na Igreja dos Pastorinhos, em Alverca, à esquerda do altar, encontra-se Maria. “Temos a graça de ter, na igreja, uma das imagens peregrinas de Nossa Senhora, oferecida pelo Santuário de Fátima aquando da dedicação da igreja, em 2005. Foi uma imagem que chegou a Alverca num helicóptero, que aterrou no estádio de futebol”, lembra ao Jornal VOZ DA VERDADE o pároco de Alverca, padre Paolo di Gennaro. Do lado direito do altar, estão duas imagens dos pastorinhos de Fátima, oferecidas pela Postulação para a Canonização de Francisco e Jacinta Marto, e que chegaram a Alverca no mesmo dia, também por meio aéreo. Por baixo do altar, foram colocadas relíquias dos pastorinhos. “Não estão visíveis, mas foram colocadas mesmo por baixo de onde o celebrante tem os pés quando está no altar. É uma graça muito grande”, acrescenta o sacerdote italiano. Esta foi a primeira igreja do mundo a ser dedicada aos pastorinhos de Fátima. “Como temos a imagem peregrina de Nossa Senhora, de facto é um pedacinho de Fátima que temos sempre aqui, em Alverca”, observa, lembrando-se do lema ‘Um cantinho de Fátima perto de si’ que foi colocado, neste ano de centenário das aparições, num vidro no adro da igreja.
Junto ao queimador de velas, a frase ‘Pastorinhos de Maria sede a luz que nos leve até Jesus’ recebe quem ali vai. Situado na parte de fora da igreja, sobre o lado direito, este é um espaço visitado diariamente pelos fiéis. O Terço diário leva também muitos cristãos à Igreja dos Pastorinhos. “Todos os dias, às 18h00 durante a semana e às 18h30 aos sábados e Domingos, rezamos o Terço, como Nossa Senhora pediu. É como se fosse em Fátima”, assegura o padre Paolo.
O carrilhão da Igreja dos Pastorinhos é “o segundo maior da Europa e o terceiro do mundo” e é também “uma atração” para Alverca. “Está predisposto para 72 sinos, tendo atualmente 69. Um será o sino da irmã Lúcia – os dois maiores sinos são os de Francisco e Jacinta – e ainda para mais dois, mas temos de encontrar dinheiro. Duas vezes por mês, ao Domingo à tarde, entre as 17h00 e as 18h00, temos concertos que se ouvem por toda a cidade”, refere o sacerdote, salientando que a paróquia “recebe ainda a visita de carrilhonistas de todo o mundo”.
Junto à igreja, os corredores do Centro Paroquial João Paulo II – onde fica situado o atendimento, as salas de catequese e os gabinetes dos sacerdotes –, são embelezados por fotos de Fátima e dos pastorinhos. Noutro espaço da igreja, junto à livraria, uma exposição de fotografias, em diversos painéis, conta a história das aparições e também da própria Igreja dos Pastorinhos. “São muitas as ligações desta igreja a Fátima”, frisa o pároco.

A primeira!
Nos anos 80, a necessidade de uma nova igreja em Alverca era cada vez mais sentida pela comunidade. “A Paróquia de Alverca do Ribatejo tinha a Igreja de São Pedro, muito bonita mas com capacidade para pouco mais de 100 pessoas, e que era manifestamente pequena para o crescimento que Alverca teve nos anos 60, com o desenvolvimento da indústria. A comunidade celebrava também a Eucaristia numa garagem, no Bairro do Bom Sucesso, e em duas capelas, uma junto ao rio e a outra no alto, nas colinas, ambas para cerca de 20 pessoas, pelo que a necessidade de uma nova igreja em Alverca era grande”, explica o pároco, lembrando que, “nas primeiras comunhões e nos crismas, a paróquia tinha de alugar o pavilhão”.
Por volta de 1997, o padre José Maria Cortes chega a Alverca como pároco e o projeto começa a desenvolver-se. “Na altura, o padre José Maria tinha 28 anos, tinha sido ordenado há dois, e chegou com o objetivo de, finalmente, avançar com a nova igreja”, lembra o padre Paolo, recordando ainda que “a cedência do espaço pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira caducava em 2000 se não começassem as obras”. “A primeira pedra foi colocada precisamente nesse ano 2000, pelo senhor D. José Policarpo, então Cardeal-Patriarca”, frisa. A construção da nova Igreja dos Pastorinhos, em Alverca, terminou em maio de 2005, há quase 12 anos. “Esta é não só a primeira igreja em Portugal dedicada aos pastorinhos, como também a primeira igreja no mundo!”, salienta o pároco de Alverca.

Testemunho e ligação
Porquê uma igreja dedicada aos pastorinhos? “Na altura, e ainda hoje, Alverca era uma cidade com muitas crianças e muitos jovens. Pensou-se, por isso, na figura de duas crianças para esta nova igreja, porque também havia a necessidade de acolher as crianças, o que não se conseguia na velha igreja. Depois, pela mensagem e pela importância que Fátima tem para o país”, justifica, sublinhando que a nova igreja procura também chegar àqueles que estão mais afastados: “Em Itália, uma pessoa que não acredita em Deus não se interessa por santuários; aqui, mesmo as pessoas que não vêm à Missa têm uma ligação e respeito por Fátima”. O pároco acredita que a Igreja dos Pastorinhos tem cumprido esta dupla missão. “Chegámos a ter mais de 500 crianças na catequese e, hoje em dia, mesmo com a descida demográfica dos últimos anos, temos cerca de 440 crianças nos 10 volumes”, aponta, assegurando ser preciso “apostar nas crianças, porque foram elas que trouxeram os pais de volta à Igreja”.
Salientando que “a Igreja dos Pastorinhos está numa localização privilegiada”, com as escolas bem perto, o padre Paolo frisa que “todos os jovens passam por aqui, pela rua”, e lamenta haver “muitos, muitos, muitos, até centenas”, que não conhece. “Para mim, é um desafio chegar a eles e encontrá-los”, assume. “Em Alverca vivem 35 mil pessoas. Nós temos sempre a igreja cheia – pelos nossos cálculos, nas várias celebrações do fim de semana participam duas mil pessoas –, mas há ainda gente que não conhece Jesus Cristo”, acrescenta.
No ano da dedicação da Igreja dos Pastorinhos, em 2005, foi organizada uma grande procissão noturna de Nossa Senhora, “de cinco quilómetros”, com início no Bairro de Arcena, no cimo da colina, “que fica do outro lado de Alverca”, e que atravessou toda a cidade. “Nos outros anos fizemos a procissão de velas mais curta, desde a igreja matriz, mas nos dez anos da Igreja dos Pastorinhos, em 2015, repetimos esta grande procissão. Foi uma coisa impressionante, eu nunca tinha visto nada assim. Fiquei mesmo comovido, as pessoas colocaram as colchas brancas nas janelas, tudo para receber Nossa Senhora”, lembra o padre Paolo, sublinhando que este ano, “por ser ano do centenário das aparições, no dia 6 de maio, sábado, a Paróquia de Alverca organiza novamente a grande procissão de velas”.

O desafio económico 
É um desafio pagar a Igreja dos Pastorinhos, segundo o pároco. “Todos sabem que estamos a pagar a igreja, e temos de continuar a pagar. É um desafio porque nos ajuda a não dar por adquirido a casa que temos. Quando temos de fazer sacrifícios para alguma coisa é que nos perguntamos se vale a pena. Este desafio é uma provocação boa e que nos coloca continuamente diante desta pergunta. Mas vale, com certeza, o esforço porque vemos o fruto da evangelização que temos com a Igreja dos Pastorinhos”, observa.
O Grupo dos Amigos da Igreja dos Pastorinhos tem sido também uma ajuda económica. “Este grupo tem famílias e pessoas individualmente, sobretudo de mais idade, que apoiam economicamente a igreja, com uma quota mensal, e que nós acompanhamos numa peregrinação a Fátima por ano. Temos também um almoço anual”, refere o padre Paolo, lembrando ainda que, duas vezes por ano, em março e setembro, a paróquia publica a revista ‘Amigos dos Pastorinhos’, que “faz parte das ações de fundraising [captação de recursos] para ajudar a pagar a nova igreja”. 

Canonização a 13 de maio?
A Paróquia de Alverca recebeu “em grande festa” a notícia da canonização dos pastorinhos de Fátima. “Dia 20 de abril [data do consistório, no Vaticano] vamos saber onde e quando será a canonização de Francisco e Jacinta Marto. Soubemos a informação um pouco antes da Missa e, durante a celebração, rezámos logo para que a canonização seja no dia 13 de maio, em Fátima”, assume o padre Paolo di Gennaro. “Se for em outubro, em Roma, iremos com certeza organizar uma peregrinação e temos de fazer chegar ao Santo Padre a notícia de que está presente uma delegação da primeira igreja do mundo dedicada aos pastorinhos. Talvez consigamos uns lugares mais à frente”, acrescenta, entre sorrisos, o pároco de Alverca.
  
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Imagens da beatificação em Alverca
Recorda-se das duas grandes imagens de Francisco e Jacinta Marto que embelezaram a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, durante a celebração de beatificação dos pastorinhos, no ano 2000? São essas duas imagens que agora estão presentes, junto à entrada, na Igreja dos Pastorinhos, em Alverca. “As duas imagens foram oferecidas à paróquia pelo Santuário de Fátima. É um grande privilégio que temos”, reconhece, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o pároco de Alverca, padre Paolo di Gennaro.
  
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Livro ‘Os Pastorinhos de Fátima’ apresentado em Alverca
No próximo dia 30 de abril, Domingo, pelas 15h00, a Paróquia de Alverca vai receber Madalena Fontoura, autora do livro ‘Os Pastorinhos de Fátima – iguais a todos, iguais a nós’, para uma conferência sobre esta obra que tem a chancela da Lucerna (Principia Editora).
  
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Uma fraternidade sacerdotal nascida no movimento Comunhão e Libertação
Além de ter a primeira igreja do mundo dedicada aos pastorinhos de Fátima, a Paróquia de São Pedro de Alverca do Ribatejo tem ainda a particularidade de ser a única paróquia do país confiada à Fraternidade Sacerdotal dos Missionários de São Carlos Borromeu, fundada pelo então padre Massimo Camisasca, Bispo desde 2012. O pároco, padre Paolo di Gennaro, de 38 anos, é natural de Milão, em Itália, e depois da licenciatura em Medicina e Cirurgia fez o seminário em Roma, onde estudou Filosofia e Teologia, na Pontifícia Universidade Lateranense. Após a ordenação diaconal, veio para Alverca, em agosto de 2009. Em junho de 2010 é ordenado sacerdote e, desde então, tem cumprido a sua missão nesta paróquia às portas de Lisboa, tendo sido quatro anos coadjutor e os últimos três, desde maio de 2014, pároco. O padre Paolo conta com a colaboração de três vigários paroquiais (coadjutores): os padres Giovanni Musazzi e Raffaele Cossa, italianos, e Luis Miguel Hernández, espanhol, que antecedeu o atual pároco. “Somos uma fraternidade sacerdotal de vida comum, uma sociedade de vida apostólica, de direito pontifício, que nasceu no seio do movimento Comunhão e Libertação, em 1985. Tem como pilares de vida, segundo o carisma eclesial de monsenhor Luigi Giussani [na foto], a missão – portanto, a disponibilidade em ir para qualquer lugar onde a Igreja precise – e a vida comum, porque somos sacerdotes que vivemos em comunidade, em casa, rezando, como se fosse um pequeno mosteiro” explica, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Paolo.
A fraternidade “está presente em Itália e Portugal, onde chegou em 1999, mas também em vários países do mundo como Espanha, Áustria, Alemanha, República Checa, Rússia, Taiwan, Quénia, Estados Unidos e América Latina – Chile, Paraguai e Brasil”.

Eles queriam dar aos filhos “a melhor escola possível”. Por isso, construíram-na

PÚBLICO 19.04.17

Escolas não faltam em Mafra, mas nenhuma oferecia aquilo que queriam. Um grupo de encarregados de educação de um colégio no concelho decidiu, por isso, abrir os cordões à bolsa e construir “a melhor escola possível”, a que reunia tudo o que imaginavam para o local de ensino dos filhos.



Procurando dar continuidade ao modelo educativo do Colégio Verde Água, fizeram crescer a escola que os filhos já frequentavam: até então apenas creche e pré-primária. Em Setembro, abrem portas as instalações de 1.º e 2.º ciclo, três anos e dois milhões de euros depois.
A ideia surgiu em conversa com três pais. Ricardo Calvão Silva era um deles. “Já que aqui não há e se a gente fizesse?”. Foi uma “questão que surgiu naturalmente”. Os filhos estavam a acabar a creche, os seis anos impunham que se procurasse uma escola primária. Este foi o primeiro plano: desenhar um plano de investimento, com capital próprio, para construir uma escola do primeiro ao quarto ano.
Faltava o know how que João Gavilan, um dos directores do colégio, tinha. Pensavam que convencê-lo seria o cabo dos trabalhos. “No quadro actual das coisas”, não passava pela cabeça dos directores – João e a mulher – fazer um investimento desta envergadura. “Mas a ideia estava de alguma forma recôndita na nossa mente”, conta. Acabaram por alinhar.
Quando partiram para a concretização, já eram cinco pais mais os directores. O projecto começou a ser pensado: arranjar terreno, concretizar ideias, reunir consensos, projectar uma escola que espelhasse os desejos de cada um. Depois, surgiu a necessidade de dar outro passo: crescer para o quintos e sextos anos. “Senão daqui a quatro anos íamos novamente bater na mesma questão”, antecipava Ricardo.
Juntaram-se mais dois pais, uma colaboradora da creche e um amigo. Fixou-se o preço final: dois milhões de euros.
Desde que a ideia começou a ser maturada passaram três anos. Dois de obras. Hoje, as paredes estão todas de pé e a relva já cresce.
Ainda poucos sabem da existência desta escola. Começaram a distribuir panfletos no final de Março. As pré-inscrições vão em poucas dezenas. Em Abril partiram para as visitas guiadas à escola para quem a quiser conhecer. Ainda não estão definidos os preços de inscrição nem das academias (actividades extracurricular para alunos do colégio e externos). A mensalidade de 1.º e 2.º ciclos irá rondar os 400 euros.

De pai, fez-se sócio
Para além de encarregado de educação, Ricardo é agora sócio da escola do filho. Garante que a ideia não é seleccionar os alunos. Mas a escola, 1.º e 2.º ciclos, nunca ultrapassará os 300 alunos. 250 era o ideal. O objectivo é criar micro-aldeias, “onde toda a gente se conhece”. As turmas não ultrapassam os 25.
Quando João Gavilan fala do modelo de ensino as frases saem-lhe redondas. “Tem como metodologia de base a escola moderna”; “O aluno é o centro de todo o processo de aprendizagem”. Trocado por miúdos, a intenção é que o aluno frequente a escola “não só pelas competências formais, mas pelas vivências de cidadania, habilitações informais e espírito crítico”. Explorar novas práticas pedagógicas que estimulem a autonomia e o espírito crítico dos alunos é um dos desígnios.
Há academias dentro do colégio com o objectivo de abrir o leque de qualificações e experiências dos alunos. A academia das artes, da música, do desporto (ginástica, esgrima, jiu jitsu, dança, ballet), das línguas (alemão, mandarim e espanhol) são espaços abertos a alunos do colégio e externos.
Directa e indirectamente, João espera criar 40 postos de trabalho. Tudo vai depender do sucesso das academias.
“Fazer este modelo de ensino coincidir com os espaços” era uma exigência de todos os sócios. Dos 11 mil metros quadrados de terreno, mais de metade são espaços de recreio. Uma parte é relvado. Há um ginásio, anfiteatro interior, salas e corredores largos.
Há um corredor principal que funciona como elo de ligação entre toda escola. Quer no sentido literal: é o espaço para onde se caminha para qualquer sala; quer no sentido figurado: é o local onde se encontram os alunos do primeiro ao sexto ano, e estes convivem com várias formas de expressão e de aprendizagem. O espaço é criado a pensar em exposições, palestras e eventos culturais. “É assim uma escola pensada de raiz?”, Ricardo Calvão Silva quer pensar que sim.

Na China os cristãos já se escondiam antes de nascer

FILIPE D'AVILLEZ      RR ONLINE    11.0417


Santiago é diácono e vai ser ordenado padre no Verão. Será uma celebração discreta, secreta mesmo, na casa do bispo, que está em prisão domiciliária. Ser cristão na China é assim.


Os cristãos na China estão habituados a andar escondidos. O Estado reprime qualquer organização religiosa que não esteja sob seu controlo directo, o que leva os católicos que desejam manter-se fiéis ao Papa a serem discretos ao máximo para evitar complicações com as autoridades.
Santiago – opta por identificar-se pelo nome de baptismo porque não pode divulgar o nome próprio – é seminarista chinês, mas o seu bispo enviou-o para a Europa para fazer os seus estudos. De visita a Portugal, a convite da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, falou com a Renascençasobre as dificuldades de viver a fé na China.
Sendo um de cinco irmãos, as dificuldades começaram bem cedo, devido à lei chinesa do filho único.
“Para nós foi uma experiência de fé. Porque a lei começou nos anos 80, mais ou menos quando eu nasci. Devido a esta lei, os pais católicos sofriam muito para poderem ter mais filhos porque para nós o aborto é impensável – é matar uma criança com alma e corpo”, conta.
“Por isso, os meus pais, para evitar isso, tiveram muitas vezes que viver escondidos, separados de nós, deixando-nos sozinhos em casa. Viviam escondidos para fugir à polícia.”
Roma e Pequim
Devido à intervenção do Estado, existem duas organizações católicas na China. Uma Igreja “oficial”, que é reconhecida pelo Estado e responde perante a Associação Católica Patriótica, e outra “clandestina”, fiel ao Papa.
A grande disputa entre Roma e Pequim é a nomeação dos bispos. A China insiste que tem o direito de nomear bispos para os fiéis do seu país, mas Roma não cede. Decorrem negociações, mas são complicadas.
O bispo de Santiago, por exemplo, recusa submeter-se à Associação Patriótica e por isso encontra-se em prisão domiciliária. “Até hoje ele tem-se mantido sempre firme na fé. Porque, para ele, ser um bispo da Igreja Católica é ser fiel à doutrina da Igreja. Por exemplo, estar em plena comunhão com o Papa e exercer o seu ministério segundo a doutrina que a Igreja nos ensina, obedecer ao Papa e ter consciência da universalidade da Igreja”, explica o seminarista.
Apesar das dificuldades, a perseguição aos cristãos já foi pior e, mesmo actualmente, o grau varia de região para região. Os tempos mais difíceis foram os da Revolução Cultural, quando todo o episcopado e a esmagadora maioria dos sacerdotes foram enviados para campos de trabalho. “Ao fim de 30 anos houve uma certa abertura e os padres já podem receber uma certa formação. Mas, como a formação é mínima, para receber uma boa formação é necessário um estudo sólido na doutrina, por isso fui enviado para a Europa para estudar um pouco. Fiz o seminário em Toledo, em Espanha, e agora estou a estudar em Roma. Quando terminar os estudos, regressarei para servir a Igreja e ajudar um bocado, sobretudo na formação”, diz Santiago.
Chegar à Europa não foi tarefa fácil. “O Governo dá-nos o passaporte, mas o visto é feito nas embaixadas. Foi muito difícil conseguir o passaporte porque quando fui à polícia pedir diziam que não me iam dar, porque era católico. Foi assim durante cerca de três meses. Mas pela graça de Deus – e eu vejo aí uma clara intervenção de Deus –, em 2008 houve os Jogos Olímpicos e durante algum tempo todos podiam receber o passaporte. Aí, o visto era o mais fácil. Se o Governo soubesse que eu vinha estudar, seguramente não me deixaria vir. Mas graças a Deus estou aqui.”
Quem é bom? Deus ou o Governo?
A Revolução Cultural foi um tempo de muitos mártires, mas também de histórias que hoje sustentam a fé dos cristãos actuais. “Naquela altura em cada povoação fazia reuniões em que perguntavam aos católicos se queriam deixar a fé ou não, ou então perguntavam: ‘Quem é bom? Deus ou o Governo?’. Quando chegou a sua vez, o meu avô disse: ‘Deus é bom’. Só por isto começaram a persegui-lo. Não só uma vez, mas todos os dias, porque ele tinha dito que Deus é bom.”
“Todos os dias faziam a reunião para o criticar, para insultá-lo, e, no final, ele pegou no meu pai e disse-lhe que um dia, por fraqueza, poderia negar a fé. Então, levou o meu pai e fugiram para não negar a fé. Disse: ‘Vamos para a montanha e levamos alguma comida. Quando acabar a comida morremos, mas não negamos a fé’. Isso, para mim, é um exemplo porque para manter a firmeza da fé, está disposto a dar a vida. É um exemplo”, recorda Santiago.
As dificuldades impostas pelo Governo e a natural estrutura hierárquica da Igreja tornam a evangelização difícil. O resultado é que as igrejas evangélicas, descentralizadas e organizadas informalmente em casas de fiéis, têm crescido a olhos vistos no país. Mas Santiago garante que católicos e protestantes não se encaram como adversários.
“Eles também são cristãos, têm a sua fé! Eles também vivem a sua fé e tentam evangelizar os outros para que possam conhecer Cristo, é uma coisa positiva. E para nós, católicos, são um exemplo, porque eles estão a fazer muitos sacrifícios. Os protestantes também são perseguidos. Quando não se querem submeter ao regime não podem viver a fé com liberdade, não podem anunciar o nome de Cristo com liberdade”, diz.
O jovem seminarista, que estuda actualmente em Roma, já foi ordenado diácono e este Verão, “se Deus quiser”, será ordenado padre. Mas a ordenação sacerdotal será muito diferente da dos seus colegas seminaristas europeus. Não haverá festa nem celebração pública. Tudo decorrerá na casa do bispo e em segredo – mas com fé.

Se lhe interessou esta notícia leia aqui a entrevista na íntegra.

"Quem é bom: Deus ou o Governo?" O meu avô respondeu Deus

FILIPE D'AVILLEZ   WWW.ACTUALIDADE RELIGIOSA.BLOGSPOT.PT


Transcrição integral da minha entrevista ao seminarista "Santiago" de nacionalidade chinesa. A identidade verdadeira é mantida em segredo por questões de segurança. 
Veja a reportagem da RRonline aqui



Nasceu numa família católica? Ou converteu-se?
Sim, nasci numa família católica, eramos cinco irmãos.

Disse cinco irmãos?
Sim, cinco irmãos.

Como é que isso foi possível? Na China não havia a lei do filho único?
Sim. Para nós foi uma experiência de fé. Porque a lei começou nos anos 80, mais ou menos quando eu nasci, e então, segundo esta lei os pais católicos sofriam muito para poderem ter mais filhos, porque para nós o aborto é impensável, é matar uma criança com alma e corpo, por isso, para os pais católicos, os filhos não nascidos também são vida. Por isso os meus pais, para evitar isso, tiveram muitas vezes que viver escondidos, separados de nós, deixando-nos sozinhos em casa, viviam escondidos para fugir à polícia.

Porque durante muitos anos, se a polícia os encontrasse podia cobrar uma multa ou, se a mulher ainda estivesse grávida, podia levá-la a uma clínica e obrigá-la a abortar. Ou tirar-nos tudo o que temos em casa, destruir a casa. Foram situações difíceis, mas a fé ajudou-nos e sustentou-nos sempre para viver firmes.

Há quantas gerações é que a sua família é católica?
Isso não se sabe. Como não temos um livro das gerações da família, mas segundo o que sei os meus pais, os meus avós, todos são católicos.

Pelo menos terceira geração, possivelmente mais...
Sim.

Como é actualmente ser católico na China?
Há muito tempo que a Igreja não tem a liberdade de viver a fé, por isso hoje em dia não é fácil ser católico. Sobretudo ser padre ou bispo é muito complicado, porque o Governo tenta sempre convencê-los a juntarem-se à Igreja Patriótica, então se não o querem fazer podem sofrer muitas dificuldades.

No seu caso, qual é a relação com a Associação Patriótica Católica?
Creio que a primeira coisa a fazer é evitar isso, ter cuidado quando vou a algum lado, porque se não, muitas vezes podem-nos complicar a vida. Eu, pessoalmente, não quero ter relações nenhumas com eles, porque também sei por experiência que não é nada fácil ter uma relação com eles, porque temos de submeter-nos ao que eles dizem.

O seu bispo, por exemplo, é reconhecido? 
Não. Até hoje ele tem-se mantido sempre firme na fé. Porque para ele, ser um bispo da Igreja Católica é ser fiel à doutrina da Igreja. Por exemplo, estar em plena comunhão com o Papa e exercer o seu ministério segundo a doutrina que a Igreja nos ensina, obedecer ao Papa e ter consciência da universalidade da Igreja.

Como é que veio parar à Europa?
Vim para receber formação, porque durante muitos anos, como todos os padres e bispos foram enviados para campos de trabalho, trabalhavam todos os dias, quase sem nada para comer... Foi assim durante trinta anos e não havia formação, nem para os fiéis nem para os padres. 

Ao fim de 30 anos houve uma certa abertura e então os padres já podem receber uma certa formação. Mas como a formação é mínima, para receber uma boa formação é necessário um estudo sólido na doutrina, por isso fui enviado para a Europa para estudar um pouco. Fiz o seminário em Toledo, em Espanha, e agora estou a estudar em Roma. Quando terminar os estudos regressarei para servir a Igreja e ajudar um bocado, sobretudo na formação.

O que disseram às autoridades sobre a razão da vinda?
É complicado. O Governo dá-nos o passaporte, mas o visto é feito nas embaixadas. Foi muito difícil conseguir o passaporte porque quando fui à polícia pedir diziam que não me iam dar, porque era católico. Foi assim durante cerca de três meses.

Mas pela graça de Deus - e eu vejo aí uma clara intervenção de Deus - em 2008 houve os Jogos Olímpicos e durante algum tempo todos podiam receber o passaporte. Aí, o visto era o mais fácil.

Se o Governo soubesse que eu vinha estudar, seguramente não me deixaria vir. Mas graças a Deus estou aqui.



Quando chegaste à Europa não falavas espanhol, não conhecias a Europa, como foi a integração?
Quando cheguei a Espanha comecei imediatamente os estudos no seminário. Os primeiros anos, sobretudo, de Filosofia, foram muito difíceis porque até para um nativo as coisas são complicadas de entender. Mas eu estudava muito mais que os meus colegas... Muitas vezes nas aulas eu perguntava aos colegas se percebiam o que tinha dito o professor, e também respondiam que não. 

Mas isso para mim também foi uma experiência, que quando fazemos a nossa parte o Senhor nos ajuda, seja como for. É difícil? Sim, mas pela Graça de Deus tudo é possível e o Senhor nos ajuda.

A perseguição aos católicos que não obedecem à APC existe em todo o país, ou é diferente de região para região?
Sim. China é um país muito grande. A lei é a mesma, mas a aplicação varia de zona para zona. Nalgumas zonas há mais católicos, se os bispos forem da Igreja Clandestina então a situação pode ser mais difícil... Depende das zonas.

Alguns bispos, como por exemplo em Hong Kong, defendem que não se deve negociar com a China, que é preciso ser duro e exigir apenas a liberdade total dos católicos. Outros, e parece ser essa a linha actual do Vaticano, parecem dispostos a negociar e a aceitar algumas das condições do Governo. Qual é a sua opinião?
Em primeiro lugar, temos a consciência de que o Vaticano quer dialogar com o Governo. Isso é seguramente para o bem das almas e da Igreja, para poder evangelizar os que não conhecem Cristo, porque actualmente os católicos são apenas 1%. Isso, sem dúvida alguma.

Este diálogo não é nada fácil, porque como temos um regime totalitário e não existe liberdade religiosa nem direitos humanos, e como diz o Cardeal Zen, temos de ser firmes, sem dúvida, porque temos alguns princípios na Igreja. A Igreja Católica é universal, logo respeitamos os direitos humanos e a liberdade religiosa. A Igreja não considera que sejam um privilégio, mas sim direitos naturais das pessoas. Sim, temos de ser firmes... Não podemos abandonar as nossas crenças. 

Pessoalmente acho difícil, mas também confiamos no Senhor, porque Ele pode fazer grandes coisas. Pela minha experiência, e segundo o que vejo, não é fácil. O que o Vaticano está a tentar fazer é seguramente para o bem da Igreja. Na prática, como estão a dialogar há tantos anos e o resultado, segundo o que eu vejo, não tem sido praticamente nenhum. Conseguiram-se algumas coisas simples, mas isso não é o problema de fundo. O mais importante tem a ver com a nomeação dos bispos, quem decide as coisas da Igreja e isso está a ser negociado. É complicado...

Disse antes que os católicos são 1%, mas há muitos cristãos não católicos. Sabemos que as Igrejas domésticas estão a crescer muito... Vocês vêem esses cristãos como aliados ou adversários?
Eles também são cristãos, têm a sua fé! É uma coisa boa, porque eles também vivem a sua fé e tentam evangelizar os outros para que possam conhecer Cristo, é uma coisa positiva. E para nós, católicos, são um exemplo, porque eles estão a fazer muitos sacrifícios. Os protestantes também são perseguidos, quando não se querem submeter ao regime não podem viver a fé com liberdade, não podem anunciar o nome de Cristo com liberdade.

É o que se passa com os católicos também, mas temos esta dificuldade acrescida da Igreja Oficial e a Igreja Clandestina, todo o diálogo envolvido, tudo isso complica um bocado.

Mas creio que todos, com a graça de Deus, podemos ajudar os nossos irmãos para que eles também conheçam Cristo, porque Cristo é o único salvador do mundo.

Há muitas histórias de perseguição, mas há histórias mais próximas de si?
Sim. Por exemplo o meu avô - isto foi-nos contado, mas segundo a cultura chinesa, somos bastante fechados. Quando uma coisa já passou, não falamos sobre ela entre nós - mas segundo o que me foi contado do meu avô, quando era novo e o meu pai tinha uns 15 ou 16 anos, como a situação era muito difícil, sobretudo durante os dez anos da Revolução Cultural, como não se podia dizer que se era católico nem se podia rezar, porque se a polícia os visse a rezar podiam condená-los a passar muito tempo na prisão.

Naquela altura em cada povoação faziam reuniões em que perguntavam aos católicos se queriam deixar a fé ou não, ou então perguntavam "quem é bom? Deus, ou o Governo?" Quando chegou a sua vez, o meu avô disse "Deus é bom". Só por isto começaram a persegui-lo. Não só uma vez, mas todos os dias, porque ele tinha dito que Deus é bom, porque segundo a sua consciência era assim, e ele o declarou. 

Então todos os dias faziam a reunião para o criticar, para insultá-lo e no final, como humanamente - todos somos seres humanos - ele, para não negar a fé, pegou no meu pai e disse-lhe que como agora estavam a fazer-lhes isto todos os dias, a persegui-los, e quem sabe se um dia, por fraqueza podemos negar a fé, então levava o meu pai e fugiram para não negar a fé. Disse: "Vamos para a montanha e levamos alguma comida. Quando acabar a comida morremos, mas não negamos a fé". Isso, para mim, é um exemplo, porque para manter a firmeza da fé, está disposto a dar a vida. É um exemplo, há muitos outros, mas isso para nós sempre nos deu força para viver mais firmemente a nossa fé. 



Mas há também histórias de conversão?

Sim. Há histórias de conversões porque quando eles vêem a força que os católicos têm, dizem que tem de haver algo de sobrenatural, porque humanamente ninguém consegue aguentar aquilo. Pessoalmente não conheci conversões tão claras e fortes, mas seguramente na vida quotidiana há muitos que vendo os exemplos dos católicos, pelo menos no seu interior deixam-se impressionar e isso pode ajudá-los a perceber qual é o sentido da vida.

Francisco e Jacinta canonizados em Fátima já no 13 de Maio

RRONLINE   20.04.17

O Papa Francisco confirmou esta quinta-feira, em consistório, que a canonização terá lugar durante a sua visita a Portugal, precisamente no centenário da primeira aparição.


A canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta terá lugar já no próximo dia 13 de Maio, em Fátima, durante a visita do Papa ao santuário.
A data e a hora da cerimónia foram confirmadas pelo Papa esta quinta-feira de manhã num consistório que teve lugar em Roma. Imediatamente a seguir a ser conhecida a notícia, em Fátima começaram a repicar os sinos e o reitor do Santuário dirigiu-se à Capelinha das Aparições, para rezar em acção de graças.
Desde que a Igreja anunciou que não havia obstáculos à canonização que esta era uma hipótese, no entanto não era uma certeza. Nem sempre os santos são canonizados nas suas terras. Teresa de Calcutá é um exemplo de uma santa recente que foi canonizada numa cerimónia em Roma, e não na Índia, onde desenvolveu grande parte do seu ministério.
Mas o facto de o Papa Francisco visitar Fátima para assinalar o centenário da primeira aparição foi alimentando a esperança de que a Igreja permitiria fazer-se a canonização em pleno centenário, o que agora se confirma.
A irmã Ângela Coelho, postuladora da causa de canonização dos pastorinhos, estava presente no consistório onde o Papa anunciou esta decisão de canonizar Francisco e Jacinta em Fátima e, em declarações à Renascença, não pôde esconder a sua "alegria e comoção indiscritíveis".
Para a irmã Ângela, esta decisão do Papa não só fará da canonização o ponto alto das celebrações do centenário de Fátima, como confirma a "importância deste lugar para a Igreja em Portugal e para o mundo inteiro. Um lugar onde houve uma mensagem que agora sabemos leva à santidade."
Francisco e Jacinta Marto eram irmãos e juntamente com a sua prima Lúcia viram Nossa Senhora na Cova da Iria no dia 13 de Maio de 1917. Apesar da repressão de que foram alvo por parte das autoridades civis e eclesiásticas, as crianças mantiveram-se firmes nas suas afirmações e as aparições foram-se sucedendo, culminando no milagre do Sol, testemunhado por milhares de pessoas, em Outubro do mesmo ano.
Francisco e Jacinta acabaram por morrer ainda crianças, vítimas de doença. As canonizações de crianças são raras na Igreja católica e esta fará de Jacinta Marto a mais nova santa não-mártir da Igreja, com apenas nove anos.
Para que a canonização fosse possível foi necessário a Igreja reconhecer a realização de um milagre por intercessão dos pastorinhos. A irmã Ângela Coelho recorda que as novas regras da Congregação para as Causas dos Santos impede os envolvidos no processo de divulgar detalhes desse milagre, sobretudo quando o miraculado é um menor, o que é o caso agora, e adianta apenas que a criança em causa é do Brasil. "Será a família a falar, se o entender e quando assim o entender", sublinha.