sábado, 11 de março de 2017

Pais extraordinários e incompetentes

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA   11.03.17   DN

A vantagem de se ter muitos filhos é que nunca chegamos a saber se somos pais capazes ou não, se temos mãozinhas para tocar a guitarra. Quando a amostra é reduzida a apenas um ou dois filhos, podemos cair no erro de concluir que somos uma desgraça porque eles fazem tudo ao contrário ou que somos geniais porque eles superam todas as expectativas. Com esta amostragem as conclusões são tão fidedignas quanto uma sondagem martelada por um partido. Isto porque nós achamos que os nossos filhos são um reflexo do nosso desempenho. Tipo causa-efeito - sendo nós a causa. Errado. Quando se tem muitos filhos percebemos que esta formula lógica não diz nada sobre coisa nenhuma. Basicamente não tem lógica. Com uma amostra mais alargada, a ciência desaparece e percebemos que é impossível aferir a nossa qualidade pela qualidade dos nossos filhos. Os meus filhos são uma espécie de salada de frutas de virtudes e defeitos. E pior: cada um tem a sua dose e cada dose é única. Apesar de terem todos a mesma herança genética e estarem sujeitos às mesmas regras de educação, parece que foram recolhidos nos quatro cantos do mundo aleatoriamente. É estranhíssimo. Tenho filhos que ainda não descobriram como se repõe o rolo de papel higiénico e outros que se divertem a arrumar a cozinha. Também tenho histórias que ilustram como conseguir bons resultados escolares apesar dos ministros da Educação e outras de objetores de consciência a qualquer tipo de metas ou projetos educativos. Tenho filhos persistentes e sonhadores, ambiciosos e idealistas, racionais e criativos, faladores e reservados, uns que detestam bacalhau e outros que adoram crepes com espinafres. E eu, no fim do dia, sou uma espécie de cata-vento. Sou seis mães ao mesmo tempo. Imaginem a vida de Marcelo, que passa os dias a dizer coisas diferentes conforme está com o primeiro-ministro, os parceiros da geringonça, a oposição, os banqueiros, os sindicatos, as associações ou a senhora da farmácia (tudo em nome do consenso e da paz social, claro). Um inferno. Pois é a minha vida. Para uns eu sou uma mãe excelente porque não chateio, para outros sou péssima porque não chateio. Consigo ser uma mãe extraordinária porque tenho filhos bons alunos e ambiciosos ou uma mãe incompetente por causa dos objetores de consciência que querem levantar a bandeira branca à Físico-Química e assumir a derrota contra os seus exércitos de fórmulas. Se há uma boa razão para ter muitos filhos é esta: nunca chegamos a saber se somos bons ou maus pais, por isso concentramo-nos apenas em não fazer asneiras. E isso quase que chega.
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