quinta-feira, 20 de abril de 2017

Um 'cantinho de Fátima' em Lisboa

VOZ DA VERDADE 16.04.17

Uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, duas imagens de Francisco e Jacinta Marto, um queimador de velas e a oração diária do Terço. É ‘Um cantinho de Fátima perto de si’ que acontece diariamente na Igreja dos Pastorinhos, em Alverca, a primeira no mundo a ser dedicada aos futuros santos.

Na Igreja dos Pastorinhos, em Alverca, à esquerda do altar, encontra-se Maria. “Temos a graça de ter, na igreja, uma das imagens peregrinas de Nossa Senhora, oferecida pelo Santuário de Fátima aquando da dedicação da igreja, em 2005. Foi uma imagem que chegou a Alverca num helicóptero, que aterrou no estádio de futebol”, lembra ao Jornal VOZ DA VERDADE o pároco de Alverca, padre Paolo di Gennaro. Do lado direito do altar, estão duas imagens dos pastorinhos de Fátima, oferecidas pela Postulação para a Canonização de Francisco e Jacinta Marto, e que chegaram a Alverca no mesmo dia, também por meio aéreo. Por baixo do altar, foram colocadas relíquias dos pastorinhos. “Não estão visíveis, mas foram colocadas mesmo por baixo de onde o celebrante tem os pés quando está no altar. É uma graça muito grande”, acrescenta o sacerdote italiano. Esta foi a primeira igreja do mundo a ser dedicada aos pastorinhos de Fátima. “Como temos a imagem peregrina de Nossa Senhora, de facto é um pedacinho de Fátima que temos sempre aqui, em Alverca”, observa, lembrando-se do lema ‘Um cantinho de Fátima perto de si’ que foi colocado, neste ano de centenário das aparições, num vidro no adro da igreja.
Junto ao queimador de velas, a frase ‘Pastorinhos de Maria sede a luz que nos leve até Jesus’ recebe quem ali vai. Situado na parte de fora da igreja, sobre o lado direito, este é um espaço visitado diariamente pelos fiéis. O Terço diário leva também muitos cristãos à Igreja dos Pastorinhos. “Todos os dias, às 18h00 durante a semana e às 18h30 aos sábados e Domingos, rezamos o Terço, como Nossa Senhora pediu. É como se fosse em Fátima”, assegura o padre Paolo.
O carrilhão da Igreja dos Pastorinhos é “o segundo maior da Europa e o terceiro do mundo” e é também “uma atração” para Alverca. “Está predisposto para 72 sinos, tendo atualmente 69. Um será o sino da irmã Lúcia – os dois maiores sinos são os de Francisco e Jacinta – e ainda para mais dois, mas temos de encontrar dinheiro. Duas vezes por mês, ao Domingo à tarde, entre as 17h00 e as 18h00, temos concertos que se ouvem por toda a cidade”, refere o sacerdote, salientando que a paróquia “recebe ainda a visita de carrilhonistas de todo o mundo”.
Junto à igreja, os corredores do Centro Paroquial João Paulo II – onde fica situado o atendimento, as salas de catequese e os gabinetes dos sacerdotes –, são embelezados por fotos de Fátima e dos pastorinhos. Noutro espaço da igreja, junto à livraria, uma exposição de fotografias, em diversos painéis, conta a história das aparições e também da própria Igreja dos Pastorinhos. “São muitas as ligações desta igreja a Fátima”, frisa o pároco.

A primeira!
Nos anos 80, a necessidade de uma nova igreja em Alverca era cada vez mais sentida pela comunidade. “A Paróquia de Alverca do Ribatejo tinha a Igreja de São Pedro, muito bonita mas com capacidade para pouco mais de 100 pessoas, e que era manifestamente pequena para o crescimento que Alverca teve nos anos 60, com o desenvolvimento da indústria. A comunidade celebrava também a Eucaristia numa garagem, no Bairro do Bom Sucesso, e em duas capelas, uma junto ao rio e a outra no alto, nas colinas, ambas para cerca de 20 pessoas, pelo que a necessidade de uma nova igreja em Alverca era grande”, explica o pároco, lembrando que, “nas primeiras comunhões e nos crismas, a paróquia tinha de alugar o pavilhão”.
Por volta de 1997, o padre José Maria Cortes chega a Alverca como pároco e o projeto começa a desenvolver-se. “Na altura, o padre José Maria tinha 28 anos, tinha sido ordenado há dois, e chegou com o objetivo de, finalmente, avançar com a nova igreja”, lembra o padre Paolo, recordando ainda que “a cedência do espaço pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira caducava em 2000 se não começassem as obras”. “A primeira pedra foi colocada precisamente nesse ano 2000, pelo senhor D. José Policarpo, então Cardeal-Patriarca”, frisa. A construção da nova Igreja dos Pastorinhos, em Alverca, terminou em maio de 2005, há quase 12 anos. “Esta é não só a primeira igreja em Portugal dedicada aos pastorinhos, como também a primeira igreja no mundo!”, salienta o pároco de Alverca.

Testemunho e ligação
Porquê uma igreja dedicada aos pastorinhos? “Na altura, e ainda hoje, Alverca era uma cidade com muitas crianças e muitos jovens. Pensou-se, por isso, na figura de duas crianças para esta nova igreja, porque também havia a necessidade de acolher as crianças, o que não se conseguia na velha igreja. Depois, pela mensagem e pela importância que Fátima tem para o país”, justifica, sublinhando que a nova igreja procura também chegar àqueles que estão mais afastados: “Em Itália, uma pessoa que não acredita em Deus não se interessa por santuários; aqui, mesmo as pessoas que não vêm à Missa têm uma ligação e respeito por Fátima”. O pároco acredita que a Igreja dos Pastorinhos tem cumprido esta dupla missão. “Chegámos a ter mais de 500 crianças na catequese e, hoje em dia, mesmo com a descida demográfica dos últimos anos, temos cerca de 440 crianças nos 10 volumes”, aponta, assegurando ser preciso “apostar nas crianças, porque foram elas que trouxeram os pais de volta à Igreja”.
Salientando que “a Igreja dos Pastorinhos está numa localização privilegiada”, com as escolas bem perto, o padre Paolo frisa que “todos os jovens passam por aqui, pela rua”, e lamenta haver “muitos, muitos, muitos, até centenas”, que não conhece. “Para mim, é um desafio chegar a eles e encontrá-los”, assume. “Em Alverca vivem 35 mil pessoas. Nós temos sempre a igreja cheia – pelos nossos cálculos, nas várias celebrações do fim de semana participam duas mil pessoas –, mas há ainda gente que não conhece Jesus Cristo”, acrescenta.
No ano da dedicação da Igreja dos Pastorinhos, em 2005, foi organizada uma grande procissão noturna de Nossa Senhora, “de cinco quilómetros”, com início no Bairro de Arcena, no cimo da colina, “que fica do outro lado de Alverca”, e que atravessou toda a cidade. “Nos outros anos fizemos a procissão de velas mais curta, desde a igreja matriz, mas nos dez anos da Igreja dos Pastorinhos, em 2015, repetimos esta grande procissão. Foi uma coisa impressionante, eu nunca tinha visto nada assim. Fiquei mesmo comovido, as pessoas colocaram as colchas brancas nas janelas, tudo para receber Nossa Senhora”, lembra o padre Paolo, sublinhando que este ano, “por ser ano do centenário das aparições, no dia 6 de maio, sábado, a Paróquia de Alverca organiza novamente a grande procissão de velas”.

O desafio económico 
É um desafio pagar a Igreja dos Pastorinhos, segundo o pároco. “Todos sabem que estamos a pagar a igreja, e temos de continuar a pagar. É um desafio porque nos ajuda a não dar por adquirido a casa que temos. Quando temos de fazer sacrifícios para alguma coisa é que nos perguntamos se vale a pena. Este desafio é uma provocação boa e que nos coloca continuamente diante desta pergunta. Mas vale, com certeza, o esforço porque vemos o fruto da evangelização que temos com a Igreja dos Pastorinhos”, observa.
O Grupo dos Amigos da Igreja dos Pastorinhos tem sido também uma ajuda económica. “Este grupo tem famílias e pessoas individualmente, sobretudo de mais idade, que apoiam economicamente a igreja, com uma quota mensal, e que nós acompanhamos numa peregrinação a Fátima por ano. Temos também um almoço anual”, refere o padre Paolo, lembrando ainda que, duas vezes por ano, em março e setembro, a paróquia publica a revista ‘Amigos dos Pastorinhos’, que “faz parte das ações de fundraising [captação de recursos] para ajudar a pagar a nova igreja”. 

Canonização a 13 de maio?
A Paróquia de Alverca recebeu “em grande festa” a notícia da canonização dos pastorinhos de Fátima. “Dia 20 de abril [data do consistório, no Vaticano] vamos saber onde e quando será a canonização de Francisco e Jacinta Marto. Soubemos a informação um pouco antes da Missa e, durante a celebração, rezámos logo para que a canonização seja no dia 13 de maio, em Fátima”, assume o padre Paolo di Gennaro. “Se for em outubro, em Roma, iremos com certeza organizar uma peregrinação e temos de fazer chegar ao Santo Padre a notícia de que está presente uma delegação da primeira igreja do mundo dedicada aos pastorinhos. Talvez consigamos uns lugares mais à frente”, acrescenta, entre sorrisos, o pároco de Alverca.
  
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Imagens da beatificação em Alverca
Recorda-se das duas grandes imagens de Francisco e Jacinta Marto que embelezaram a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, durante a celebração de beatificação dos pastorinhos, no ano 2000? São essas duas imagens que agora estão presentes, junto à entrada, na Igreja dos Pastorinhos, em Alverca. “As duas imagens foram oferecidas à paróquia pelo Santuário de Fátima. É um grande privilégio que temos”, reconhece, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o pároco de Alverca, padre Paolo di Gennaro.
  
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Livro ‘Os Pastorinhos de Fátima’ apresentado em Alverca
No próximo dia 30 de abril, Domingo, pelas 15h00, a Paróquia de Alverca vai receber Madalena Fontoura, autora do livro ‘Os Pastorinhos de Fátima – iguais a todos, iguais a nós’, para uma conferência sobre esta obra que tem a chancela da Lucerna (Principia Editora).
  
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Uma fraternidade sacerdotal nascida no movimento Comunhão e Libertação
Além de ter a primeira igreja do mundo dedicada aos pastorinhos de Fátima, a Paróquia de São Pedro de Alverca do Ribatejo tem ainda a particularidade de ser a única paróquia do país confiada à Fraternidade Sacerdotal dos Missionários de São Carlos Borromeu, fundada pelo então padre Massimo Camisasca, Bispo desde 2012. O pároco, padre Paolo di Gennaro, de 38 anos, é natural de Milão, em Itália, e depois da licenciatura em Medicina e Cirurgia fez o seminário em Roma, onde estudou Filosofia e Teologia, na Pontifícia Universidade Lateranense. Após a ordenação diaconal, veio para Alverca, em agosto de 2009. Em junho de 2010 é ordenado sacerdote e, desde então, tem cumprido a sua missão nesta paróquia às portas de Lisboa, tendo sido quatro anos coadjutor e os últimos três, desde maio de 2014, pároco. O padre Paolo conta com a colaboração de três vigários paroquiais (coadjutores): os padres Giovanni Musazzi e Raffaele Cossa, italianos, e Luis Miguel Hernández, espanhol, que antecedeu o atual pároco. “Somos uma fraternidade sacerdotal de vida comum, uma sociedade de vida apostólica, de direito pontifício, que nasceu no seio do movimento Comunhão e Libertação, em 1985. Tem como pilares de vida, segundo o carisma eclesial de monsenhor Luigi Giussani [na foto], a missão – portanto, a disponibilidade em ir para qualquer lugar onde a Igreja precise – e a vida comum, porque somos sacerdotes que vivemos em comunidade, em casa, rezando, como se fosse um pequeno mosteiro” explica, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Paolo.
A fraternidade “está presente em Itália e Portugal, onde chegou em 1999, mas também em vários países do mundo como Espanha, Áustria, Alemanha, República Checa, Rússia, Taiwan, Quénia, Estados Unidos e América Latina – Chile, Paraguai e Brasil”.
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