quinta-feira, 11 de maio de 2017

Fátima, ou a confissão de humildade de um não-crente

JOSÉ MANUEL FERNANDES  OBSERVADOR   10.05.17
Como pode um não-crente olhar para Fátima? Com a humildade de procurar entender, nunca com a superioridade dos iluminados bem-pensantes. Afinal a fé é capaz de ser liberdade e, também, de ser um dom.
Olho para Fátima como um não crente. Mas o gosto por tentar perceber o que se passa à minha volta e a humildade que a idade vai permitindo, fazem com que olhe sem a sobranceria típica do urbano bem-pensante. Porque há em Fátima muito mais do que podemos racionalmente compreender.
Aqui há uns anos a peregrinação a Fátima de um advogado e político conhecido – António Pinto Leite – suscitou o escárnio dos letrados e dos iluminados quando começou por confessar, em 1991, na sua coluna do Expresso, que ia a Fátima “numa confusão de sentimentos unidos pela minha determinação”; depois por acrescentar em 1996 que iria fazer a peregrinação a pé, para “pisar o silêncio que não tenho na vida de todos os dias, para conseguir falar com Deus e não apenas comigo próprio, como nos acontece quase sempre”; e por depois ter deixado que esse mesmo Expresso o fotografasse na sua viagem. “Exibicionista”, gritou-se nos salões de Lisboa. Na verdade o que Pinto Leite tornara público (em textos que podem ser parcialmente lidos aqui) fora um processo em que, depois de anos de agnosticismo, reencontrara a fé. Isso mesmo voltou a contar agora num pequeno depoimento para a Renascença.
Recordo este episódio porque ele condensa o preconceito que rodeia Fátima, um lugar que muitos resumem ao “joelhómetro” (a faixa onde alguns peregrinos, uma pequena minoria, cumprem as suas promessas) ou ao comércio das recordações. Um preconceito que não se limita aos ateus e aos agnósticos, também contagia muitos crentes. É por isso especialmente interessante ler a entrevista de António Marto, o teólogo e académico que é hoje bispo de Leiria-Fátima mesmo tendo sido, como confessa, um “céptico de Fátima” que não tinha grande interesse pelas aparições: “Tudo tinha de passar pelo filtro da razão, tudo o que fosse de um ponto de vista mais do aspeto emocional, sentimental, era desvalorizado”, explicou. Nessa época desvalorizava a “piedade popular”, algo que hoje considera “típico de uma espécie de cultura de elites, que olha com desprezo para o que é do povo, para o que é popular”.
É muito interessante esta sinceridade pois, para quem não tem fé, ainda é mais difícil compreender todos os sentimentos e emoções que Fátima suscita, e tudo o que inspira e mobiliza. E conciliar isso com a razão – sendo que a relação da Fé com a Razão foi um dos grandes temas de Bento XVI, o papa que levou António Marto a aceitar ser bispo de Fátima precisamente porque queria nesse lugar um teólogo e um estudioso.
Mas se a sabedoria da Igreja permite aceitar as “chamadas revelações particulares” sem as tornar dogmas de fé, e assim muitos católicos convivem com Fátima sem terem de acreditar na materialidade das aparições, e se também é verdade que o próprio Bento XVI, ainda apenas Cardeal Ratzinger, as enquadrou como “visões” – uma discussão que reapareceu por estes dias mas que não é a que mais me motiva –, aquilo que em Fátima me parece ser realmente diferente é o seu apelo popular. E um apelo popular que a marca desde a primeira hora: de facto, como foi possível que, num tempo em que não havia estradas, nem formas de comunicação fáceis, sob um regime que combateu desde o início o fascínio pelas revelações dos pastorinhos e tudo fez para tornar ainda mais difíceis as deslocações, logo em Outubro de 1917 umas cem mil pessoas, vindas de todo o país, se juntassem na Cova de Iria para um 13 de Outubro que é recordado como o do “milagre do Sol” (continua a ser fascinante ler hoje a reportagem do céptico repórter de “O Século”)?
Um filme recente de João Canijo, Fátima, que tem a imensa virtude de, sem ser a favor ou contra Fátima, seguir a tradição do realizador de se encostar o mais possível à realidade, permite-nos entrar no mundo de um grupo de mulheres que peregrina a partir de Vinhais, caminhando lá de longe, dos confins de Trás-os-Montes. E permite-nos perceber um pouco do que move tanta gente a fazer a imensa caminhada, a forma como lidam com o sobrenatural e como vivem a sua fé. Humanamente.
Mas se este filme nos ajuda a perceber a profundidade do culto mariano e da religiosidade popular, a leitura de um livrinho de reportagens – Peregrinos, editado pela FFMS – ou mesmo de alguns curtos retratos (como estes publicados originalmente no Expresso) de quem peregrina não apenas a partir dos confins rurais de Portugal, mas saindo das grandes cidades e tendo qualificações e rendimentos, ajuda-nos a fazer um retrato mais completo, e verdadeiro, de uma fé que não necessita de muitas explicações para existir. Simplesmente.
Ora o que percebemos é que esta religiosidade popular, mesmo não seguindo a ortodoxia dos puristas, também está a léguas do obscurantismo que os eternos anti-clericais vêem em tudo o que se relaciona com o santuário. E se 1917 marcou o fim, em Portugal, da versão mais radical do anti-clericalismo da I República – a versão de Afonso Costa, afastado definitivamente do poder no final desse ano por Sidónio Pais –, em 2017 não só é possível verificar quão pueril era a intenção do chefe dos “democráticos” de acabar com a religião em Portugal em duas gerações, como verificamos que Fátima tem dimensões que ultrapassam as da Igreja Católica – tal como ultrapassa as suas fronteiras a influência universal e contagiante do Papa Francisco.
Num texto com um cunho muito pessoal onde encontrei a humildade que referi na abertura desta crónica, Daniel Oliveira, um assumido ateu, conta – precisamente a propósito do filme Fátima – como ao longo da sua vida foi evoluindo a sua relação com a religião, algo que atribui a “uma maior compreensão da natureza humana”. Eu próprio também fui tendo diferentes relações com a religião ao longo da minha vida (e já escrevi sobre elas num diálogo que mantive com D. Manuel Clemente), pelo que me identifiquei com a sua ideia de que “é difícil compreender este nosso povo sem compreender o culto mariano, a função libertadora do sacrifício e a experiência coletiva da fé.” Ou seja, sem compreender Fátima e o que é uma peregrinação a Fátima.
Como não podia deixar de acontecer esta sinceridade teve consequências. Com aquele seu lado de quem sabe sempre tudo, Fernanda Câncio decidiu contrariar essa crónica e a ideia de Daniel Oliveira de que existe “espírito comunitário” nas caminhadas até Fátima, considerando antes que elas são um bom exemplo de “individualismo egomaníaco”. É caso para dizer que Câncio não percebeu nada, apesar de achar que duas reportagens que fez em Fátima lhe permitiram “saber do que se trata”.
Não vale muito a pena alongar-me sobre os muitos lugares comuns da sua crónica, apenas destacar que ela é um bom exemplo daquilo a que já se chamou o “novo ateísmo”, um ateísmo aguerrido que lá por ter abandonado a visão fechada, positivista e materialista, da Natureza e do Mundo típicas do ateísmo do século XIX e XX, não deixou de regressar em força pela pena de filósofos como Daniel C. Dennett. Este, um professor de filosofia na Universidade de Tufts, escreveu em 2002 no New York Times que “chegou o momento de nós, os iluminados, sairmos do armário”. “Iluminados” que, por maioria de razão, não acreditam “em fantasmas, em duendes ou no coelhinho da Páscoa – nem em Deus”.
A palavra chave desta proclamação é, naturalmente, “iluminados”. Ora eu, que tenho sobretudo medo de “iluminados” e de “conhecedores da verdade” que a querem impor a todos os demais – como sucedeu com os totalitarismos ateus do século XX, o comunismo mas também o nazismo –, só posso lamentar esta arrogância intelectual. Ou mesmo a simples incapacidade de compreender a necessidade humana de encontrar amparo numa espiritualidade que muitas vezes passa por buscar refúgio no transcendente.
Como escrevi logo a abrir não sou crente. Já fui, mas deixei de ser há muitos, muitos anos. Não creio que seja possível provar a existência de Deus, mas também sei que não se consegue demonstrar a sua inexistência. O meu agnosticismo é por isso uma dúvida genuína, não um labéu de conveniência, como está na moda. Mas isso não impede que, e vou repetir-me, em alguns momentos mais intensos sinta pena de não ter fé. Já me sucedeu muitas vezes, mas nessas alturas sei que ter ou ter fé não é uma decisão racional, que não posso decidir “acreditar”. De facto, como disse Bento XVI na marcante aula que preparou para a Universidade “La Sapienza”, a fé é “um dom da liberdade”.
Mas ao mesmo tempo também não posso, nem devo, deixar de me emocionar quando olho para os peregrinos que se dirigem a Fátima animados por algo que é muito mais do que pedir uma graça, cumprir uma promessa ou simplesmente ajoelhar-se, acender uma vela e rezar. Tal como não posso deixar de pensar naquilo que não alcançamos, recordando de novo Bento XVI nessa mesma aula: “o perigo do mundo ocidental é que o homem, obcecado pela grandeza do seu saber e do seu poder, esqueça o problema da verdade”. Humanamente e simplesmente.
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