domingo, 14 de maio de 2017

Quando a fé dá sentido ao sofrimento maior

CHRISTIANA MARTINS       EXPRESSO       11.05.17

A primeira peregrinação de Inês a Fátima foi aos 14 anos. Começou a caminhar com o pai, que morreu no ano passado, no percurso do santuário. Este sábado ainda não sabe se consegue voltar. Se for, leva o filho, Pedro, uma criança que “está a morrer há quatro anos”, mas que vive para dar sentido à fé. Tudo depende do ar, o ar que nos permite continuar.

Inês tem uma vida marcada por Fátima. Antes mesmo de ser conhecido, o mistério fez-se anunciar na sua vida. Também pela morte. A mais velha de três filhas, de um casal católico pouco praticante, tinha apenas sete anos quando perdeu uma irmã mais nova para uma doença genética que não a tocara. A seguir, perdeu outra e os pais tiveram de encontrar apoio, e foi a fé que lhes deu chão. "Foi com a morte da segunda filha que começou a história de conversão dos meus pais", explica, serena.
Na adolescência, Inês quis ir à Fátima e trouxe o pai. "Inesquecível", conta-nos hoje, antecipando uma história preenchida de coincidências. Dormiram lado a lado em sacos-cama, forjaram um laço que não se desfez. Adulta, ansiou fazer-se servita, ou seja, integrou o grupo de jovens voluntárias que apoiam os peregrinos, aliviando-lhes as dores nos postos médicos. Mostra hoje a fotografia de uma jovem loira, a imagem tradicional dos anjos, com um véu curto e translúcido, que para usar teve de fazer dois anos de formação.
Educada num colégio católico, foi indo a Fátima. Mais tarde, encontrou no movimento Comunhão e Libertação um homem a quem a religião fazia tanto sentido quanto à ela, e os filhos do casal foram nascendo. Ao primeiro, Gonçalo, seguiu-se Francisco, cujo nome foi escolhido em homenagem ao pequeno pastor a quem o Papa de mesmo nome fará santo este sábado. Depois veio Pedro, o nome do apóstolo que deu os alicerces à Igreja. Coube ao terceiro estremecer e depois consolidar os laços daquela família. Nasceu com a mesma doença genética que afetara as duas irmãs de Inês, mas pior, porque sofre também de sérios problemas respiratórios. Seguiu-se Leonor. Mas depois do nascimento de Pedro, nunca mais Inês conseguiu ir em peregrinação ao santuário.
Pedro já esteve em Fátima com a família, como é tradição, foi apresentado à Nossa Senhora e as energias agora estão concentradas num regresso este sábado. Ainda é cedo para saber se conseguirão, tudo depende de como o estado de saúde da criança de quatro anos evoluir. No ano passado, em outubro, o clã voltou a tremer quando Pedro, o pai de Inês, sofreu aos 62 anos um ataque cardíaco fulminante, em plena peregrinação a Fátima. "Apesar de tudo não me afastei de Fátima, é a fé que dá sentido ao sofrimento, como se para além de nós houvesse um plano que nos conduz, não é por nós conduzido. É uma entrega, nunca me senti roubada, pelo contrário".
É assim, com simplicidade, que Inês explica um percurso assaltado de tempos em tempos pelo sofrimento. É também por isso que querem todos estar este sábado no santuário. A mãe vai, o marido e os dois filhos mais velhos também. Fica a pequena Leonor. Ou ficam todos, tudo depende da saúde de Pedro, do ar que o faz respirar. Inês e o filho estão inscritos para a benção dos doentes. "Sei que vou chorar, mas assusta-me toda a parafernália que envolve a deslocação, mas é mais uma peregrinação, algo que nos faz sair da nossa zona de conforto", partilha a psicóloga de formação.
Esta quinta-feira, ao início da tarde, tudo parecia indicar que veriam o Papa pela televisão, cercados de amigos. Se assim for, Inês vai lembrar-se que queria lá estar. "Pelo Pedro, mas também pelo meu pai. Mas a minha fé não será posta em questão se não conseguir". Certo é que ao longo deste percurso de 35 anos de vida descobriu que "o sofrimento tem valor em si". Uma descoberta íntima, contada porque já viu que o seu percurso tem ajudado muitas outras pessoas.
Ouvi-la exige atenção, não é fácil aceder à serenidade de quem sabe que a perda maior pode chegar a qualquer momento. "O Pedro está a morrer há quatro anos", diz, calma mas emocionada. O filho Francisco tem a idade do pastor quando este viu Nossa Senhora, Leonor faz anos no mesmo dia que Jacinta. Pequenos detalhes de vidas que se cruzam, entrelaçam em coincidências, a que não quer atribuir significados maiores mas que parecem entrelaçar Fátima e Inês de forma inexplicável. "É essa emoção que redime, é o exagero, o absurdo. Como Cristo na cruz, é absurdo, é de mais." Um propósito nem sempre claro, mas sempre palpável. "Pedro é o cimento da família, reúne-nos, dá-nos um propósito". Lá está.
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