sexta-feira, 30 de junho de 2017

“Sou administrador de uma graça muito grande que não é minha”

http://www.patriarcado-lisboa.pt

Pedro Tavares
25 anos
Batizado na Paróquia de São Sebastião, Peniche

No 7º ano de escolaridade, em 2005, por sua “autorrecriação”, quis fazer uma experiência no pré-seminário. Pedro Tavares era acólito e “não descurava a questão do sacerdócio”. “Pedi autorização aos meus pais, inscrevi-me e fui. E detestei. Era muita oração, muitas Missas e jurei para nunca mais”, conta. A porta da vocação só se voltaria a abrir em 2009, durante um retiro de acólitos da sua paróquia. O então padre que o recebera no pré-seminário, em 2005, padre Filipe Santos, atual diretor adjunto do Pré-Seminário de Lisboa, era o pregador. “Se soubesse que era ele, acho que não tinha ido”, graceja Pedro Tavares. No retiro não foi abordado o assunto da sua vocação; contudo, Pedro deixa-se tocar pela reflexão sobre a parte final do Evangelho de São João, com a pergunta de Jesus a Pedro: ‘Tu amas-me?’. “Estava projetada na parede. Achei que aquela pergunta era para mim. Ali fiz uma experiência de Deus como nunca tinha feito. Senti-me muito feliz com o que estava a viver porque era completamente novo mas, ao mesmo tempo, com medo, porque achei que Deus me pedia alguma coisa que não sabia o que era”, conta.
Teve as notas que sempre almejou, para poder entrar no concorrido curso de ‘Multimédia e Design Gráfico”, na Faculdade de Belas Artes. Mas as dúvidas, quanto à vocação, fizeram-no questionar sobre o futuro. Mais tarde, numa celebração penitencial, escolheu “um padre novo, com pouco tempo de sacerdócio”. “E a coisa deu mau resultado...”, refere, sorridente. O padre Moisés, atual pároco da Nazaré, disse-lhe uma frase que “não se esquece”: ‘Tu apaixonaste-te por Deus’. “Quando ele me disse isto, foi como se tivesse levado um soco na barriga, porque era isso mesmo”, lembra. O momento de tomar a decisão de entrar no seminário surge após dois momentos: escutar uma palavra da homilia do Papa Bento XVI, em 2010, na Missa no Terreiro do Paço, em Lisboa – ‘Só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura’ – e o falecimento do seu pároco, padre Bastos, passado um mês da visita papal. Os pais “receberam bem” a decisão do filho mais velho. “A minha mãe já percebia o que estava a acontecer, mas o meu pai agarrou-se a mim, a chorar, e disse-me: ‘Se é isso que tu queres, com muito orgulho te vou levar. Mas se um dia perceberes que não é isso, com muito orgulho te vou buscar’”, lembra Pedro. Já no Seminário de Caparide, o “choque” que sentiu nos primeiros tempos, sem poder ir a casa “quando queria” e por estar “sob as ‘ordens’ de uma equipa formadora”, foi-se transformando numa certeza: “A vida já não me pertencia”.
Com o trabalho pastoral nas paróquias de Benfica, Algés e Loures, foi procurando “descobrir onde Jesus estava e onde é que Ele queria chegar aos outros”. Considerando-se “indigno”, diz que fica “extasiado” por ver que, apesar de “tantas vezes não ter correspondido”, Deus escolhe-o e fá-lo “servo para batizar e falar em seu nome”. “Sou administrador de uma graça muito grande que não é minha”, garante este futuro padre diocesano, que atesta ter sido “escolhido” porque Deus o ama e precisa da sua vida “para os outros”.

  • A celebração das Ordenações no Patriarcado de Lisboa decorre este Domingo, 2 de julho, às 16h00, no Mosteiro dos Jerónimos e vai ser presidida pelo Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente. Fique a conhecer aqui os futuros sacerdotes.

O tempo da liberdade

POVO  30.06.17


"A liberdade nunca está mais que uma geração de distância, da extinção.  
Nós não a passamos aos nossos filhos no sangue. 
Devemos lutar por ela, protegê-la e transmiti-la, 
para que eles façam o mesmo."

Ronald Reagan



Chegadas as férias das crianças, chegou o tempo privilegiado para que possam entender verdadeiramente o que significa 'tempo livre' e, consequentemente o que é a 'liberdade'. 

Para mim, tem sido na relação com os nossos filhos que este entendimento de liberdade mais se tem concretizado. Agora que o tempo deles se libertou, o meu está cativo na sua ocupação. Paradoxalmente, este 'cativeiro' é onde se joga a minha liberdade, porque o empenho, a criatividade, a alegria com que viverei com eles este tempo, será sempre uma decisão.

Talvez, por isso, seja tão difícil confrontarmo-nos com o facto de que sobre a vida dos filhos não decidimos tudo. Tenho seguido com proximidade comovida, a vida do Charlie, tendo no horizonte a vida em algo semelhante do nosso filho Pedro, e o testemunho do querido Papa S. João Paulo II na sua morte - "Deixem-me partir". Na minha tarefa de cuidadora amparo-me muito neste seu testemunho e sinto todos os dias o risco de uma certa obstinação para que nos alerta num texto que encontrei nesta mensagem antiga do Povo. Perante a notícia da suspensão do suporte de vida do Charlie, dei por mim, a recordar a passagem dos Actos dos Apóstolos (17:25)  que tantas vezes rezei nas laudes à frente do meu filho ventilado: "Quem fez o mundo e o que nele existe, dá a todos a vida, e a respiração a todas as coisas". Em todos os momentos críticos em que a respiração lhe faltou, tivemos a intenção de o deixar partir, se a falta se revelasse permanente. Pois se "Quando decidimos ser pais, é porque estamos abertos ao que Deus nos pede", teremos que nos preparar para perder aqueles que nunca foram nossos em primeiro lugar. Este é o drama da liberdade. 

"Querido Charlie, isto é tão difícil para nós pais, que desejamos ter os nossos filhos connosco. Sou muitas vezes obstinada com todos os meus quatro filhos, de maneiras bem diferentes. Mas amar, aprendi com a Chiara Corbela Petrillo, é o contrário de possuir. Os meus filhos não são meus, como tu não és dos teus pais. Tu pertences a este Senhor, que "dá a respiração a todas as coisas". Àquele que verás face a face, no dia do cumprimento do teu destino. E a máquina que te deu a respiração até aqui, não se aproxima nem um pouco da beleza que nesse dia irás encontrar.

Rezo por ti, pelos teus pais e por toda a tua família, com coração comovido pelo amor que exaltaste em nós e pedindo que este forte desejo de união contigo, nos faça desejar cada vez mais a união com Aquele que nos dá, a todos, a vida e a respiração. 

Inês, mãe do Pedro                                                               LER A CARTA COMPLETA >>>>>>



Uma boa proposta para a ocupação dos tempos livres 
para crianças dos 6 aos 10 anos, são estas
Férias em Lisboa já na próxima semana 3 a 7 Julho
na Fundação Maria Ulrich


Para famílias numerosas, chama-se a atenção para o 
as mensalidades são pagas apenas até ao 3º filho. 



POSTS DA SEMANA



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Dear Charlie



29 de Junho, 2017
Lisboa, Portugal


Querido Charlie, 

Ainda esta noite, o meu filho de nove anos surpreendeu-me com esta frase: "Mãe, o Pedro está a dormir, não é melhor pôr-lhe a ventilação"? Fiquei surpreendida por esta atenção ao seu irmão doente, que nos ajuda na tarefa de cuidadores, mas também pela normalidade que a ventilação já tem em nossa casa.  

O Pedro tem 4 anos e usa um BiPap sempre que está a dormir. Não é igualzinho ao teu, a este chamam não-intrusivo. O Pedro, como tu já teve um ventilador intrusivo. Aquele que tu tens há 10 meses, o Pedro precisou durante 3 semanas, numa pneumonia muito grave. Foi tempo suficiente para o seu corpo mudar! Aproximou-se, nesse tempo, do corpo que ele teria se a sua respiração fosse normal. No final dessas semanas e depois de duas tentativas, conseguiu respirar autonomamente sem essa ajuda, graças a uma potente intercessão milagrosa e um empenho paciente e generoso da equipa médica. Depois disso o seu corpo voltou rapidamente àquele que é o dele: um tórax menos amplo, levemente afunilado no peito. É o seu corpo deformado pela doença, que, aos poucos, aprendi a amar.

Querido Charlie, como os teus pais te amam! É um sinal evidente para todo o mundo, do amor de Deus por ti, uma afirmação clamorosa do teu inestimável valor, que leva tantos a amar-te, mesmo sem te conhecer. Este amor não carece de suporte de vida. É a própria vida. E a tua, como a de todos nós, cumpre-se no encontro com o Senhor da Vida, que te quis, assim parece, para que pudesses rapidamente voltar a Ele, não sem  que, nesse tempo, nos provocasses profundamente, aumentando em nós a consciência de que não somos os donos da vida.

Querido Charlie, isto é tão difícil para nós pais, que desejamos ter os nossos filhos connosco. Sou muitas vezes obstinada com todos os meus quatro filhos, de maneiras bem diferentes. Mas amar, aprendi com a Chiara Corbela Petrillo, é o contrário de possuir. Os meus filhos não são meus, como tu não és dos teus pais. Tu pertences a este Senhor, que "dá a respiração a todas as coisas". Àquele que verás face a face, no dia do cumprimento do teu destino. E a máquina que te deu a respiração até aqui, não se aproxima nem um pouco da beleza que nesse dia irás encontrar.

Rezo por ti, pelos teus pais e por toda a tua família, com coração comovido pelo amor que exaltaste em nós e pedindo que este forte desejo de união contigo, nos faça desejar cada vez mais a união com Aquele que nos dá, a todos, a vida e a respiração. 

Inês, mãe do Pedro



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June 29th, 2017
Lisbon, Portugal

Dear Charlie, 

Just tonight my 9 year old son surprised me with this sentence: 'Mom, Pedro is a sleep shouldn't he put on the ventilation"? I was surprised by his attention to his sick brother, that was so helpful to our task of caring for him, but also by how normal the ventilation has become in our house. 

Pedro is 4 and he uses a BiPap when he's a sleep. It's not exactly like yours, they call this one non-intrusive. But Pedro has had an intrusive before. He needed one like the one you've had for the past 10 months, for three weeks, during a serious pneumonia. It was enough time for his body to change. It came closer, during that time, to the body we would have if his breathing was normal. After two tries he eventually was able to breathe without that support, thanks to a strong miraculous intervention and the patient and generous effort of the medical team. After that his body quickly regained his own shape: a not so wide and open torax with a sharp edge in the chest. A body deformed by his disease, that I have, slowly, learned to love. 

Dear Charlie, how your parents love you! It's an unavoidable sign to the whole world, of the love of God for you, a loud affirmative statement of you inestimable value, that leads so many to love too, with out knowing you personally. This love needs no life support. Because it is life itself. And your life, same as everyone else, is fulfilled in the encounter with the King of Life, who wanted you, so it seems, so that you could return to Him soon, not without, while you are here, bringing upon us such a provocation that made all of us more aware of the fact that we are not the owners of life. 

Dear Charlie, this is so hard for us parents, who want our children close by. I am many times stubborn with all of my four kids, in many different ways. But loving, I've learned from Chiara Corbela Petrillo, is the opposite of owning. My children are not mine, same way as you don't belong to your parents. You belong to that King, who gives breath to every thing. The One who you will see face to face, the day your destiny will be fulfilled. And the machine that has given you breath until now, doesn't come close to the beauty that you will find when that day comes. 

I pray for you, your parents and your family, with a moved heart, for the love that you brought up, in all of us, and I ask that this strong desire of union with you, leads us to a stronger desire of union with The One that gives us all, our life and breath. 

Inês, Pedro's mom

Máquinas que mantêm bebé Charlie vivo vão ser desligadas esta sexta-feira

DN     29.06.17

Pais pretendiam levar a criança para casa, mas não foi permitido pelos médicos.

As máquinas que mantêm vivo o bebé Charlie Gard, que sofre de uma doença rara e sem cura, vão ser desligadas esta sexta-feira.

Depois de perderem, no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, a luta para conseguirem levar o seu filho para os EUA, para um tratamento experimental, os pais, Connie Yates e Chris Gard, usaram as redes sociais para dar a notícia e dizerem que estão a passar as "últimas horas" com Charlie.
De acordo com o Daily Mail, os pais pretendiam levar Charlie para casa, o que foi negado pelos médicos.

"Prometemos ao nosso pequeno rapaz que o iríamos levar para casa", afirmou Connie.
"Queríamos dar-lhe um banho, em casa, colocá-lo num berço onde ele nunca dormiu e vimos isso ser negado. Sabemos em que dia o nosso filho vai morrer e não temos uma palavra no que vai acontecer", acrescentou Chris Gard.
No Facebook, os pais confessam estar "de coração partido" e a passar "as últimas preciosas horas" com o filho. "Não nos permitem escolher se o nosso filho vive, nem escolher quando e onde o Charlie morre", pode ler-se também.

"Charlie vai morrer amanhã [sexta-feira] sabendo que foi amado por milhares... obrigado a todos", escreveram Connie e Chris.
Todo o dinheiro angariado para que Charlie pudesse receber tratamento nos EUA, cerca de 1.5 milhões de euros, vai ser usado para fundar uma associação com o seu nome para ajudar crianças que sofram da mesma condição rara.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Condecoração da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima

O Presidente da República agraciou, no Palácio de Belém, a Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima como Membro Honorário da Ordem do Mérito.

"A cerimónia de entrega da condecoração teve lugar no Palácio de Belém, no dia 26 de Junho, às 12.00 horas, durante a qual, e em resposta às palavras do Senhor Presidente, tive a oportunidade de afirmar que “ A distinção que Vossa Excelência concede à nossa Associação representa para nós uma responsabilidade e será um estímulo para nos mantermos sempre humildes e fieis à nossa Missão.” 
Dado que a Associação dos Servitas é parte integrante do Santuário de Fátima, entende a Direcção que deve dar conhecimento formal do facto ao Senhor Reitor, que fará o que melhor entender com esta informação.
Aproveito a oportunidade para reafirmar a disposição da Associação dos Servitas em continuar a servir  com dedicação e humildade os peregrinos de Nossa Senhora, em estrita obediência às directivas do Santuário de Fátima.

Com os melhores cumprimentos

Pedro Santa Marta
(em carta ao Sr. Reitor do Santuário)


VIDEO :: carta aberta de juristas contra a Eutanásia

Costa em festa a seguir à tragédia


MARIA JOÃO MARQUES   OBSERVADOR   28.06.17
Todos têm as suas prioridades e já vimos como, por duas vezes, as catástrofes que assolam as regiões que governa vêm, para Costa, uns degraus abaixo da festa socialista de campanha. Desprezível.
Começo pelo aviso para a saúde: é conveniente por estes dias evitar ler notícias sobre o PS com comida no estômago. Poderá terminar desenvolvendo uma bulimia.
Na segunda feira passada vi, revi e não queria acreditar. Uma semana e dois dias depois de 64 pessoas terem morrido por incompetência e descoordenação absoluta das autoridades e proteção civil, bem como por negligência governativa e falhas de equipamentos, quando há pelo menos doze desaparecidos – aqueles que a ministra Urbano de Sousa diz estarem em ‘paradeiro desconhecido’; calhando, supõe a ministra, viajaram à socapa para a Micronésia e estão divertidos bebericando cocktails num atol paradisíaco -, num momento em que o governo já conhecia a fita do tempo que revelava o caos de dia 17, depois de deixarem as casas dos sobreviventes serem pilhadas por não se assegurar a segurança dos bens dos que perderam quase tudo, havendo pouco apoio psicológico a pessoas com sérias possibilidades de virem a sofrer stress pós traumático, fingindo não ter esclarecimentos a prestar, enfim, no meio de tudo isto, o que faz o PS?
Faz uma festa, com pompa abundante, para anunciar a candidatura a Lisboa de Fernando Medina. Os farsantes – que dias antes se garantiam de coração destroçado, prestes a recusarem-se a sair dos seus quartos e despir o roupão, tão inconsoláveis que não aguentavam perguntas pertinentes e urgentes sobre o que havia falhado e resultado nas mortes – estiveram nesta festarola muito sorridentes e com ar de autossatisfação.
Entre os que de súbito conseguiram curar a tristeza incomensurável por Pedrógão, estava António Costa. Feliz, descontraído, sorridente, autoconvencido. Uma semana e dois dias depois das mortes de Pedrógão. O despautério foi tal que, em vez de autocrítica pública, proferiu autoelogios – referiu a sua magnífica e maravilhosa herança lisboeta.
Até eu me surpreendi com tamanha baixeza e falta de respeito pelos mortos e pelas outras vítimas de há uma semana – os que estão feridos, os que perderam familiares, os que perderam trabalho, bens e poupanças de uma vida.
Mas não devia. Afinal é comportamento reincidente de António Costa. Lembram-se das cheias de Lisboa de 22 de setembro de 2014? As zonas baixas de Lisboa foram varridas por um rio de água. A corrente das ruas da Baixa levou as esplanadas à frente e inundou lojas e restaurantes. Praças de Lisboa transformaram-se em lagos de dimensão capaz de camuflar o Loch Ness. Um caos.
Que fez António Costa, então presidente da Câmara de Lisboa? Ora, monitorizou ao longe as inundações que varriam Lisboa, por telefone. E, nessa noite, estava em festa rija em Coimbra. Eram as eleições primárias do PS. Mais uma vez, António Costa lá estava feliz, sorridente, descontraído, autoconvencido.
Toda a gente tem a sua ordem de prioridades. E já ficámos, por duas vezes, a saber que as catástrofes que assolam as regiões que governa vêm, para António Costa, uns degraus abaixo da festa socialista de campanha. Desprezível.
Mas tiremos mais lições das inundações de Lisboa. Segundo António Costa, as inundações deveram-se exclusivamente à quantidade de chuva que caiu, sem ninguém estar à espera (chovia há dias, depois de um verão seco; e no ano da graça de 2014 já se haviam inventado as previsões meteorológicas). Nunca, jamais, em tempo algum a sarjetas entupidas. A culpa foi singelamente do ‘caudal tão anormal’ que era impossível de escoar. (Digam lá se não bate tudo certo até aqui?)
E consequências das inundações de Lisboa? Nenhumas. António Costa prontamente afirmou não haver solução para cheias futuras da mesma dimensão. (É mentira.) E continuou sossegado na sua caminhada até ao cargo que hoje ocupa.
É certo que em Lisboa não morreram pessoas, pelo que a gravidade foi imensamente menor, logo, também, mais fácil de atirar poeira para olhos lisboetas. Em todo o caso, vislumbramos o mesmo modus operandi. Em vez de responder e esclarecer, Costa culpa a natureza e não assume qualquer responsabilidade política pelos danos. Desvaloriza a tragédia, participando em festas socialistas. A estratégia de comunicação é a grande deusa de Costa.
Desta vez, o primeiro-ministro desapareceu das entrevistas, depois da fraca figura que fez na TVI. Mas a ministra Urbano de Sousa, em vez de acorrer a uma situação ainda não pacificada, dedicou vários dias a entrevistas à comunicação social – a sua prioridade. O DN publicou até uma capa ridícula com a ministra triste, quase fazendo beicinho, tentando angariar simpatias para o governo. A MAI desceu a choramingar que passou os piores momentos da sua vida. (Pobrezinha. Nada se compara à calamidade que se abateu sobre a ministra.)
Depois de Lisboa e Pedrógão, estamos avisados para futuras ocasiões, daquelas no fio da navalha, do comportamento-tipo de António Costa. Em todo o caso, desta vez tivemos uma inovação. O PS, partido do governo politicamente responsável pelo estado falhado que foi Portugal no penúltimo fim de semana, mortos, desaparecidos, feridos e desalojados à mistura, pede a demissão de um provedor da Santa Casa da Misericórdia. É mesmo esta a demissão que se impõe. Não fora pornográfico e seria cómico.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Programa 3 + Colégios Fomento


O Fundo de Bolsas dos Colégios de Fomento* reforçaram o apoio às famílias numerosas através do Programa 3+, em que as mensalidades a pagar correspondem apenas aos 3 filhos mais velhos, não se pagando a mensalidade a partir do 4º filho.

Em síntese, as famílias irão pagar no máximo as mensalidades de três filhos.

Este programa tornará os Colégios de Fomento ainda mais amigos das famílias.
Mais informações em http://bolsasfomento.pt/.


* Colégios : Planalto e Mira Rio em Lisboa, Horizonte e Cedros em Gaia

Carta de um pai às educadoras dos seus filhos

BERNARDO VALLE DE CASTRO   27.06.17


Excelentíssimas Educadoras dos meus filhos,


Sim, não é um exagero chamar-vos “excelentíssimas”! A vossa actividade é uma actividade de excelência: é A actividade de excelência. E isso torna-vos excelentíssimas.

Nas próximas linhas quero agradecer-vos infinitamente o valiosíssimo trabalho que fazem diariamente. É louvável o ofício, e é notável a forma como o fazem. Ouvem com certeza isto muitas vezes, mas quero garantir que pelo menos também pela nossa “boca” o ouvem.



1. A missão
Têm em mãos a maior riqueza que objectivamente existe no mundo: pessoas que entram agora nele. Não existe maior tarefa, mais digna, mais elevada, de tanta responsabilidade, que exija tanto de alguém.
Desejo ardentemente que, apesar do cansaço que devem sentir no final do dia de trabalho (e eu só tenho que lidar com os meus!), consigam voltar constantemente àquele desejo, talvez então pouco maturado, que vos fez escolher essa missão, a vossa vocação.


2. Pais: dispensadores de critérios
Quando decidimos ser pais, é porque estamos abertos ao que Deus nos pede: na Sua eterna generosidade e humildade, Deus quis precisar de nós para continuar o Seu projecto de Criação. Aceitar este pedido é uma parte relevantíssima do trabalho de permitir que mais gente seja feliz, dando a conhecer o Amor que Deus tem por cada nova criatura.
Mas é só uma parte: a outra é ajudar a pessoa a crescer, a descobrir quem é, ao que pertence, a Quem pertence. E aqui entram não apenas os pais mas também a escola.
Os pais são quem primeiro acolhe e apresenta o mundo aos filhos, dando-lhes os critérios com que depois nele actuarão, usando cada vez mais a sua liberdade. Que enorme responsabilidade a de mostrar a novas pessoas, ainda tábuas rasas, tudo aquilo de que elas são herdeiras: uma cultura, tantos valores, tantas ideias e conquistas que o Homem fez até chegar aqui. É, de facto, uma tarefa desproporcional em relação à nossa capacidade. Mas é uma responsabilidade da qual não nos podemos alienar.
Se, por um lado, devemos permitir que os nossos filhos trilhem o seu próprio caminho, como seres únicos, independentes e individuais que são, feitos para a liberdade e para irem ainda mais longe no caminho que chegou até eles, devemos antes, ainda assim, obrigatoriamente, dar-lhes o mapa que recebemos enquanto herdeiros de milhares de anos de Humanidade. Seria um erro não propor como caminho certo e seguro aquele que recebemos, testado, pensado, maturado, bom. Com a sua liberdade, os nossos filhos poderão depois traçar o seu próprio caminho, usando os critérios que lhes fornecemos como instrumentos seguros, ou outros que da sua experiência tenham recebido.
Enquanto pais, o que queremos é que, usando ou não os critérios que lhes fornecemos que achamos bons e úteis e por isso lhes transmitimos eles saibam o que são critérios verdadeiros, que os tornam livres e felizes.
Enquanto católicos, temos a tarefa mais que facilitada: sabemo-nos integrados no corpo da própria Verdade incarnada, cujo único propósito é ver-nos felizes. Ao longo de séculos, de milénios, o Homem foi pensando e percebendo o que correspondia ao seu infinito desejo de felicidade. A certa altura Jesus afirmou ser, Ele próprio, a resposta a esse desejo. Quais são os pais que, tendo experimentado isto, não o desejam também para os seus filhos?
Enquanto católicos, já temos o mapa. Isso não nos dispensa, contudo, de verificarmos, nós próprios, por nós, utilizando a nossa inteligência, a bondade desse caminho que nos é apresentado. É nossa obrigação fazê-lo.

3. As educadoras dos meus filhos: quem, com os pais, lhes apresenta a Humanidade
Assim pensada a tarefa dos pais, rapidamente percebemos que a tarefa dos educadores (e dos professores) é em tantas coisas semelhante à de pais.
Seria absurdo querer “ensinar o Padre Nosso ao vigário”, mas perdoar-me-ão a minha vontade de querer transmitir o que desejava que fosse a tarefa de quem recebe os meus filhos desde os poucos meses de idade.
É um enorme privilégio, o vosso, o de serem as primeiras pessoas fora do círculo restrito da família para quem os nossos filhos vão olhar como exemplo. Que responsabilidade! A forma como falam, a forma como agem, a forma como respondem, como olham, como jogam com eles, tudo isso sabem-no bem é por eles bebido com critério. Dentro de cada tarefa, estão a completar nos nossos filhos os óculos com que depois eles olharão para a sua vida. Que aliança tão grande que tem que haver entre nós. É comovente ir buscar os filhos ao Colégio e, no carro, ouvir um deles a cantar as músicas que nós já não ouvíamos desde crianças; ou quando rezamos no carro, de manhã, e eles dizem que falta uma coisa: “Em nome do Pai, do Filho e ́Pirito Santo”: é aqui, nestes pequenos pormenores, que temos a certeza de que a tradição está a ser passada.
A minha preocupação como pai, na fase em que os meus filhos estão e por isso vos dirijo agora estas linhas é que eles olhem para as educadoras e vejam referências em tudo imitáveis, sem excluir absolutamente nada. Também a imperfeição que nos caracteriza é oportunidade de educar, se com ela eles aprenderem o que é a vontade de melhorar e o perdão. Quero, claro, que eles aprendam as pequenas tarefas que são adequadas para aprender na sua idade, mas ao mesmo nível quero que eles tenham o privilégio de embaterem em humanidades grandes, em pessoas intrinsecamente verdadeiras, autenticamente boas. Isso não está em nenhum contrato profissional: está no desejo de perfeição que nos faz felizes se for seguido.
Rezo por todas as educadoras dos meus filhos, para que, no limite, sejam como Nossa Senhora e, através das tão absolutamente fundamentais tarefas que ensinam aos meus filhos, os ajudem a ver a Verdade.


Muitíssimo obrigado,

Bernardo do Valle de Castro (pai do Bernardo Pio, da Leonor e da Maria) 

A educação católica deve preocupar-se com os pais

http://www.educris.com

«Como é que a Escola Católica responde aos desafios da educação hoje» foi o tema que o padre João Seabra levou ontem, dia 20 de junho, a Fátima, cerca de 44 membros das direções das Escolas Católicas.


O presidente da Associação para a Educação, Cultura e Formação (APECEF), proprietária do Colégio de S. Tomás e administradora do Colégio de S. José do Ramalhão, afirmou aos diretores que uma escola católica o é “porque tem uma preocupação de fundo com os pais”:
“A educação de uma escola católica deve ter em atenção o lugar dos pais na atualidade pois a família é fundamento da educação da escola católica. Educar os filhos significa entrar em diálogo profundo com os pais”.
Para o responsável de duas escolas católicas o modo como “muitas famílias vivem desprotegidas, desestruturadas e com dificuldades em encontrar tempos para estarem juntas” deve estar no centro de um equilíbrio entre “o instruir e o educar”.
Refletindo os desafios que se colocam a uma instituição educativa católica na atividade o padre João Seabra considerou fundamental “que o «ser católico» esteja presente em toda a instituição educativa iluminando, estabelecendo dinâmicas e estratégias de acordo com a visão cristã da educação:
“Isto comporta, não poucas vezes, olhar para os próprios manuais das disciplinas, sem ir contra o proposto pelo Ministério da Educação, para que não estejamos a educar catolicamente e a instruir anti catolicamente”, afirmou.
A proposta foi a de, nas “diferentes áreas do saber percecionar o que é verídico e o que é ideológico”.
“De outro modo podemos fazer campanhas de solidariedade, acolher os nossos alunos nos sacramentos, levar os alunos a percecionar Deus e a Igreja, mas, se não soubermos olhar criticamente para os manuais e os programas que são criados por ideologia e não por ciência, o que fica, de facto, nos nossos alunos?”, questionou.
O padre João Seabra considerou que as instituições católicas devem levar os alunos “a ter um olhar crítico sobre o mundo e a realidade para o transformarem” e não pretender “que todos sejam católicos mas que o ser católico seja uma possibilidade”, sustentou.
Reautorizar o professor e afirmar o valor de cada pessoa
Na segunda parte da sua intervenção o presidente da AECF apontou como urgente a “reautorização do professor dentro da escola”:
“Hoje assistimos a uma desautorização do professor dentro das escolas. É fundamental voltar a autorizar estes agentes educativos afirmando o valor da pessoa, de cada professor, na relação com os alunos”:
“Este aspeto recorda-me sempre a importância da proximidade com os mais novos em todos os espaços das escolas. Nos colégios da Companhia de Jesus haviam os «irmãos do recreio» que tinha tanta importância como o diretor de estudos. Esta proximidade e presença permanente é fundamental numa escola católica”.
No final da sua intervenção o pare João Seabra recordou que a escola católica deve “transmitir a beleza de Jesus” e não “um conjunto de doutrinas”.
“A nossa comunicação da fé deve ser bela e não pode ser apenas uma transmissão da doutrina mas sim uma experiência pessoal”:
“Hoje na Igreja tendemos a ser muito kantianos no sentido em que pensamos que podemos conhecer o cristianismo apenas através da razão e dispensarmos o evangelho. O Cristianismo o próprio Jesus e só se consegue aceder a ele através do encontro. As nossas escolas devem ser lugar de encontro”, finalizou.
A ação de formação foi uma parceria entre a Associação Portuguesa de Escolas Católicas (APEC) e o departamento da Escola Católica (DEC) do Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC).


Onde raio está uma comissão independente?

JOÃO MIGUEL TAVARES   PÚBLICO   27.06.17

Como a todos toca a culpa, vão imperar os golpes baixos. E quem perde, como sempre, é a pobre verdade a que todos os portugueses têm direito.

Eu explico o que António Costa já devia ter feito, e não fez. Na terça ou na quarta-feira, ele devia ter agarrado no telefone e ligado a António Barreto para lhe dizer o seguinte: “O que aconteceu em Pedrógão Grande foi uma tragédia como não se via há 50 anos. Não pode restar uma pinga de dúvida sobre o que se passou, como se passou e de que forma poderia ter sido evitado. Quero que todas as responsabilidades sejam apuradas até ao fim, e nem o Governo, nem a oposição, nem qualquer uma das forças envolvidas no combate ao fogo está em condições de apresentar um relatório imparcial. O país precisa de uma figura consensual e acima de qualquer suspeita para presidir a uma comissão independente, que no período de 30 dias seja capaz de apresentar as suas conclusões, de forma a que nenhum português bem-intencionado possa duvidar delas. Você é essa figura. Tem total liberdade para constituir a sua equipa, coloco os meios que forem necessários à sua disposição, e darei ordens para que todas as instituições do Estado respondam às perguntas que entenda serem convenientes fazer. No final, o Governo estará disponível para arcar com as consequências políticas daquilo que a comissão independente conseguir apurar.”

Era isto que António Costa deveria ter feito. Era isto que a oposição lhe deveria ter exigido. Era isto que os portugueses mereciam ouvir. António Barreto é só um exemplo. Se ele não estivesse disponível, Costa escolheria outra figura de prestígio, com independência política, estatura intelectual e provas dadas na arte de pensar pela própria cabeça. Não haverá muitas em Portugal. Mas ainda há algumas. E é para isso que os senadores da república servem. Uma tragédia como esta não se via desde as inundações da região de Lisboa de Novembro de 1967, e o sentimento de ausência do Estado é assustadoramente parecido nos dois casos, apesar de haver meio século a separá-los. São as mesmas falhas no ordenamento do território (há 50 anos, na construção desordenada de casas em cima do leito de rios e ribeiras; agora, na plantação desordenada de pinheiros e eucaliptos em cima de casas e de estradas); as mesmas falhas das autoridades em responder aos pedidos de ajuda; a mesma tentação em menorizar a dimensão da tragédia (há 50 anos, a censura riscava os títulos que garantiam existir “centenas de mortos” – havia mesmo –, substituindo-os por “dezenas de mortos”, e atiravam-se as culpas para cima da mãe natureza; agora, menoriza-se a descoordenação das autoridades, e atiram-se as culpas para cima da mãe natureza).

António Costa, ao não constituir de imediato uma comissão independente, e ao preferir apoiar o PSD na criação de uma comissão parlamentar, até pode ter feito uma grande jogada política. Mas os portugueses, como de costume, saem a perder. Aquilo que aí vem é o que já aí está: Passos Coelho, que se encontrava politicamente comatoso, agarrou-se à tragédia de Pedrógão com tal entusiasmo que até vê suicídios entre pinheiros. E vamos ter mais visões, condenados que estamos a um teatrinho feio por parte de partidos profundamente unidos no abandono do país e no desvio dos meios do Estado ao longo de décadas em seu proveito e dos seus amigos. Como a todos toca a culpa, vão imperar os golpes baixos. E quem perde, como sempre, é a pobre verdade a que todos os portugueses têm direito. Depois de tamanha tragédia, só falta mesmo ela acabar cozinhada à moda de Camarate: crime nos dias ímpares, azar nos dias pares.

Os incêndios do regime

PAULO VARELA GOMES    PÚBLICO   11.08.2005

Vivo no campo ou perto do campo, na região centro, há já alguns anos. Há três Verões que me sento a trabalhar, enquanto a cinza cai de mansinho no meu teclado, em cima dos meus livros, no chão que piso. Não tenho culpa do que é hoje este país e o regime que o representa: militei e votei sempre em partidos que apregoavam querer outro tipo de regime e deixei de militar e de votar quando vi esses partidos tornarem-se tão legitimistas como os outros

O território português que está a arder - que arde há vários anos - não é um território abstracto, caído do céu aos trambolhões: é o território criado pelo regime democrático instalado em Portugal desde as eleições de 1976 (a III República Portuguesa). Está a arder por causa daquilo que o regime fez, por culpa dos responsáveis do regime e dos eleitores que votaram neles.

Ardem, em Portugal, dois tipos de território: em primeiro lugar, a floresta de madeireiro, as grandes manchas arborizadas a pinheiro e eucalipto. A floresta arde porque as temperaturas não param de subir e porque, como toda a gente sabe, está suja e mal ordenada. Não foi sempre assim: este tipo de floresta começou a crescer nos últimos 50 anos, com a destruição progressiva da agricultura tradicional, ou seja, com a expropriação dos pequenos agricultores, obrigados em primeiro lugar a recorrer à floresta pela ruína da agricultura, para, depois, perderem tudo com os incêndios e desaparecerem do mapa social do país. Também isso está na matriz da III República: ela existe para "modernizar" o país, o que também quer dizer acabar com as camadas sociais de antigamente, nomeadamente os pequenos agricultores. Em 2005, os distritos de Portalegre, Castelo Branco e Faro ardem menos que os outros e não admira: já ardeu aí muita da grande mancha florestal que podia arder, já centenas de agricultores e silvicultores das serras do Caldeirão ou de S. Mamede perderam tudo o que podiam perder.

O segundo tipo de território que está a arder, em particular neste ano de 2005, é o território das matas periurbanas, características dos distritos mais feios e mais destruídos do país: os do litoral Centro e Norte. Os citadinos podem ver esse território nas imagens da televisão, a arder por detrás dos bombeiros exaustos e das mulheres desesperadas que gritam "valha-me Nossa Senhora!": é o território das casas espalhadas por todas as encostas e vales, uma aqui, outra acolá, encostadas umas às outras, sem espaço para passar um autotanque, separadas por caminhos serpenteantes, que ficaram em parte por alcatroar - é o território das oficinecas no meio de matos de restolho sujo de óleo, montanhas de papel amarelecido ao sol, garrafas de plástico rebentadas. É o território dos armazéns mais ou menos ilegais, cheios de materiais de obra, roupas, mobiliário, coisas de pirotecnia, encostados a casas ou escondidos nos eucaliptais, o território dos parques de sucata entre pinheiros, rodeados de charcos de óleo, poças de gasolina, garrafas de gás, o território dos lugares que nem aldeias são, debruados a lixeiras, paletes de madeira a apodrecer, bermas atafulhadas de papel velho, embalagens, ervas secas. É o território que os citadinos, leitores de jornais, jornalistas, ministros, nunca vêem porque só andam nas auto-estradas, o território, onde, à beira de cada estradeca, no sopé de casa encosta, convenientemente escondido dos olhares pelas silvas e os tufos espessos de arbustos, há milhares - literalmente milhares - de lixeiras clandestinas, mobília velha, garrafas de plástico, madeiras de obras (é verdade, embora poucos o saibam: o campo, em Portugal, é muito mais sujo que as cidades).

Este território foi criado, inteiramente criado, pela III República. Nasceu da conjugação entre um meio-enriquecimento das pessoas, que, 30 anos depois do 25 de Abril, não chega para lhes permitir uma verdadeira mudança de vida, e o colapso da autoridade do Estado central e local, este regime de desrespeito completo pela lei, que começa nos ministros e acaba no último dos cidadãos. É o território do incumprimento dos planos, das portarias e regulamentos camarários, o território da pequena e média corrupção, esse sangue, alma, nervo da III República.

É evidente que a tragédia dos campos e das periferias urbanas portuguesas se deve também ao aumento das temperaturas. Para isso, o regime tão-pouco oferece perspectivas. De facto, seria necessário mudar de vida para enfrentar o que aí vem, a alteração climatérica de que começamos a experimentar apenas os primeiros efeitos: por exemplo, seria necessário reordenar a paisagem, recorrendo à expropriação de casas, oficinas, armazéns, sucatas. Seria necessário proibir a plantação de eucaliptos e pinheiros. Na cidade, pensando sobretudo nas questões relativas ao consumo de energia, seria necessário pensar na mudança de horários de trabalho, fechando empresas, lojas e escolas entre o meio-dia e as cinco da tarde de Junho a Setembro, mantendo-as abertas até às oito ou nove da noite, de modo a poupar os ares condicionados - cuja factura vai subir em flecha. Modificar os regulamentos da construção civil, de modo a impor pés-direitos mais altos, menos janelas a poente, sistemas de arrefecimento não eléctricos. 

Para alterações deste calibre - que são alterações quase de civilização -, seria preciso um regime muito diferente deste, um regime de dirigentes capazes de dizer a verdade, de mobilizar os cidadãos, de manter as mãos limpas.

Vivo no campo ou perto do campo, na região centro, há já alguns anos. Há três Verões que me sento a trabalhar, enquanto a cinza cai de mansinho no meu teclado, em cima dos meus livros, no chão que piso.

Não tenho culpa do que é hoje este país e o regime que o representa: militei e votei sempre em partidos que apregoavam querer outro tipo de regime e deixei de militar e de votar quando vi esses partidos tornarem-se tão legitimistas como os outros.

Espero um rebate de consciência política por parte destes políticos, ou o aparecimento de outros. Faço como muitos portugueses: espero por D. Sebastião, desempenho a minha profissão o melhor que posso, e penso em emigrar. Historiador (Podentes, concelho de Penela) 

Missa em sufrágio das vítimas de Pedrogão Grande

Há uma semana, a paróquia de Alcântara em união com a Junta de Freguesia, organizou uma missa em sufrágio pelas vítimas do incêndio de Pedrogão Grande. 
Esta fotografia espelha bem a beleza dessa celebração. 


Em Castanheira de Pêra

MARTA CALADO     27.06.17


Viemos de Castanheira de Pêra um bocado tristes pela destruição de vidas (as que já foram e as que ficaram sem nada)  e também da nossa querida natureza. 



Fomos a Vila Facaia e os seus habitantes são um exemplo de por confiarem na providência que a todos nos quer bem, Esperança porque ao estarem vivos não deixam de dar valor à sua própria vida, como dizia a Sra. de 84 anos, preciso de ir a Fátima agradecer ter sido salva, e Caridade porque não se pode não ajudar, o nosso coração é como que agarrado pelo flagelo de há uma semana. 

A prova disso são os bombeiros que já tendo apagado os fogos trabalham incansavelmente ao serviço da comunidade recebendo os voluntários dando lhes alimentação e dormida mesmo com os seus colegas internados em risco de vida. 

Não podemos não estar agarrados ao que aconteceu no nosso Portugal e foi isso que nos levou ir lá... 

Tenho muito mais para contar, por exemplo o trabalho espetacular dos médicos do mundo onde trabalhamos.

Marta Calado