sábado, 17 de junho de 2017

O maior dos milagres

Pe. DUARTE DA CUNHA     VOZ DA VERDADE    19.06.17


É normal que as fotografias, os presentes recebidos, ou algo que herdámos nos tragam à memória os amigos e episódios vividos juntos. Quando queremos recordar Jesus Cristo algo de semelhante acontece, mas de outra ordem. Não é só lembrança.
Quando lemos os Evangelhos, a Palavra que chega a nós é mais do que a recordação do que Jesus disse ou uma mensagem genérica de Deus. O Espírito Santo que inspirou os evangelistas para saberem o que escrever também nos ilumina para nos levar a compreender o significado dessa Palavra. Não lemos o Evangelho como se fosse uma carta de um avô. Não temos só bons conselhos que nos chegam do passado, mas Deus fala-nos mesmo!
Passa-se algo de semelhante, mas a um nível ainda mais impressionante, quando celebramos a Missa. Não é só uma recordação simbólica, como uma lembrança, ou um rito que se repete para recordar algo que aconteceu no passado: a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Trata-se de um milagre, de algo que Deus realiza aqui e agora! O maior dos milagres que re-acontece em cada Missa! Nós, humanos, podemos deixar aos herdeiros coisas ou símbolos, lembranças ou fotografias! Mas Jesus é Deus, Ele vence o tempo, Ele tem um poder criador, por isso, Ele não se limita a deixar-nos uma recordação, Ele deixa-Se Si mesmo. É impressionante, parece mesmo impossível. Mas acreditando que Jesus é verdadeiramente Deus, acreditamos que pelo Seu poder divino consegue fazer-Se presente e tornar-nos presentes e, por isso, beneficiários do Seu sacrifício na Cruz que nos reconcilia com Deus, e da Sua ressurreição que renova a nossa vida e gera a comunhão entre nós.
Jesus disse: “Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6, 54). Não estava a falar de um “faz-de-conta”, e quem o escutava percebia isso mesmo. Aliás, muitos se escandalizaram com estas palavras, parecendo-lhes esquisito o que Jesus dizia, e deixaram de O seguir (Jo 6,66). Mas os doze, e com eles muitos outros, mesmo não percebendo bem o que Jesus dizia, sabiam que não seria razoável abandonar Jesus. A vida que eles tinham já começado a experimentar no convívio com Jesus não era uma fantasia. Negar essa experiência era irracional! E assim chegaram à Última Ceia onde Jesus desvelou o mistério ao dizer do pão: “Isto é o meu corpo”. Não disse: isto lembrar-vos-á o meu corpo. Não disse: isto simboliza o meu corpo! Disse: “Isto é o Meu corpo”! E depois disse: “Fazei isto em memória de Mim”. “Fazei isto”, ou seja, fazei do pão o Meu corpo e do vinho o Meu sangue. Dou-vos poder para isso. É isso que tereis como minha memória. Não uma ideia: “Eu mesmo”! 
Quando olhamos para a hóstia consagrada, porque ela é Cristo realmente e substancialmente presente, caímos de joelhos. Sentimo-nos indignos e pequenos por nos ser dado a comungar o Corpo de Deus! Por isso, devemos estar em estado de graça. Seria contradição estar zangado ou ter ofendido a Deus e, sem Lhe pedir perdão, fingir que tudo está bem! A celebração da Missa, portanto, complementa-se muito bem com a adoração do Santíssimo Sacramento e com as procissões do Santíssimo Sacramento, onde temos uma experiência semelhante ao que os habitantes de Jerusalém tiveram: Deus caminha nas ruas da nossa cidade!
Ficamos impressionados com o amor à Eucaristia dos santos! E com a potência que esta tem nos momentos de perseguição. Impressiona a história do bispo – depois cardeal – Van Thuân preso no Vietnam que durante anos celebrava a Missa com três gotas de vinho e uma de água na palma da mão! Ou do P. Walter Ciszek sj que no Gulag soviético celebrava a Eucaristia às escondidas deitado na cama para ninguém descobrir e que dava a comungar aos outros presos o Corpo de Cristo quando caminhavam no pátio! São tudo histórias que fazem ver como da Eucaristia vêm a esperança, a fé e a caridade, mesmo nos momentos mais difíceis.
Recentemente, em Minsk, na Bielorrússia, onde há pouco o comunismo tinha impedido qualquer manifestação de fé, participei na procissão do Corpo de Deus. Esta, por conveniência pastoral, realiza-se no último Domingo de Maio, para que estejam presentes as crianças que fizeram a Primeira Comunhão. Caminhar com a custódia do Santíssimo nas mãos, naquelas ruas de estilo soviético, onde são visíveis as foices e os martelos, fez-me ver de modo muito evidente que o amor à Eucaristia e a seriedade da devoção, que alimenta a fé, acaba por vencer e voltar às ruas. Não faz isto também parte da mensagem de Fátima? Todas meditações em Minsk feitas ao longo das três horas de procissão ligavam o centenário de Fátima com a Eucaristia!
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