terça-feira, 8 de agosto de 2017

Cheira a negócio

LAURINDA ALVES   OBSERVADOR   08.08.17
Eu, mulher e mãe, sentiria tanta repugnância em gerar um filho que não fosse meu como em desembaraçar-me dele no fim. Tudo isto é anti-natural. Tudo é artificial e, desculpem lá, tudo cheira a negócio.
Barrigas de aluguer, eis a designação comum e universal que não esconde absolutamente nada nas entrelinhas, ao contrário do que acontece agora, com o texto da Lei sobre Gestação de Substituição, em vigor desde o início do mês. Barrigas que se alugam, são barrigas que têm custos e se pagam caras. Ponto.
Esta lei proíbe o negócio, mas não diz como são os mecanismos de fiscalização e penalização. Além disso há custos tão ou mais elevados que os financeiros. O preço físico, moral e emocional a pagar por todo este processo pode ser brutal. Desde logo para a gestante de substituição e para o bebé, mas não só. Digam o que disserem, a lei não é tão estrita como querem fazer crer. Se fosse, tenho a certeza de que Jerónimo de Sousa e os seus camaradas a teriam aprovado. Mas não aprovaram.
No Verão passado Marcelo vetou a lei com o argumento de que era pouco clara no que diz respeito aos superiores interesses do bebé. Um ano depois a lei aprovada continua a não proteger o bebé nem garante os seus superiores interesses e, por isso, é claramente ‘um pé na porta’. Uma porta que já ninguém vai conseguir fechar, apenas abrir cada vez mais.
Todos temos consciência de que um portão grande e pesado não se abre à primeira, mas também todos sabemos que a partir do momento em que o pé fica bem seguro no portal, ele já não volta a fechar. A técnica é infalível para larápios, aliás. Mais cedo ou mais tarde, esta porta das barrigas de aluguer estará escancarada no nosso país e, então, todos os caminhos ficarão livres para as opções que agora não foram contempladas e supostamente estão bem acauteladas.
Que ilusão pensar que esta lei ficará por aqui. A mentira tem perna curta, a omissão é sempre coxa e, fatalmente, faz tropeçar mais à frente. Para já, quem legislou e quem aprovou fala com candura (e uma grande lata) sobre uma lei de excepção que proíbe quase tudo, desde o negócio à possibilidade da chamada ‘opção de vida’ (vide Cristiano Ronaldo), deixando também de fora os casais homossexuais. Se lermos com atenção, vemos que não é assim tão estrita pois muita coisa fica já prevista nas entrelinhas:
“O recurso à gestação de substituição só é possível a título excepcional e com natureza gratuita, nos casos de ausência de útero e de lesão ou doença deste órgão que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez da mulher ou em situações clínicas que o justifiquem”.
Como é óbvio esta última frase não é inocente. Muito pelo contrário. Estrategicamente colocada, deita por terra todo o argumentário dos legisladores, quando nos tentam convencer que a lei é para casos ultra-excepcionais. Não é. A prova é esta mesma abertura a “situações clínicas que o justifiquem”. De que situações clínicas estamos a falar? Ditadas por que circunstâncias? E prescritas por que tipo de médicos? Nesta derradeira frase cabe tudo e mais alguma coisa, como facilmente se percebe. Aliás por ter tropeçado nesta frase, o PCP votou contra a lei.
Mas não é apenas esta frase que nos deixa inquietos. A omissão quanto a quem vai fiscalizar o processo do início ao fim também levanta muitas dúvidas. Como vai ser feito o acompanhamento de todas as partes? E quem pode garantir que não há contrapartidas? Se houver e forem detectadas, a gestante e o bebé vão parar à cadeia? E passam lá o tempo de gravidez? E, no termo, a criança nasce e sai da prisão? E os pais biológicos da criança, também são presos? Se sim, o que acontece ao bebé? Isto, claro, no pressuposto de que há castigos e penas a cumprir para quem infringe a lei.
Nesta lei choca tudo, desde a possibilidade de mercantilizar o corpo das mulheres e industrializar a vida dos bebés, até à irrelevância absoluta e relativa da própria legislação face a mil e um problemas que, esses sim, requerem uma dedicação urgente. Falo de mais e melhores leis inclusivas e protectoras para pessoas portadoras de deficiência, mas também falo de leis mais flexíveis e facilitadoras de processos mais ágeis para a adopção, para dar apenas dois exemplos gritantes e fracturantes.
Nesta lei muitas perguntas ficam sem resposta e ao ouvir os responsáveis pela sua elaboração e aprovação, os mais incautos até poderiam ficar com a ideia de que se trata de uma coisa imperativa e muito séria, extraordinariamente ética e restritiva, que apenas prevê situações extremas que convocam à bondade e solidariedade das mulheres pelas mulheres, abrindo a possibilidade de, na mesma família, uma mulher ou rapariga oferecer amorosamente a sua barriga durante nove meses para ajudar uma tia ou uma prima a realizarem o seu sonho de maternidade. Mas alguém acredita que assim seja? Eu não.
Vejamos algumas questões práticas que atravessam as mulheres de todo o mundo: salvo as que confessam que adoram estar grávidas do primeiro ao último mês (à espera dos seus próprios filhos, muito desejados, note-se), a esmagadora maioria sente que nove meses de gestação é um tempo demorado que pode revelar-se bastante pesado. Quando tudo corre bem, os chamados ‘meses do meio’ até são um tempo fácil e feliz, mas os primeiros 3 podem ser meses de suportar enjoos, e os últimos 3 um tempo de cúmulos de cansaços, com as pernas cada vez mais inchadas, numa exaustão crescente que a partir de certa altura as pode impedir de trabalhar e, nas últimas semanas, certamente interfere com o sono por já não terem posição confortável para dormir.
Mesmo as mulheres que já foram mães e passaram ‘de maravilha’ toda a(s) gravidez(es), sabem que o tempo ante e pós parto não é um mar de rosas, muito pelo contrário. A acrescentar a todos os incómodos ao longo da gravidez, no termo ainda há as lendárias contracções que doem e muito (a epidural não é dada mal começam as contracções) além de que o trabalho de parto, em si mesmo, pode estender-se durante uma eternidade e muita coisa pode correr francamente mal. Qualquer mulher que tem o desejo de ser mãe suporta tudo isto por amor, mas custa acreditar que alguém suporte o mesmo sem contrapartidas absolutamente nenhumas.
Todas as mães do mundo sabem que os meses de gravidez são um tempo cheio de exigências, cuidados e restrições. Por isso mesmo, algumas dessas mesmas exigências constam nos contratos a celebrar, nomeadamente a alimentação e os hábitos de vida de quem aluga a sua barriga, bem como as suas opções pessoais e profissionais, para já não falar da sua intimidade e do relacionamento sexual, que ficam sujeitos a condicionantes expressas. Também por isto custa acreditar que haja mulheres que aceitam tudo sem qualquer contrapartida. Só porque sim, e porque outras não podem gerar os seus próprios filhos.
Neste capítulo abro alguns parêntesis concretos, com interrogações práticas: onde estão e quem são as mulheres que cedem gratuitamente o seu corpo e prescindem das suas rotinas, que são capazes de sentir um bebé crescer dentro de si ao longo de nove meses, relacionar-se com ele, senti-lo mexer-se, ouvir os seus batimentos cardíacos e ver as ecografias, interagir com ele e estabelecer vínculos, para depois o entregar como mercadoria?
Quem são e onde estão estas mulheres que sabem que o bebé ouve a sua voz e acompanha os seus movimentos, absorve as suas emoções e grava memórias como que ancestrais, para depois o despejarem como se esvazia um saco de compras na volta do supermercado? Insisto, quem são e onde estão estas mulheres que fazem tudo isto a troco de nada?
Toda a vida de uma grávida fica condicionada ao longo de nove meses, fora os que se seguem, em que o cansaço impera e muitas mulheres lutam contra a flacidez instalada. Todas as puérperas sem excepção precisam de descansar para recuperar a forma e eventualmente perder peso, mas tão importante como tudo isto, é o clássico ‘baby blues’ que desaba sobre muitas mulheres que acabaram de dar à luz. Hormonalmente falando, a gravidez é uma montanha russa e embora nem todas as mães recentes sintam esta ‘depressão pós parto’, muitas experimentam uma certa tristeza, desânimo ou nostalgia. E, volto a insistir, tudo isto a troco de nada? Custa acreditar.
Voltando à lei propriamente dita, o PCP votou contra por razões que também me assistem e estou cem por cento de acordo com Jerónimo de Sousa e os seus camaradas. Os superiores interesses da criança não estão assegurados e em lado nenhum se percebe o que acontece se a mulher gestante desistir de entregar o bebé no fim da gravidez. Por outro lado, se os dadores de gâmetas também se separarem ou desistirem de ter aquele filho, onde vai parar o bebé? E se houver malformações congénitas, quem decide o que se segue? E se os beneficiários rejeitarem o bebé por alguma razão? Mais, estará salvaguardado o direito de a criança poder vir a conhecer a mãe que o gerou, apesar de não ser a sua mãe biológica? E que impacto tem tudo isto no desenvolvimento emocional de um ser humano?
“O texto aprovado não assegura resposta adequada” considerou o PCP. Sobretudo quando “já há um novo ser que nasceu e tem direito a ser desejado e amado”. Também acho. E acho mais: eu, que sou mulher e mãe, sentiria tanta repugnância em gerar um filho que não fosse meu como em desembaraçar-me dele no fim. Tudo é anti-natural. Tudo é artificial e, desculpem lá, tudo cheira a negócio.

Certificado de ordem primária (1ª crónica estival)

MARIA JOÃO AVILLEZ   OBSERVADOR    08.08.17
Fui-me apercebendo que, se não me lembro de os meus pais se terem “ocupado” desta forma dos meus filhos, foi simplesmente porque não era, como hoje é, (quase) urgente fazê-lo. Era-se avó doutra forma.
1. Não é que esteja distraída com o Verão (como se pudesse dar-me a esse luxo); nem que desde Julho não se cozinhem empadões, guisados e picados; ou não haja, no ar, aquele inquietante pré-aviso de iminente alteração da ordem vigente. Mas a verdade é que não esperava para já tão aparatoso alarido. Temi afogar-me entre as datas de chegada dos vários “estrangeiros” onde vive a prole, entre a “requisição de apoios logísticos e automobilísticos, entre a permanente indefinição dos locais por onde contam cirandar, entre vários e variados outros requisitos. O “pater famílias” exausto antes do tempo, optou por fabricar um mapa (um excel mas detesto a palavra) com a ilusão de que lá imprimindo a complexa agenda das férias estivais dos filhos&famílias, “tudo se resolveria”. O “tudo” não é senão a (vã) tentativa de que as nossas cabeças percebam a quantas andamos e consigam depois organizar-se (as cabeças) em função dessa suposta, digamos, descoberta de algum norte trazido pelo mapa.
2. Não tem sido fácil, nem fluído: tão depressa os filhos chegam num dia como “afinal” noutro; mal anunciam, com “carácter definitivo”, que estacionarão de armas, bagagens e filhos em Lisboa, “afinal” vão directos para destinos neles assaz improváveis como a Praia Grande ou Sesimbra, “mas se puderem deixem aí um carro” (como se tivéssemos uma loja de carros).
Passadas que serão porém esses novos locais e a sacrossanta paragem na mítica “costa vicentina”, a tribo desaguará no nosso Oeste, produzindo ao aterrar uma indefinível composição de “feelings” que vão da nossa mais imensa alegria a um sempre reeditado espanto face à sua prodigiosa capacidade em subverter a ordem e a vida como nos habituamos a achar que elas são. Como se trouxessem consigo um certificado de desordem, devidamente autenticado pela realidade que usam praticar.
Convencionara-se – verbo de uso por aqui pouquíssimo praticado – que o tal mapa contemplaria o calendário da vida estival, das entradas e saídas, até à (preciosa) informação sobre o “estatuto” dos amigos esperados – residente, passante, hóspede de curta duração… Serviu de pouco: ultrapassado pela velocidade das geografias e geometrias destas vidas, o mapa foi ficando de pouca serventia.
3. “É para avisar que depois de Sesimbra, chego aí com um grupo no dia tal”, anunciava-me há dias telefonicamente um filho, algures da vasta Europa. Um “grupo”?
O “aviso” alertando para (ainda) mais camas e víveres (quem gere a estalagem sou eu) indicava sobretudo o quanto o meu interlocutor telefónico pouco se impressionara com a lotação esgotada da casa. Já anteriormente requisitada para abrigar amigos estrangeiros de outro irmão que “vinham de propósito, mãe!” Deslocavam-se do mundo para A-dos-Negros, operação que num puro acto de overbooking eu temia que fosse agora curto-circuitada. E por “um grupo”.)
E pensar que faltavam ainda os “avisos” de última hora de um terceiro filho que também poderia mudar datas e alterar destinos, que a única coisa previsível em tudo isto é a imprevisibilidade deles próprios.
4. Desisti. Não era só o overbooking. Nem supermercados, reabastecimentos de frigoríficos ou andar por estes montes e vales a suplicar mais ajudas domésticas. Era, como dizer?, a perplexidade com que (ainda) olho esta espécie de “rendição” que o século XXI – e o final do XX – viu consumar-se nos pais face aos filhos. E dos avós, capturados pela vida dos netos, as compras, os sapatos, as gripes, os estudos, as actividades extra-escolares dos netos. Ser avó virou uma saga generosa, capaz de transfigurar uma reforma pacata numa cavalgada afanosa. Uma segunda vida: sem horas e garantidamente multiusos.
Sim, sim, já o ouço, caro leitor, a dizer-me que se não quiséssemos, não seria assim, rendição tão voluntária. Sucede que não é bem isso e só o descobri quando chegou a nossa vez. Passou a ser assim, porque passou a ser preciso acudir.
Quem tem trinta ou trinta e tal anos esfalfa-se para domar a vida: muito trabalho fora de casa e pouca ajuda dentro dela; filhos, custo de vida alto, remunerações baixas. Como “actuar” face a um estado de coisas que os filhos têm hoje de protagonizar e vencer ao mesmo tempo, senão aligeirando quotidianos povoados de crianças e responsabilidades, com uma duração non stop entre a aurora e a noite entrada?
Fui-me apercebendo com os anos que, se não me lembro de os meus pais se terem “ocupado” desta forma dos meus filhos, foi simplesmente porque não era, como hoje é, (quase) urgente fazê-lo. Era-se avó doutra forma. A configuração da vida desenhava-se com outras coordenadas que pouco ou nada oscilavam. A previsibilidade era um instrumento de navegação, havia amparos familares e ajudas domésticas; havia algo de parecido com garantias, ainda não se praticava a precaridade. E havia menos surpresas. De algum modo sentíamo-nos a salvo. Sem nunca perceber que isso não tinha preço mas tinha os dias contados.
5. Apesar do omnipresente Canal Panda, de tropeçar mil vezes ao dia em sapatos desirmanados, biberons e toalhas de praia sempre sem dono, de me afligir outras tantas com o assassínio dos canteiros pela bola de futebol; de, em vão, me enervar com o facto (não despiciendo) da parte de cima dos pijamas não “pertencer” à de baixo; apesar dos inoxidáveis “mas” (“mas porque é que não posso ter o Ipad do avô?”; “mas porque é que não havemos de ir às Caldas comer um gelado?“; “mas porque é que tenho de ir tomar banho?”) é aqui, neste Oeste silencioso, brumoso e atlântico, que me sinto a salvo. E neblinas por neblinas, iodo por iodo, ventos por ventos, prefiro-o a qualquer Praia Grande ou Pequena, ou à improvável Sesimbra que este Verão seduziu os meus. Um porto de abrigo onde (com breve escapadas) se permanece toda uma época, deixando Lisboa muito ao longe, mesmo sabendo-a à mão de semear, pertíssimo daqui. Mas a essência desta “outra vida” que o poeta dizia que “era o Verão” não é senão tornar maravilhosamente longínquas quaisquer distâncias, por mais breves que sejam ou estejam.
Sim, é verdade, o desabafo contradiz a desordem ruidosa acima descrita que caracteriza as famílias numerosas que nos alegrarão os dias, guiadas pelo excel do “pater familias”. Mas é ainda mais verdade que o Verão tem o dom de “produzir” distâncias. Distâncias de tudo. O que logo define (e perfuma) o que pode ser essa “ outra vida”. Distante da “outra”.
Talvez por isso aqui me julgue a salvo. (Mas só talvez.)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Do sorriso de Fehér

ANA SOUSA DIAS   DN    06.08.17

Um dos meus heróis chama-se Ricardo Espírito Santo. No dia 25 de janeiro de 2004, ele dirigia a transmissão do jogo Guimarães-Benfica e tirou do ar, num ápice, o rosto de Miklós Fehér no instante em que o coração do jogador húngaro parou. A última imagem que tivemos dele foi um sorriso aberto. Ricardo fez, antes e depois, centenas de transmissões de futebol, um trabalho normal na vida profissional dele, que está recheada de muitos outros, no desporto como noutras áreas. Eu não o conhecia mas para mim aquele momento definiu-o. Mais tarde ficámos amigos e pude confessar-lhe o meu profundo respeito por aquele gesto instantâneo. Para ele, tinha sido uma reação normal, óbvia.

Todos os dias tomamos decisões - o que vou vestir, viro para a esquerda ou para a direita, o que faço para o jantar -, escolhas banais. As grandes decisões são outra coisa: mesmo quando parecem tomadas rapidamente, têm por trás um lastro que é a nossa vida inteira, incluindo as nossas hesitações e indecisões. Ricardo não decidiu por acaso evitar que o mundo visse em direto a morte de Fehér. Ele é assim, deontologicamente irrepreensível.

O mesmo respeito mantenho pelo realizador de um programa de entrevistas que tive na RTP2, Rui Nunes. Se o entrevistado se comovia demasiado, se lhe tremia a voz ou os olhos ficavam em lágrimas, ele retirava-lhe de imediato o grande plano do rosto, numa atitude de profundo respeito. Bem sei que há quem goste de fazer exatamente o contrário e até há quem force essas situações de lágrimas. Até há aquela clássica cena das lágrimas falsas do jornalista interpretado por William Hurt em Edição Especial (Broadcast News, 1987, realizado por James L. Brooks), desmascaradas por Holly Hunter.

Na quarta-feira passada, também eu dei por mim pasmada em frente da televisão a ver imagens do areal de São João da Caparica. Passados estes dias, agradeço à RTP por ter sido o único canal de televisão que não ficou horas especado num lugar onde aconteceu uma tragédia mas onde, passado pouco tempo, já não havia nada para mostrar em direto. Havia reportagem para fazer, para depois editar, mas não era necessário ficar em direto. E muito menos a entrevistar, para ocupar o tempo, crianças que tinham acabado de testemunhar a morte de duas pessoas. Vi pelo menos duas crianças a quem foram pedidos pormenores do acidente.

Tive sorte, não vi o momento em que o pai de Sofia quis falar para o microfone da TVI24. Posso imaginar - e dizem-me que foi evidente - o embaraço e o pudor da repórter. Se estava decidido manter o direto, devia haver alguém na régie a dirigir a emissão com sangue-frio e preocupação ética, alguém que decidisse parar a cena de imediato. Não é apenas bom senso: há regras para isto, nós jornalistas temos um código deontológico que é claro a este respeito.

Nos antípodas do episódio Fehér tenho na memória um dos momentos em que senti maior vergonha alheia. Foi durante as longuíssimas horas em que, no dia 4 de março de 2001, houve os mais absurdos diretos de televisão: o acidente de Entre-os-Rios. Não acontecia absolutamente nada. De vez em quando, mergulhadores faziam buscas no leito lamacento e caudaloso de um Douro que escoava águas de muitas chuvas, mas cada vez se tornava mais óbvio que não iria aparecer nada. Soube-se mais tarde que morreram ali 59 pessoas, dentro de um autocarro e de três carros que atravessavam a Ponte Hintze Ribeiro quando um dos pilares ruiu. Nada mais havia para ver, porque a violência das águas tinha arrastado tudo em direção ao mar.

Tal como no areal da Caparica, também havia jornalistas a entrevistar pessoas que por ali andavam. Na maioria, eram familiares, amigos, vizinhos dos que tinham desaparecido. Sei, porque fiz perguntas depois, que os repórteres no local recebiam da chefia ordens constantes para mostrar "sangue", maneira de dizer que era preciso agarrar os espetadores com algum pormenor escabroso. E foi então que uma repórter anunciou: "Vamos falar com um menino que costumava ir às excursões com os avós mas desta vez foi substituído por um irmão." A pergunta nunca me sairá da cabeça: "Tiveste pena de não ir na excursão?"

Quando dou aulas, refiro sempre este exemplo como o cúmulo do que não deve ser feito. Está lá tudo: a entrevista a uma criança sobre uma tragédia, a insistência num direto sem sentido, a exploração descabelada do voyeurismo básico que todos temos um pouco em nós. E a estupidez da pergunta, claro.

Podermos ver em tempo real algo que está a acontecer é um feito extraordinário que a tecnologia nos dá. Mas um direto de informação não é uma câmara de vigilância à espera de que alguma coisa aconteça.

O agosto terrível

LEONÍDIO PAULO FERREIRA    DN   07.08.17

Estive neste ano em Hiroxima e Nagasáqui, as duas cidades japoneses que sofreram o horror atómico. Aconteceu há 72 anos, com a efeméride de Hiroxima a ter sido celebrada ontem e a de Nagasáqui a estar marcada para quarta-feira. Visitei os dois memoriais às vítimas, percorri em ambas as cidades os museus que contam os horrores. Também posso testemunhar o milagre da reconstrução, de como o povo japonês se soube erguer das cinzas e construir uma sociedade próspera e pacífica.
A questão do pacífica não é um pormenor. Hoje não se questiona que o colonialismo tardio japonês na Ásia Oriental foi o início da desgraça do país em 1945 tal como não se questiona que as bombas americanas apressaram o fim da Segunda Guerra Mundial, forçando o imperador a declarar a rendição uma semana depois das explosões atómicas. O novo Japão foi dotado de uma Constituição pacifista pelo ocupante americano, mas com o tempo os japoneses aceitaram a ideia da renúncia à guerra e a vantagem de contar com a proteção das bases militares dos Estados Unidos, quando a União Soviética passou a ser a grande ameaça ao arquipélago. Gastando pouco em armamento, o Japão podia também apostar mais na economia. Hoje é a terceira maior.
Debate-se agora muito se o Japão pode ser uma nação normal do ponto de vista militar. A Rússia já não é a ameaça que foi a União Soviética, mas a China é cada vez mais poderosa e a Coreia do Norte comporta-se como uma ameaça permanente. Acresce a isto que russos, chineses e norte-coreanos possuem armas nucleares, enquanto o Japão se contenta em estar sob o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos, o vencedor de 1945 que se tornou um aliado, facto que nem a chegada de Donald Trump à Casa Branca alterou, apesar do receio inicial do primeiro-ministro Shinzo Abe.
Há alguns meses a Assembleia Geral da ONU votou um tratado para pôr fim a todas as armas nucleares, mesmo as dos países que as possuem legalmente (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França). Claro que os países visados se opuseram e nada na ONU avançará sem eles. Mas, tirando a Holanda (que votou contra), nenhum país da NATO participou sequer na votação, tal como outros aliados dos Estados Unidos, incluindo o Japão. Questionar essa posição japonesa e tentar ver nela uma contradição com a sua experiência traumática em Hiroxima e Nagasáqui é ignorar a geopolítica e a tensão na Ásia Oriental.
Mas, se a história mostra ser difícil travar por completo a proliferação nuclear (e no Japão, depois de Fukushima, até o nuclear civil é debatido), resta-nos a certeza de que conhecendo as centenas de milhares de japoneses mortos pela Little Boy e pela Fat Man nenhum país quererá ser o responsável por uma terceira bomba. O agosto terrível de 1945 foi ontem, não dá para esquecer.