A dignidade não arde

A nossa porteira adora arranjar soluções! Mas para problemas que não lhe colocámos ou simplesmente que não existem. Tem um certo tipo de proatividade que normalmente resulta em mais atrapalhação e menos ajuda. A nossa porteira sabe de tudo e de todos, mas quando precisamos dela ou de saber mesmo alguma coisa, nunca está e nunca sabe...

Esta semana, senti que o governo estava melhor para porteira. Estamos habituados a vê-lo meter-se na nossa vida com certas soluções e um certo tipo de protecção, mas quando surge um problema sério e urgente, encolhe os ombros e diz - "É a vida". 

Ele é solução para tudo! Para gravidezes indesejadas, para a infertilidade, está a passos largos de legislar uma solução para o medo da morte e do sofrimento. Até tem solução para quem não se sente bem no seu 'género' e queira ter outro. Por isso fico perplexa com este repentino respeito à natureza que nos agora revela: "A natureza comporta riscos", "Temos que nos habituar", Vai-se repetir".  Que a vida é como é, a gente já sabia, mas tínhamo-nos esquecido (encantados por estas soluções para o problema humano) que afinal, não tem solução para tudo. 

Não sei se se entende a minha perplexidade...depois de nos transmitirem esta confiança, agora afinal, temos todos que respeitar a natureza? Pois se até uma avó, pode carregar no útero o seu próprio neto! Essa "natureza que traz o calor e a chuva" não é também a mesma que faz as crianças nascerem de sexo masculino e feminino? Não é essa natureza que faz da mulher, uma mãe, quando se dá no seu seio a fusão dos gâmetas? Contámos com o Estado estes anos todos para manipular isto, porque é que não podemos contar com ele para manipular os ventos e o calor? Confesso-me desiludida e sei que não estou sozinha. Mas gostaria de chegar ao fundo da questão. 

Na sua carta de demissão a Dra. Constança Urbano de Sousa dá uma boa pista. 

"Apresento formalmente a minha carta de demissão
que tem que aceitar, até para preservar
a minha dignidade pessoal." 

Outra vez a dignidade. A palavra central em todas estas soluções que respeitam pouco  a natureza. Maternidade com dignidade, morte com dignidade. Ah a dignidade! Nesta confusão de soluções artificias para problemas naturais, surgiu este equívoco...

A dignidade humana não se preserva... a dignidade é inalienável. A dignidade da Sra. ex-Ministra está tão intacta agora como antes da sua demissão. Com a sua demissão talvez tenha preservado a sua segurança num momento de reacção popular excessiva, talvez tenha preservado a sua saúde já que estaria certamente sob grande pressão, mas não haja equívocos! Já há muito que um grupo vem dizendo: "Toda a vida tem dignidade", e esta, como os homens, não se mede aos palmos, não é mais nem menos, é um valor em absoluto, como o é a vida, um valor em absoluto.

Andamos perdidos nesta métrica da dignidade, andamos a frequentar a mercearia dos direitos, a comprar dignidade ao kilo, a comprar "soluções" para o problema humano que é simplesmente da nossa natureza. Por isso, os Senhores Legisladores não nos levem a mal se não gostamos de ver a "protecção contra incêndios" fora de stock.

A nossa, direi única, esperança é que enquanto vemos TUDO a arder no fogo, ainda há Alguém que nos vai lembrando que a dignidade não arde.

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